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quinta-feira, 23 de julho de 2015

LILICA,FILHA QUERIDA por Danka Maia




 Essa crônica foi inspirada num vídeo de uma reportagem que muito me comoveu.

Bethi adentrou inesperadamente o recinto e mais uma vez encontrou Hilda com as inseparáveis lágrimas nos olhos. Pensou por um segundo, em quantas vezes não se deparara com aquela cena. A amiga de longos anos com um olhar lançado através da modesta janela a espera da filha que desaparecera sem grandes explicações. Hilda nunca entrava muito na questão. Só narrava que um dia Lilica saiu como fazia todos os dias para pegar a mistura na casa de uma amiga que fizera do outro lado da cidade,para alimentar a ela, a mãe e mais cinco filhos pequenos.O que Hilda ganhava limpando quintais mal dava para básico. Era um fato, faltava tudo mesmo. E desde que Lilica completou oito anos de idade ,vendo agonia da mãe, decidiu sem avisar de imediato procurar um modo de ajudar a sofrida e amada mãe. Era um ritual, depois de conversar com Hilda, a mãe permitiu que a filha fosse, e todos os dias as quatro horas ela saia cruzando a cidade indo buscar a merenda, como a mãe chamava. Bethi conhecia bem essa história.

_Hilda, já se passaram quase quinze anos e você ainda ai,assim...- Logo sendo interpelada.


_O tempo não passa no coração de uma mãe Bethi. São duas verdades: Filhos não crescem, e o tempo não passa.


Bethi cruzou a sala indo ajeitar as coisas na cozinha como sempre fazia.Pensando no sofrimento daquela mulher. Agora com seus filhos praticamente criados. O mais novo com vinte anos de idade.Pela vida talvez deveria estar folgada com a chegada dos netos, da vitória em Lara ter conseguido entrar para faculdade e logo teriam uma Dentista na família.A primeira pessoa da família Santos a entrar para uma Faculdade, inda mais,pública. Mas Hilda se orgulhava muito dos filhos. E se contentava com doce deleite de ser avó. O que era difícil explicar era que ela sabia que se não fosse a  coragem, sensibilidade e complicidade de Lilica nada daquilo poderia ser realizado, talvez nunca conseguido. Por isso o buraco era tão avassalador e o abismo tão colossal e a dor tão dislacerante que rasga o coração. Bethi refletia consigo mesma:


_A atitude de uma pessoa marca o ser humano que ela é.A dessa menina ficou cravada na alma dessa mãe como marca quente e cruel no couro do gado.É para todo sempre.
Achava estranho não haver fotos da criança pela casa.Lara a filha  explicava que a mãe guardara todas.As poucas que tinham, todas num velho baú debaixo da cama.
O dia passou,como todos anteriores e posteriores. Sempre marcados pela ausência presente no seio daquela mulher ,cujo o olhar perdia-se no horizonte todas as tardes na esperança de ver Lilica voltar com o sacola onde trazia a merenda agora não mais necessária para toda família.
No entanto houve um dia, e sempre há. Bethi chegou, Hilda na janela porém dessa vez com algo que semelhava uma foto em uma das mãos.Curiosa Bethi aproximou-se devagar e nesse instante Hilda trouxe a foto contra o peito, curvou a cabeça e outra lágrima desceu da parte direita de seu rosto marcado caindo em suas mãos. Bethi hesitou, não sabia se deveria interferir aquele momento tão íntimo. Retrocedeu, e quando virava dando as costas  foi surpreendida por Hilda:


_Sabe Bethi, essa é a última vez que você me virá aqui. Não vou mais esperar por Lilica.Ontem sonhei com ela pela primeira vez. Estava linda e em paz, e sem a sacola da merenda.Me olhou de um jeito que só ela sabia fazer e entendi o que ela me queria dizer.


_E o que foi?- indagou Bethi aflita.


_A vida continua. E seja lá o que tenha intervido a volta dela pela casa e depois de todo meu esforço para encontra-la,o tempo está passando.ela seguiu por uma estrada linda, cheia de flores, corria feito uma criança!- sorrindo feliz pela primeira vez, contudo aquela frase chamou a atenção de Bethi que retrucou:


_Como assim, corria feito uma criança? Ela era uma criança Hilda!- Foi quando a amiga levantou-se e entregou a foto que jazia em suas mãos e pela primeira vez Bethi veria a imagem de Lilica. Por anos pensou que ela poderia ser morena como Lara, ou mais clara como Davi, entretanto, assustou abruptamente quando deparou-se com uma foto envelhecida de saudade e afeto de uma cadelinha marrom, médio porte agarrada por toda família. Imediatamente objetou:


_Mais isso é uma...


_É minha filha mais velha Bethi.- disse num tom mais contundente Hilda.- Porque quantas vezes eu pedi, supliquei e quase mendiguei para ter como alimentar meus filhos pedindo aos que como eu chamam de seres humanos, e no entanto, ouvia tantos absurdos, como: "Vá trabalhar, sua vagabunda!"  "Quem mandou se encher de filhos!"- Lilica simplesmente foi e durante oito anos trouxe a merenda que a moça do outro lado da cidade preparava para ela e sabia que trazia para mim e os outros filhos.Só que infelizmente, houve um dia em que ela não regressou.


Bethi calou-se.


Hilda completou:


_As pessoas deveriam analisar antes de classificar animais irracionais e racionais.Pois quem me ajudou criar meus filhos não foi um ser humano, não com duas pernas e sim de quatro patas. Nela achei mais humanidade que numa multidão de pessoas durante a vida toda.- E seguiu para o quarto.


Sabe leitor,vivemos hoje num momento onde animais ou assim chamados nos tem ensinado o que é ser humano.eu deixo essa crônica na esperança que o olhar e atitude de todos nós sejam abaladas ao ponto de transformar-se em amor.Porque é disto que o homem precisa: do verdadeiro amor. Como sempre digo: O melhor do amor é amar.

 
Boa reflexão.