Entre Quatro Paredes e Nada Mais LIVRO

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

"Tive um filho com um mendigo"

A professora curitibana Lúcia*, 43 anos, apaixonou-se por um sem-teto e o levou para casa. Ele chegou a trabalhar, mas voltou para a rua. Entre idas e vindas, ela acabou engravidando quando já estavam separados. Sofreu agressões, buscou proteção judicial e terapia... Hoje, superou a crise, o filho tem dois anos e conhece o pai, mas não toda a história.
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Em 2007, eu cursava a faculdade de Letras e, num fim de tarde, antes de ir para a aula, resolvi parar numa praça ali perto. Repassava mentalmente o conteúdo que cairia numa prova sobre Shakespeare quando um homem parou na minha frente e ficou me encarando. Como se me desafiasse para um duelo, ele disse: ‘A vida é um jogo: ou você perde ou você ganha. William Shakespeare’. Nem sei se a frase existe, mas a coincidência me impressionou tanto que, na hora, comentei com aquele moço que nunca tinha visto que teria uma prova sobre o autor. Ele perguntou meu nome. ‘Lúcia’, respondi. O dele era Valter. Vestia um blusão, estava com a barba por fazer, lembrava um pouco o Che Guevara. Era de uma beleza rústica, diferente. Podia ser um estudante, levei algum tempo para entender que ele morava na praça e que eu estava invadindo seu espaço. Ele me disse que tinha 38 anos, exatamente como eu naquela época. Só depois descobri que ele tinha apenas 28.

Fase difícil
Valter quis saber por que eu parecia tão triste. Expliquei que passava por fase complicada. Aquele tinha sido o ano mais difícil da minha vida. Perdi meu pai, meu irmão sofreu um grave acidente e meu ex-marido tinha levado nossas duas filhas para morar com ele em Santa Catarina. Depois de um casamento de dez anos, nós tínhamos nos separado cordialmente e, como minha vida andava difícil, meu ex perguntou se as meninas, então com 6 e 11 anos de idade, poderiam ir morar com ele, concordei. Sou mãe de outra garota, fruto de um namoro adolescente, mas ela já é moça e independente. Venho de uma família de classe média alta. E, na infância, tive todo conforto. Mas, depois que meu pai se aposentou, perdemos quase tudo. Restou a casa da minha mãe e a minha, construída no mesmo terreno.

Não contei tudo isso ao Valter, apenas confirmei que estava triste. Ele retrucou que a vida era maior que os meus problemas. Apontou a Lua despontando no céu e disparou outra citação: ‘Vai atrás do teu desejo, encontrarás tua verdade’. Engatamos uma conversa, eu disse que era estudante mas já dava aulas e, no final, ele me falou que eu não tinha amor próprio, que deveria estar estudando ou lecionando, e não perdendo tempo na praça. Levada pelo momento – e meio de brincadeira – respondi que tinha uma fantasia: largar a vida de professora, virar prostituta e trabalhar ali na praça. Valter respondeu que para essa profissão eu já tinha “passado da idade” e que não ganharia “nem mais que R$ 50 nem menos que R$ 15” pelo programa. Perguntei quanto ele tinha, ele respondeu que tinha R$ 10. Sem pensar, fiz um sinal de que aceitava. A verdade é que o achei encantador e era a primeira vez que eu me interessava por alguém desde a separação.

Mas ele não tinha dinheiro nenhum, foi pedir para um sapateiro ali perto, e fiz de conta que não vi. Só quando voltou, percebi que a manga de seu casaco estava rasgada. Fomos direto para um motel. Ele continuou me surpreendendo. Foi sensível e carinhoso comigo. No final, depois de uma transa deliciosa, realizou a minha fantasia
e me pagou. Quando saímos dali, me levou para a beira de um lago próximo e me abraçou. Nesse momento senti medo e me dei conta de que tinha transado com um mendigo. Acho que ele percebeu, pois quando eu disse que ia embora,me segurou. Perguntou se eu não acreditava que o destino tinha me colocado no banco da praça.
Respondi que acreditava e fui embora, mas deixei meu telefone.

Medo e expectativa
No outro dia, mesmo transando de camisinha, acordei apavorada e marquei todos os exames possíveis para saber se tinha contraído alguma doença. Felizmente, os resultados não apontaram nada. Pouco tempo depois, o Valter ligou e pediu que fosse até a praça procurá-lo. Fiquei em dúvida,mas acabei indo. Então, ele me contou que vivia na rua há anos, fazendo bicos, e que tudo o que precisava para arrumar um emprego e mudar de vida era ter motivação. Segundo ele, essa motivação era eu. Dez dias depois desse encontro, Valter me ligou pela segunda vez. Agora para contar que estava empregado em uma cabanha, uma espécie de haras. Disse que eu era a razão de ele ter conseguido aquele trabalho e, por isso, queria me oferecer um churrasco. Deixei o telefone da cabanha com a minha mãe e fui encontrá-lo.

Quando cheguei lá, não consegui acreditar no que vi. Valter era outro homem. Estava lindo de jeans e barba feita, e o lugar era inspirador, verdejante com muitos bichos e fartura.

Começamos a namorar nesse mesmo dia. Achei que ele tinha potencial para crescer no trabalho. Criei a expectativa de que faria terapia para se curar dos traumas da rua e que conseguiria se reintegrar na sociedade. Ele me deu uma bombacha de presente e me apresentou a um mundo que eu não conhecia. Por dois meses, passei a visitá-lo todos os finais de semana, achei que poderia passar minha vida ao lado daquele homem. Convidei-o para jantar com a minha mãe. Ele fez questão de ir todo arrumado e se saiu bem, até preparou uma massa para nós. Eu só tinha contado para minha mãe que ele era pobre, vivia de bicos e alugava um quartinho. Às vezes, ele fazia isso mesmo, mas eu não contei que ele alternava a pensão barata com longas temporadas na rua. Algum tempo depois, minha mãe implicou com Valter. Num fim de semana em que ela estava fora e ele veio ficar comigo, me pediu para usar o computador dela e eu deixei. Por acaso, ela ligou justamente nesse momento. Ele atendeu e ela ficou coma pulga atrás da orelha por ele estar lá, na sua escrivaninha, sem a sua autorização.