Entre Quatro Paredes e Nada Mais LIVRO

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Jovem desabafa sobre estupro ocorrido há 10 anos no Facebook e é hostilizada por internautas: “Parabéns”

 

"Desejem os parabéns pra ela, afinal não se faz 10 anos todo dia, não é mesmo!", incentiva mensagem em grupo criado por celular. "Fico triste em saber que há pessoas tão cruéis neste mundo", diz Viviane Teves, que pretende levar caso à Delegacia de Crimes Virtuais

O grupo criado no Whatsapp para "parabenizar" Viviane Teves pelos 10 anos que foi vítima de estupro (Foto: Reprodução / Facebook)

Uma jovem diz ter sido hostilizada pela internet e celular após publicar uma desabafo em seu perfil no Facebook sobre o estupro de que foi vítima, há 10 anos. A coordenadora de mídias sociais Viviane Teles resolveu falar abertamente sobre o trauma pelo qual passou em 12 de fevereiro de 2005, quando tinha 16 anos.
 
“Foi apenas passar por um lugar próximo do que aconteceu que tudo voltou à tona. São 10 anos... 10 anos se passaram desde que eu fui estuprada. Mas sabe, não foi só eu. Hoje em dia tantas pessoas passam por isso (o que é horrível) e conseguem lidar. Eu consegui, do meu jeito. Não tenho problemas em falar isso publicamente, eu acho que esse é o tipo de assunto que todos devem saber. Todos devem se conscientizar”, escreveu ela, na terça (9).
A publicação recebeu milhares de “curtidas” e comentários apoiando a coragem de Viviane. Mas, pouco depois, a jovem diz ter começado a receber mensagens irônicas, “parabenizando” pelos 10 anos do crime.
 
Hoje é um dia muito especial, faz 10 anos que nossa querida Vivi Teves foi estuprada e depois desse dia ela nunca mais foi a mesma. Até hoje ela está brincando de DJ e esperando um novo estupro. Então desejem os parabéns pra ela, afinal não se faz 10 anos todo dia, não é mesmo!”, diz um grupo de Whatsapp que ela diz ter sido criado incluindo o número de seu celular.
Mensagens que a jovem diz ter recebido por celular: "Eu sou forte hoje. Mas na época, eu tentei o suicídio" (Foto: Reprodução / Facebook)
 
Eles simplesmente fizeram um grupo no Facebook (conhecido como Mafia da Barba), disseminaram meu telefone e pediram para o dia inteiro me mandarem parabéns pelo meu estupro. Eu sou forte hoje. Mas na época, eu tentei o suicídio. Fico feliz por hoje eu ter esse discernimento e entender que são apenas adolescentes, mas fico triste em saber que há pessoas tão cruéis neste mundo”. A jovem diz que já está em contato com advogados para levar o caso à Delegacia de Crimes Virtuais.
 
Muitos dos insultos registrados por Viviane e postados também no seu perfil no Facebook citam a página “Humor Negro”, comunidade criada por ela no Orkut e mais tarde transferida para o Facebook. A coordenadora de mídias sociais diz ter abandonado a página, que fazia piadas com tragédias, o que teria revoltado alguns dos seguidores.
“Essas pessoas não aceitaram isso. Ameaçaram meu filho de sequestro, fizeram montagens minhas sexuais. Se os erros do meu passado hoje talvez estejam caindo sobre mim? Talvez... mas ainda acho que nada disso justifica”, observa.
 
Viviane conta que foi estuprada aos 16 anos por um homem que se fez passar por um vidente, no Centro de São Paulo. Após atraí-la até uma padaria, ele teria colocado droga em uma bebida. Sem reação, a jovem conta que foi levada a um motel, onde foi violentada, fotografada nua e roubada. Ela diz que decidiu usar a rede social para desabafar como forma de ajudar outras vítimas de estupro.
“Eu achei que depois de 10 anos eu precisaria lidar com isso abertamente. Não sou a única pessoa que passa por isso no Brasil e saber lidar com isso ajuda no dia a dia. Nunca vamos esquecer, mas vamos superar.”



Fonte: Revista Marie Claire