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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Casal de Pastoras Reúne Milhares de Evangélicos Homossexuais em Cultos

Em noite de culto na Avenida São João, em São Paulo, Rosania canta para os fiéis (Foto: Lalo de Almeida / Marie Claire)

Nem Deus, nem Diabo, nem homem algum foi capaz de acabar com o amor entre duas mulheres religiosas. Depois de anos de negação e um encontro com a morte, Lanna Holder e Rosania Rocha decidiram assumir a relação. Como não encontraram uma igreja capaz de aceitá-las, fundaram a própria. Hoje, os templos da Cidade de Refúgio acolhem evangélicos que, como elas, são homossexuais


 Diz a tradição cristã que enxurradas de enxofre e labaredas de fogo caíram do céu no dia em que Deus destruiu as cidades de Sodoma e Gomorra e matou todos os seus habitantes. Esse teria sido o castigo divino pelos pecados que os cidadãos tinham cometido: assassinato de crianças e idosos, estupros e sexo grupal entre homens. Assim, os sodomitas, tais como os ladrões e tantos outros criminosos listados na Bíblia, não herdariam o reino dos céus.

A história é repetida à exaustão hoje em templos evangélicos como a prova de que Deus condena os homossexuais. Programas de televisão pentecostais defendem a “cura gay” apoiados nessa passagem do texto bíblico e defendem que reverter a sexualidade não só é possível como necessário para evitar o encontro com o Diabo. “A verdade é que ninguém quer ir pro inferno”, diz Lanna Holder, 40 anos, sete dos quais passou defendendo essa tese.

Em 1996, aos 21 anos, ela entrou para a Assembleia de Deus, a maior organização evangélica do Brasil, em busca de solução para dois problemas que considerava graves: o uso de drogas (Lanna cheirava cocaína, fumava maconha e bebia muito) e a atração por meninas. O primeiro ela solucionou depois de um só culto. Já o segundo, descobriu ser mais difícil.

 Por anos, tentou afastar o “pecado”, evitou manter amizade com mulheres e usou a própria história de “ex-lésbica” para convencer outros gays de que era possível mudar. Até que entendeu que estava mentindo para si mesma: podia largar as drogas, mas não algo que nascera com ela.

Hoje, Lanna é diretora da igreja inclusiva que mais cresce no país. Tem a seu lado a mulher, a cantora Rosania Rocha, 41 anos, que também lutou por anos contra a própria natureza. Criada em 2011, a Comunidade Cidade de Refúgio é fruto da história de amor das duas pastoras e já possui quatro filiais além da sede, no Centro de São Paulo, onde os cultos dominicais extrapolam a lotação máxima de 300 fiéis – quase todos gays. Este ano, um novo templo, com capacidade para 2 mil pessoas, será inaugurado.

AMOR IMPOSSÍVEL

A sintonia das duas é antiga e teve início 12 anos atrás, em Boston, nos Estados Unidos. Rosania, então com 29 anos, morava na cidade com o marido e o filho pequeno. Cantava em igrejas da comunidade latina e tinha alguns discos gravados. Era uma estrela em ascensão no mundo gospel.

Enquanto isso, no Brasil, Lanna se tornava conhecida pela “cura” de sua homossexualidade. Era casada com outro pastor e também tinha um filho. Sua história lotava cultos e ela viajava cada vez mais longe para contá-la. Assim chegou a Boston, onde faria uma rodada de pregação. Elas ainda não se conheciam, mas Rosania havia sido escalada para cantar na ocasião. Quando se viram, a atração foi imediata.

“Lembro de hora, data, cada detalhe”, diz Rosania ao recordar o episódio. No início, mantiveram uma amizade. “Dessas de fazer trancinha no cabelo, trocar confidências.” Lanna queria se tornar mais feminina e ela tentava ajudar. “Dizia para colocar unhas postiças, essas coisas.”

Para Lanna, a convivência era novidade. “Não tinha amigas. Por causa do meu passado, evitava ter”, diz. Durante seis meses, elas viajaram pelos Estados Unidos a convite de diferentes templos. Lanna pregando e Rosania cantando.

“Um dia, paramos na estrada e o pessoal foi comprar um vinho. Ficamos a sós. Eu estava confusa, mas tinha liberdade com Lanna e decidi falar: 'Acho que estou gostando de você de um jeito diferente'”, lembra Rosania. A resposta foi rápida: “A recíproca é verdadeira”. No hotel onde o grupo se hospedou, elas dividiram uma das camas de casal (“A gente não fazia nada naquela época”, se apressa em explicar a cantora). “Mas não conseguimos dormir. Ficamos nos olhando, sem saber o que fazer.”