Entre Quatro Paredes e Nada Mais LIVRO

domingo, 25 de janeiro de 2015

MONOTONIA (Por Danka Maia)

  

Mel era uma jovem comum. De olhos, boca, jeito, corpo e riso comuns. Estranho mesmo seria o que lhe ocorreria naquele fim de tarde de maio. Ela atravessou, caminhou, esteve, foi aos mesmos lugares de sempre, definitivamente nada era anormal. A jovem comeu, bebeu, brincou, leu, estudou, escreveu tudo do jeito que tinha que ser. Em casa ouviu, falou, sentiu, provocou, chorou e sorriu, sim, outra vez, de novo igual. E ao fazer a primeira ligação do dia, a hora vespertina fez a moça olhar os raios de sol despedindo-se tímidos da janela de seu quarto, do outro lado da linha deveria estar Arthur, seu namorado, mas vem à vida e seu amante o acaso e convida graciosamente a doce menina a quebrar a própria e santa rotina, ou seja, a monotonia nossa de cada dia.
        No caminho não foi. No taxi também não, mas sabe, nessas horas o coração da seu jeito para se fazer notar. Ao chegar no prédio do rapaz, subiu pelas escadas, a sorte dela era Arthur morava no primeiro andar.
        Bateu uma. Duas. Três vezes. Sussurrou, chamou, berrou o seu nome, no entanto o moço não veio dessa vez. E no terceiro ato de completo desespero que nesses instantes dominam a nossa mente, rompeu a porta dentro caindo de cara no chão, foi quando a luz se ascendeu e com ela a pequena multidão:
        -Surpresa! - Sem jeito, sem graça, Arthur correu e a levantou feliz por tê-la ali diante de si. E em meio a todos confessou:
        -Amor, esperei seu aniversário para fazer nele o meu pedido. Quer casar comigo? -Mel não pensou duas vezes:
        -Não! -a sala emudeceu, os semblantes tornaram-se cerrados, Arthur perplexo, tentando entender onde havia errado. Porém Mel a todos e a ele elucidou:
    -Lamento Arthur, é mais forte do que eu, não posso me casar se primeiro não me acostumar com a rotina que isto possa me causar. Com o aquilo que ainda não domino, entendo ou pratico. Admito, é estranho, entretanto essa ainda sou eu, e se foi.
     Às vezes de tanto precisarmos acostumar com o que os olhos alcançam e nossas mãos envolvem, esquecemos-nos do delírio mais nobre dessa plenitude que intitulamos de vivência: O melhor da vida vai além de existir. E lembrar-se que viver faz parte dessa surpresa, e que para ser habitada intensamente e de modo exaustivo, merece que se arrisque nela. Viva a vida, não se tranque nela.