Entre Quatro Paredes e Nada Mais LIVRO

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A PRAGA DA DANÇA?


Conheça a bizarra história do surto que fazia as pessoas dançar até a morte

Conheça a bizarra história do surto que fazia as pessoas dançar até a morte
Você deve conhecer vários “pés-de-valsa”, que adoram dançar e basta com que ouçam uma musiquinha para sair por aí chacoalhando o esqueleto. No entanto, ocorreu na Europa — em 1518 — um caso relacionado com a dança bastaste curioso: na cidade de Estrasburgo, na França, uma mulher começou a dançar e permaneceu assim por dias a fio sem descanso, sendo pouco a pouco acompanhada por centenas de pessoas.
Os indivíduos afetados dançavam compulsivamente sem parar e, como consequência, a maioria acabou falecendo em virtude de ataques cardíacos, derrames e cansaço. A mulher que apresentou os primeiros sintomas sucumbiu após um período entre quatro e seis dias de atividade incessante.

Músicos e profissionais

As autoridades locais, ao não saberem como lidar com a situação, acreditavam que a dançomania só podia ser curada se as pessoas dançassem até que o desejo se esgotasse. Inclusive foram liberados espaços nas prefeituras, e músicos e dançarinos profissionais foram contratados para acompanhar os maníacos.
Fonte da imagem: Reprodução/Wikipédia
Depois de um mês, cerca de 400 pessoas tinham sido afetadas pelo surto, e como ele parecia não ter fim, as autoridades decidiram enviar os dançomaníacos a um santuário para que implorassem pela cura. O evento de 1518 durou aproximadamente dois meses até que a epidemia se dissipasse, e o mais curioso é que este, embora seja um dos episódios melhor documentados da História, não foi o único.

Possíveis explicações


Outra crença é a de que os envolvidos faziam parte de um culto herético e, ainda, que a dançomania era, na verdade, um caso de histeria coletiva. Contudo, hoje em dia a teoria mais aceita é de que as pessoas afetadas se encontravam em uma espécie de transe. Segundo os especialistas, as pessoas mais susceptíveis a sofrer dessa condição normalmente se encontram sob estresse psicológico ou acreditam na possibilidade de possessão espiritual.

Praga divina

São VitoFonte da imagem: Reprodução/Wikipédia
Aparentemente, ambas as situações podiam ser observadas na população de Estrasburgo de então. Os pobres estavam atravessando um período de fome extrema e doenças, sem contar que muitos eram devotos de São Vito e temiam a sua maldição. Portanto, os habitantes acreditavam que se o santo fosse provocado, ele lançaria a sua ira na forma de uma praga que provocava a compulsão por dançar.
Conforme explicaram os especialistas, como a população se encontrava em um estado psicológico profundamente vulnerável e temia a praga de São Vito, muitos acabaram entrando em estado de transe, dançando enlouquecidamente durante vários dias. A epidemia, portanto, foi provavelmente provocada por uma combinação de medo e desespero.
Os surtos de dançomania acabaram desaparecendo conforme algumas partes da Europa foram se tornando protestantes, a crença em santos deixada de lado e o medo do sobrenatural começou a desaparecer. No entanto, embora a Epidemia de Dança de 1518 tenha ocorrido há meio milênio, esse evento ainda serve de curioso exemplo sobre a incrível estranheza do cérebro humano. E você, leitor, já tinha ouvido falar desse surto?
Conforme afirmam historiadores, tudo teria começado com uma mulher. Ela saiu de casa, provavelmente em 14 de julho ou algum dia próximo, e começou a dançar. Os relatos da época dizem que ela não parou por seis dias. Em uma semana, outras 34 pessoas começaram a se mexer de maneira ininterrupta. Era a eclosão de um dos casos mais curiosos da história da medicina: a epidemia de dança de 1518.
A "praga" tomou conta das ruas da cidade francesa e se tornou um problema para a nobreza e a burguesia, que consultaram os médicos da época. Após as causas astrológicas e sobrenaturais (que eram levadas a sério) serem excluídas, os especialistas chegaram à conclusão que o problema era natural, causado por "sangue quente" (para a medicina ortodoxa da época, poderia ocorrer um aquecimento do cérebro que causaria loucura). O tratamento: dançar, dançar e dançar - até as vítimas recuperarem o controle do corpo.
Salões e mercados foram abertos para as vítimas. Dançarinos profissionais e músicos foram chamados para mantê-los mexendo. Dia e noite, as pessoas requebravam freneticamente, sem parar. Se o doente enfraquecia, desmaiava, cambaleava ou diminuía o passo, o ritmo da música era aumentado. "Em um mercado de grãos e uma feira de cavalos, as elites criaram espetáculos tão grotescos quanto telas de Hieronymus Bosch retratando a loucura humana ou os tormentos do inferno", diz em artigo John Waller, professor de história da medicina da Universidade do Estado de Michigan e autor de livros e outro textos sobre esta e outras pragas de dança.

"Em um mercado de grãos e uma feira de cavalos, as elites criaram espetáculos tão grotescos quanto telas de Hieronymus Bosch retratando a loucura humana ou os tormentos do inferno", diz em artigo John Waller
Foto: Wikimedia
Não foi o primeiro caso de praga de dança registrado. Antes de Estrasburgo, pelo menos outros sete surtos ocorreram na Europa. Mas Estrasburgo teve maiores proporções. No final de agosto, seriam mais de 400 "infectados". Muitos mortos de tanto dançar - literalmente. "Nós não temos meios de saber quantos morreram - algumas crônicas dizem 'vários' e as autoridades da cidade foram suficientemente alertadas para parar toda a dança pública, tendo antes encorajado isso. É também plausível que as fatalidades resultaram de dançar sob o auge do calor do verão e raramente se parar para comer ou beber", diz o historiador ao Terra.
Após a primeira estratégia ter sido um desastre, as autoridades decidiram que o problema não era uma doença natural, e sim uma maldição enviada por um santo (para o pensamento do final da Idade Média, que persistia na região, os homens santos não apenas ajudavam contra certos males, mas também poderiam usar as doenças contra pecadores). O escolhido foi são Vito, conhecido por ajudar epilépticos.
A associação com o santo vem de outros casos de praga de dança. O primeiro conhecido foi na Suíça, quando dois surtos ocorreram em prédios religiosos no século 15, no dia seguinte ao de são Vito. Em 1518, a associação já estava bem conhecida.
As vítimas então passaram por uma espécie de cerimônia. Foram calçados nelas sapatos vermelhos e os dançarinos foram despachados para um santuário dedicado a Vito nas montanhas. Eles ficaram ao redor de um altar com as imagens do santo, da Virgem Maria e do papa Marcelo. Nas semanas seguintes, a epidemia perdeu força até exaurir, com os doentes recuperando o controle do corpo.
Mas fica um pouco difícil acreditar que, repentinamente, um grupo de pessoas seja afetado por uma "praga de dança". Dá para confiar nessas histórias? Segundo Robert Bartholomew, sociólogo da Universidade James Cook (Austrália) , "as dançomanias (como também são chamadas) são bem documentadas e foram descritas em numerosas crônicas medievais europeias que continham descrições de testemunhas. Além disso, diversos médicos do período escreveram sobre isso. Sendo assim, não há dúvida de que ocorreram - a questão mais relevante é: por quê?"
Causas e teorias
Diversas são as opiniões sobre o que levou centenas de pessoas a saracotear freneticamente pelas ruas de uma cidade francesa no início da Idade Moderna. Uma delas é de que o problema teria causa química ou biológica. O principal "suspeito" é a ferrugem dos cereais, um tipo de fungo que ataca plantações. Segundo Waller, essa possibilidade foi descartada, pois, apesar de o fungo causar convulsões violentas e ilusões, ele não leva a movimentos coordenados que duram por dias.
Outra causa seria a peste negra. A dança seria uma resposta à dor extrema causada pela doença nas vítimas. Segundo Robert Bartholomew, o problema aí é que a data não encaixa com as de surtos da peste.
Para o historiador John Waller, é necessário entender o contexto da época. As décadas que precederam a epidemia, afirma, foram notáveis pela severidade - mesmo em um período em que a população era acostumada com o medo e a privação. Ocorreram momentos de grande penúria em 1492, 1502 e 1511. Invernos rigorosos, verões abrasadores, granizo e tempestades de neve acabaram com as plantações - desastres que atingem mais a população pobre da cidade. Além disso, os senhores de terra aumentavam os impostos agressivamente e decretavam diversas proibições à população - como pescar e caçar em suas posses, o que apaziguaria a fome.

Em 1516, um verão escaldante acabou com as plantações e o preço do pão disparou. As pessoas gastavam suas economias para pagar pela comida. O inverno que se seguiu foi rigoroso e muitas pessoas morreram de fome. Doenças afligiam o povo e eram consideradas castigos divinos. Um relato da época conta que um orfanato ficou lotado com filhos de vítimas da varíola.
Segundo o historiador, o medo e a angústia eram gerais na população mais pobre, que acreditava em qualquer rumor místico. Além disso, a maldição do santo já era bem conhecida na Europa. "Que são Vito venha para você" ou "que Deus lhe dê são Vito" eram maldições conhecidas na época.
A pressão física e mental, diz Waller, tornou as pessoas mais suscetíveis a sugestões. Quando elas viram pessoas "amaldiçoadas" por são Vito, acreditaram também que elas eram amaldiçoadas e se uniram inconscientemente. A ação das autoridades, de incentivar a dança das vítimas em locais públicos, fez com que a epidemia só se espalhasse ainda mais.
"A praga de dança foi uma expressão patológica de desespero e medo religioso", diz Waller. Essa explicação se aplicaria aos demais casos. Em 1374, por exemplo, antes de a praga ser atribuída a são Vito, as vítimas acreditavam terem sido amaldiçoadas pelo diabo ou por são João.
Bartholomew tem outra visão. "Em teoria, muitos especialistas pensam que (as dançomanias) foram uma resposta catártica reprimida por estresse associado a pragas, fome e a peste negra, especialmente a última. Eu discordo. Eu sou um dos pesquisadores que tem uma explicação diferente. A de que essas pragas são consequências de crenças religiosas nas quais as pessoas pediam favores divinos através da dança", diz.
O sociólogo diz que relatos da época afirmam que as pragas de dança começavam com grupos de peregrinos que chegavam às cidades atingidas. Essas procissões eram marcadas por gritos a santos e danças pelos participantes. Ao longo do percurso, os moradores acabavam se unindo à dança, que se tornava frenética por parte dos fervorosos.
Para Waller, há um problema com esta hipótese: as vítimas não demonstrariam prazer em seus atos. Elas implorariam a outras pessoas e padres por ajuda. As expressões em suas faces eram de medo e desespero.
O fim repentino
As pragas de dança ocorreram durante a época final da Idade Média e desapareceram. Estrasburgo foi o último grande caso e até o final daquele século teriam sumido por completo.

Gravura de 1587 mostra a cidade de Estrasburgo, que no período romano foi chamada de Argentoratum
Foto: Wikimedia
"Não está inteiramente claro por que esses surtos pararam no final do século 16. É sensato assumir que como a crença nas maldições de santos enfraqueceram lentamente, elas não poderiam mais surgir. É também provável que com o estável crescimento do nível de instrução e o aumento, apesar de gradual, de uma mentalidade mais laica entre os educados, esses surtos não ficaram fora de controle porque as autoridades davam menor créditos às crenças populares", diz Waller.
Para o historiador, fica uma lição com a epidemia de dança. Por mais sobrenatural e inacreditável que o caso pareça, ele é um fenômeno psicológico que "nos lembra da inefável estranheza do cérebro humano".
Fonte:http://www.megacurioso.com.br/