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domingo, 27 de abril de 2014

Harmonia suspensa

Arte: Sascalia


Harmonia suspensa
Se o vestido envergado com tanta simplicidade não tivesse flores multicolores impressas, talvez o olhar não tivesse sido atraído até à pequena figura magra e frágil que por ali passava. Mas as flores eram belas sobre o tecido cor do céu de verão e o olhar subiu até ao rosto de porcelana da delicada menina, para se atrasar no olhar, atento e vivo, que escrutinava o seu ambiente como quem quer gravar na memória cada pormenor de uma paisagem que jamais poderá ver de novo. Observava e sorria com o brilho especial da inocência de quem ainda procura o seu caminho na vida. Parecia flutuar num halo luminoso carregado de magia.
Era um raio do astro solar que tinha conseguido abrir caminho entre as nuvens brancas e aquecer a pele dos humanos que pareciam, até ali, inconsoláveis. Havia no olhar da pequena uma pergunta por pronunciar, uma resposta suspensa no tempo à questão que nunca se tinha pousado. E nos lábios pairava um abraço por dar, um sentimento que deveria expressar-se mas calava-se.
E o observador, sem que lhe tenha sido possível lutar, deixava-se levar pela maré daquele azul e branco, transportado até ao coração dos seus pensamentos íntimos. E via. E sentia. E sabia. Ou talvez tudo não passasse de um sonho, de uma impressão deixada por aquele olhar tão intenso numa pessoa tão pequenina.
O instante foi fugitivo e já escapava a quem o vivia. Havia outras preocupações, outras ocupações. Daquele momento de perfeita harmonia em que era possível tocar do dedo a magia do silêncio, já nada sobrava além de uma vaga lembrança.
Será necessário voltar a encontrar aquele olhar, aquele sorriso, aquele brilho no rosto frágil e puro, para recordar que, por ser efêmera, a felicidade do equilíbrio entre o que sentimos, o que sabemos e o que desejamos, conserva a magia do impalpável que precisa do impulso da pureza de uma criança para se manter viva.

Dulce Morais