Quem sou eu?

Danka Maia é Escritora, Professora, mora no Rio de Janeiro e tem mais de vinte e cinco obras. Adora ler, e entende a escrita como a forma que o Destino lhe deu para se expressar. Ama sua família, amigos e animais. “Quando quero fugir escrevo, quando quero ser encontrada oro”.

UM ESCOPO DUAS SINAS Por Danka Maia

 
Eu fui romântica, mas à minha maneira. Nunca escrevi um bilhete de amor ou planejei uma surpresa especial, mas exalava romantismo. No me canto, no lugar das cartas, jaziam os poemas,os sentimentos que não lidar mas que corriam tanto meu ser.Eu procurei meu príncipe, e muito, até  descobrir que ele não viria,e não era porque não me amava e sim porque não existia.

No fundo não é o que toda mulher faz? Se ilude...

Então fiz de conta que o encontrei. Não era exatamente como eu imaginava em meus devaneios, mas era, definitivamente, um príncipe.Pelo menos contei carneirinhos até me convencer disto.

E ele correspondeu ao meu encanto ou fingiu bem,acho.  Sobrevieram dias de encantamento mútuo – eu não conseguia tirar os olhos dele, ele não poderia passar muitos instantes sem ouvir a minha voz dela.  Um sorriso, um toque, um gesto, uma confidência, um olhar.  A sequência se repetia, revolvendo a cada instante, ficando cada vez mais forte e intensa, como uma grande sinfonia chegando ao seu instante principal.

Mas, sempre existe o mais...

De repente tudo se quebrou. Um cálice de cristal estilhaçando no chão, uma agulha de vitrola antiga arranhando por completo o disco, despedaçando a música e o seu coração.

Eu busquei o olhar dele e pela primeira vez os vi desviar de mim, surpreendeu-me com a indiferença. Olhei para o coração dele e viu o que nunca deveria ter visto,o vazio.

 Irremediável indiferença. Inconciliável abismo.

Então,eu que era menina. Era princesa.
Passei a ser mais uma que dorme na sarjeta,ganha trocados para o pão, sou levadas para albergues, e bebo álcool para me esquentar quando não tenho para um litro de cachaça.
O vi depois disto, mas minha figura não o deixou reconhecer-me.Criei coragem e pedi um moeda.

_O senhor pode  me dar um trocado?

_Para que ?- ele questionou.-Para comer ou beber?

_Para beber.- respondi.

Então ele me deu e quando deia as costas ,ele completou:

_Sei bem o que é isso.

_O que?- repliquei.

_Beber para esquecer uma saudade onde o pão não tapa o vazio do coração.

Eu fui.

Ele sentou-se à beira da estrada e chorou.

Jamais saberei se foi por mim que  bebia,mas soube que ele sofria do mesmo que eu.E por isto, me senti feliz.







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