Entre Quatro Paredes e Nada Mais LIVRO

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

"Sobrevivi aos ataques terroristas em Paris”

A decoradora Sophie Reungeot relembra a chacina na casa de shows Bataclan, após duas semanas de ataques terroristas de Paris (Foto: Arquivo pessoal)


“A sexta-feira 13 amanheceu quase fria em Paris. Mínima de 9 graus, típica de um meio de outono. À minha frente, o dia se anunciava longo: dentista logo cedo, escritório na sequência e encontro com amigos à noite. Tentei bolar um look que fosse, ao mesmo tempo, clássico e roqueiro, para durar toda a jornada. Sou designerde interiores e trabalho na maison Pierre Frey, uma conhecida grife de sofás e papéis de parede com sede no bairro de Saint Germain de Prés. Escolhi uma camisa azul, uma calça slim preta, botas de couro com estampa animal print e batom vermelho nos lábios. Além, é claro, de meus óculos de grau. Tenho miopia e, sem eles, não sou ninguém.
No meio da tarde, já cansada e antevendo o dia de labuta que teria também no sábado, comecei a questionar o combinado feito com meu amigo Emmanuel Wechta. Aos 42, Manu, como todos o conhecemos, trabalha numa casa de repouso da Cruz Vermelha coordenando atividades recreativas e tem uma energia invejável. Havia comprado ingressos para o show da banda de garage rock Eagles of Death Metal naquela noite no Le Bataclan. Foi uma compra impulsiva, feita em junho, logo após assistirmos a outra apresentação do grupo. ‘As entradas são baratas. Pago o seu e pronto’, avisou ele à época.
"O clima no Bataclan era ótimo. Havia tatuados, barbudos, quarentões, garotas mais jovens"
Chegando lá, decidimos ficar no balcão do terceiro andar. Gosto da  pista em frente ao palco, mas Manu usa muletas para se locomover, devido a um problema na coluna, e precisava se sentar. Sem perceber, ficamos colados a uma saída de emergência. O clima no Bataclan era ótimo. Havia tatuados, barbudos, quarentões, garotas mais jovens. Copos de cerveja circulavam de mão em mão. Não tenho o hábito de fazer posts no Facebook, mas a noite estava tão boa que publiquei uma foto ao lado de Manu e de sua prima Marielle [Timme, 32, produtora cultural]. 
O grupo subiu atrasado ao palco, às 21h, mas ninguém pareceu se importar com isso. Não havia a menor agressividade no ar. Quando o Eagles começou a tocar, os mais jovens subiram nas costas dos parceiros. Alguns eram suspensos pela massa e iam sendo levados sobre a multidão até a beirada do palco, de onde os seguranças os mandavam de volta. Lá de cima, ríamos vendo tudo aquilo. O vocalista bigodudo, Jesse Hughes, jogou palhetas para o público e armou uma batalha vocal entre homens e mulheres. Me levantei para dançar ao lado de Marielle e fotografar. Nesse momento, disse a mim mesma: ‘Valeu a pena vencer o cansaço. Fiz bem em ter vindo’.
De repente, um barulho ensurdecedor veio do fundo da sala. Por causa da euforia, tivemos todos a mesma reação: ‘Faz parte do espetáculo!’. O som fazia ‘tá-tá-tá’, como se alguém queimasse fogos de artifício. Virei-me de costas, não me dei conta de nada diferente, e voltei a olhar para o palco. Foi quando vi a expressão assustada dos músicos e percebi que algo estava fora do normal.
A banda Eagles of Metal fotografada pelo celular de Sophie (Foto: Arquivo pessoal)

Um guitarrista saía do tablado correndo. O outro parou de tocar e ficou congelado em frente a seu microfone, sua enorme barba pendendo do rosto e sua guitarra em ‘V’ imóvel. No mesmo segundo, alguém disse para eu me proteger atrás do balcão. Me abaixei e, enquanto fazia isso, vi de longe três homens segurando armasenormes. A miopia me impedia de enxergar seus rostos com clareza. O ruído voltou e agora era ensurdecedor.
"Eu, que num primeiro momento pensei se tratar de um assalto, vi os disparos indiscriminados sobre pessoas que não resistiam e entendi que éramos alvo de terroristas. Tive a certeza: iríamos todos morrer"
Um deles iluminou um objeto e o lançou em meio ao público. Pensei: ‘É uma granada’. De repente, as luzes acenderam e a cena ficou ainda mais crua. Eu, que num primeiro momento pensei se tratar de um assalto, vi os disparos indiscriminados sobre pessoas que não resistiam e entendi que éramos alvo de terroristas. Eles eram jovens. Não usavam máscaras. Tive a certeza: iríamos todos morrer.

Senti muito medo. Ainda no chão, ouvi: ‘Abra a porta, temos de sair!’. Eu era a mais próxima, precisava fazê-lo. Mas o temor de ser vista e alvejada me deteve e, quando finalmente me dirigi até a porta, o fiz ajoelhada. Tentei girar a maçaneta diversas vezes – parecia impossível destravá-la. Concluí que haviam nos trancado lá dentro para metralhar a todos com calma. Mas, felizmente, alguém ao meu lado insistiu que eu tentasse de novo, e então consegui.
Por uma fração de segundo, não soube se era melhor fugir ou ficar ali escondida. Tudo estava acontecendo muito rápido. Corri. Fui a primeira a descer pelas escadas, no que pareceram os dois andares mais longos da minha vida. O tempo todo, temia ser surpreendida por uma Kalashnikov [arma usada pelos terroristas do Estado Islâmico]. Me senti completamente sozinha. Claro que havia pessoas atrás de mim, mas não olhei para trás. Perdi meus amigos de vista.

Cheguei ao térreo. Nenhum tiro me atingira nas escadas e, agora, precisava sair dali para acabar com o pesadelo. Me virei para a direita, pensando na curta distância entre aquele inferno e a rua, talvez livre. Estava tão desnorteada, porém, que andei em direção ao palco. Quando percebi o erro, imediatamente pensei: ‘Estou voltando para dentro da sala, isso não é bom!’.
"Fui a primeira a descer pelas escadas, no que pareceram os dois andares mais longos da minha vida. O tempo todo, temia ser surpreendida por uma Kalashnikov. Perdi meus amigos de vista"
Dei meia-volta e aí avistei uma saída de emergência. Me joguei sobre ela, que destravou com facilidade (ao contrário da outra, era acionada por uma grande barra central) e caí na rua, cercada por outros fãs que fugiam em todas as direções. Movida pela adrenalina, nunca corri tão rápido em toda a minha vida. Tinha na mão apenas meu celular. Meu casaco e a bolsa haviam ficado lá dentro.

No meio da rua, as pessoas gritavam: ‘É preciso chamar a polícia!’. Saí correndo em direção à Bastilha, ou ao menos era isso que eu pensava. Me sentia apavorada e queria ganhar distância do Bataclan o mais rápido possível. Ao mesmo tempo, não sentia nenhum alívio ao fazê-lo, pois os terroristas poderiam estar a postos em qualquer esquina. Eu não tinha a dimensão da tragédia que se desenrolava. Ninguém tinha. Tudo parecia possível naquele horror.
Com os amigos, momentos antes do ataque a casa de shows Bataclan (Foto: Arquivo pessoal)

Segundos depois, um rapaz com o rosto coberto de sangue me parou e pediu ajuda para encontrar uma farmácia. A garota que o acompanhava gritava sem parar. Não sei se estava machucado ou apenas sujo com o sangue de outra pessoa. Acompanhei a dupla até um café ali ao lado e pedi ao garçom que chamasse uma ambulância. Nessa pausa, me senti culpada por ter saído sem meu amigo Manu. Por que eu havia deixado meu parceiro, que se locomovia com a ajuda de muletas, para trás?
"Me senti culpada por ter saído sem meu amigo Manu. Por que eu havia deixado meu parceiro, que se locomovia com a ajuda de muletas, para trás?"
Saí do café e voltei a correr na rua, ao lado de outros fãs. Dei de cara com o vocalista, Jesse Hughes. Nos olhamos por um momento e acredito que vimos a mesma expressão na face um do outro. Ele estava aterrorizado. Aquilo me chocou. Meia hora antes, cantava, dançava. As vozes naquela confusão apareciam de todos os lados, ora com desespero, pedindo ajuda, ora com vigor, conclamando os outros a tomar uma ação. Alguém gritou para que entrássemos todos num táxi que ali estava. O carro estilo SUV conseguiu abrigar várias vítimas, não lembro quantas. Quando já estava lá dentro, uma mulher chamou o vocalista, que entrou por último.
O motorista nos deixou na estação de metrô Chemin Vert, a 850 metros do Bataclan. Um rapaz que me acompanhava no táxi se ofereceu para pagar minha passagem, já que eu não tinha dinheiro algum. Mas, assustado, não conseguia inserir a cédula na máquina de venda automática. Um funcionário nos abrigou dentro de uma sala, ofereceu café, água, e nos deu tíquetes. “O show estava bom, não?”, eu disse ao rapaz. Rimos de nervoso. O atendente se apresentou, se chamava Medi, e perguntou se podia nos dar um abraço. Aquilo me fez muito bem.
De repente, estava sendo confortada nos braços de um desconhecido. Foi emocionante. Decidi ligar para Manu, mas seu telefone estava sem sinal. ‘Eu o deixei. Eu o deixei’, era só o que pensava. Tentei então ligar para Jeremy, meu melhor amigo, que não havia ido ao show. É para ele que corro em situações de sufoco, já que meus pais não moram em Paris. ‘Houve um tiroteio’, balbuciei. Não conseguia fazer frases longas. Ele perguntou onde eu estava e me sugeriu encontrá-lo em outra estação do metrô, onde me esperaria com seu carro.
"O atendente se apresentou, se chamava Medi, e perguntou se podia nos dar um abraço. Aquilo me fez muito bem."
Ele foi meu herói. Me colocou no banco do passageiro e dirigiu como um louco em direção à sua casa. Ia muito mais rápido do que a velocidade permitida, mas, para mim, o traslado levava uma eternidade. Jeremy tinha falado com Manu, que, para meu alívio, estava a salvo. Dentro do carro, me contou de tudo o que se sabia até então: aconteceram outros dois tiroteios em Paris, um no Canal Saint Martin e outro na Rua Charonne, além de uma explosão no Estádio da França, durante o jogo de futebol entre as seleções da França e da Alemanha. Aí entendi e tive a confirmação de que se tratava de um ataque de ódio. Mas ainda tinha dificuldade para digerir o que ocorria.
Os terroristas metralharam pessoas nas calçadas. Eram crianças, adultos, brancos, negros, árabes, católicos, muçulmanos. Tive a impressão de estar numa guerra. Na casa de Jeremy, sua colega de apartamento me acolheu de braços abertos. Às 23h, consegui finalmente falar com minha mãe, que estava na Auvérnia, onde nasci, e assistia a uma peça de teatro enquanto Paris ardia.
Passei a noite assistindo à TV e respondendo mensagens. Jeremy colocou todas as garrafas de vinho que havia na cozinha sobre a mesa. Perdi a conta de quantas taças bebi. As notícias sobre os outros eram tensas. Por volta de meia-noite, Manu confirmou que três amigos, de nosso grupo de seis, continuavam dentro do Bataclan. Senti como se um punhal tivesse atravessado meu coração. Me disse para não publicar nada no Facebook, pois dois deles se comunicavam com a polícia, escondidos, e havia o risco de os terroristas descobrirem. Eles estavam trancados dentro de uma sala. Uma geladeira e um sofá colocados em frente à porta barravam a entrada dos bandidos.

Por ele soube também que Marielle se escondera num banheiro. Ao sair, liberada pela polícia, precisou desviar do corpo sem vida de um dos terroristas no chão. Os oficiais pediam que não olhassem para a pista de dança, que estava coberta de sangue e cadáveres. Manu depois participaria de um programa de TV sobre os ataques e lá encontraria um segurança do Bataclan que lhe descreveria a cena: os terroristas entraram atirando. Primeiro, em direção ao vestiário e ao local onde eram vendidas camisetas da banda. Depois, sobre o bar e o público no fundo da sala. Um deles subiu no mezanino, o local onde eu estava. Ainda bem que decidi fugir no minuto anterior.
"Nessa noite, deitei para dormir na cama da minha mãe, como uma criança de 10 anos. Mas não preguei os olhos."
Passei a noite toda acordada. Ao amanhecer, fui para a janela. O sol estava nascendo e iluminou a cidade. Do apartamento de Jeremy no 18º andar, vi a paisagem mais linda do mundo. A Torre Eiffel de um lado, o Palácio dos Inválidos de outro. Foi um conforto.Paris continuava lá.

Às 9h, saímos rumo à casa de minha mãe, no sul da França. Nas três horas de viagem, ouvimos música, cantamos. Ele foi meu herói. Quando chegamos, a porta se abriu e vi minha mãe estender seus braços para mim. Eu estava muda e ela, muito emocionada. Me segurou por um longo tempo. Dei entrevistas e respondi perguntas o dia todo. À noite, encontrei antigos amigos num bar. Precisava sair. Mal bebemos. Mal comemos. Ninguém tinha apetite. Nos abraçamos, conversamos sobre o futuro,  rimos. Nessa noite, deitei para dormir na cama da minha mãe, como uma criança de 10 anos. Mas não preguei os olhos.
No dia seguinte, fui visitar meu pai, que mora a 30 minutos dali. Ele me recebeu com os olhos cheios de lágrimas. Aí, sim, desabei. Foi a primeira vez que consegui chorar de verdade. Minha família toda estava lá. Um priminho me entregou flores. Passei o domingo com eles. As crianças fizeram muitas perguntas. Voltei para Paris na tarde de segunda-feira. Ao chegar à estação de trem, senti uma angústia. Peguei um táxi para chegar em casa mais rápido, mas também porque queria ver a cidade.
No fim de semana seguinte, eu deveria ir com Manu ao show da dupla de indie folk Brigitte, mas desistimos. Preciso de um tempo. Não consigo entender de onde vem araiva dos terroristas. Não os odeio, mas sei que nunca mais serei a mesma. Vi a morte de perto e tive muita sorte de sobreviver, de ter uma família e amigos que se preocupam comigo. Daqui para a frente, vou dizer mais vezes ‘eu te amo’. Quero encontrar as pessoas. Celebrar. A vida é muito curta.”
Fonte:Marie Claire