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sexta-feira, 22 de maio de 2015

PARTE 2- HANGRA REIS E A MALDIÇÃO DO KHEPRI DE GOIÁS por Danka Maia


















BIOGRAFIA

Final do século XIX, no dia 13 de maio de 1888, em pleno dia onde extingue-se a escravidão no Brasil.
Uma menina, filha de escravos já alforriados consegue sobreviver a um parto extremamente difícil que acarreta na morte de sua mãe, Antônia.Os donos da Fazenda Progresso, o Barão Heleno de Bourbon primo em segundo grau da família da corte francesa, agraciado em bens e sua esposa a Baronesa Belina, que jamais conseguiram ter filhos, haja vista que os que nasceram foram natimortos. Sempre conhecidos por ser tão solícitos aos seus criados, porque foi um dos pioneiros a reconhecer o trabalho e pagar em moeda corrente pelos préstimos daquele povo africano. Decidiram para o assombro de toda comunidade Carioca da época adotar como filha menina que nascera naquele dia, chama-la de Hangra Reis do Brasil sobrenome que os pais adotaram quando aqui chegaram da África.
Hangra Reis fora uma homenagem que a Baronesa desejou fazer ao vilarejo Angra dos Reis - Estado do Rio de Janeiro, que tanto amava e que para si o local que mais dignificava o solo sagrado brasileiro. Hangra recebeu a melhor educação que o poder aquisitivo da época comportava, no entanto, muitas vezes esbarrou no mesmo contexto:
O preconceito Racial.
Era intolerável para a sociedade aristocrata da época aceitar um casal de senhores feudais ter como filha além de adotada também negra.Contudo, isso jamais impediu a menina que virou adolescente e então mulher, dominar seis idiomas, completar os estudos, formar-se com louvor em direito inda que tivesse que assistir algumas aulas no fundo da sala com dois metros de distância da penúltima fileira por exigência dos demais pais e mestres e sendo a única mulher e negra dentro da sala.No entanto, em seu coração ela incansavelmente teve o mesmo ideal, investigar casos cujos não havia explicações ou era absurdamente abafados dadas as circunstâncias ora política ora social-econômica dos indivíduos envolvidos.
Seu pai era reticente quanto a isto, no fundo o Barão julgava que filha conseguiria uma vez sendo mulher e principalmente negra.Após a morte de Belina, sua mãe, ele também logo sucumbiu deixando todos os bens para sua única herdeira,Que vendeu a propriedade, e atirou-se a sua jornada crendo que essa era sua sina e paixão.

PARTE II
 

Ao contrário do que Hangra pensara, seu destino seria a vegetação da Capitania de Goyaz era constituído por planalto, chapadas e serras na maior parte.Do sul,apenas a carta do capitão Honório Bortolotti teria sido originária.Ele e sua senhora à aguardaria na sede na sua Fazenda aos arredores da acanhada cidade.
No embalar da carruagem para quebrar a conhecida concentração de Hangra frente a mais um caso, Bento limitou-se a comentar:

_Goyas, que nome esquisito.- ajeitando a lapela de seu paletó.A jovem entendeu a intenção do amigo e sorrindo com o canto da boca respondeu sem lhe direcionar o olhar:

_Vem do termo tupi gwa ya que quer dizer indivíduo igual, gente semelhante, da mesma raça.

_Vosmecê...Como por hábito sempre se antecipando as atividades do caso.

_É o meu trabalho Novato,é minha vida e sina, o que esperava?- Dessa vez fitando-o como quem enfim quisesse conversar sobre aquele assunto sempre pairando no ar entre eles.
Bento alcançou o intento e corajosamente não perdeu a rica oportunidade aberta pela moça .Não queria mais viver aquela agonia, sufocado em seus sentimentos e sensações.

_Hangra...Sabe que é notório os meus reais sentimentos por por vossa pessoa, não é verdade?

A jovem suspirou profundamente.Chegara o instante que ela jazia tardando.Naquele minuto,ponderou em seu ligeiro raciocínio as inúmeras respostas que poderia dá-lo.Do talhante ao rebuscado.No entanto, optou por um tímido sim.

_Diante disto, fico a me perguntar o que mais tenho que expôr para vosmecê para que eu tenha de modo objetivo uma resposta e...- Ela o interpelou:

_Seria inconcebível Novato!

Houve um silêncio cortante por alguns minutos enquanto se duelavam ou se encontravam um no olhar do outro.Porém,o suficiente para que o moço reagisse abruptamente:

_Cocheiro! - gritou.- Pare! Vou descer!- Hangra arregalou os olhos enquanto a carruagem parava aos poucos com o berro do cocheiro aos cavalos.Novato desceu num rompante só, e volveu caminhando em direção contrária a cidade apanhando suas bagagens. Sacudindo a cabeça, sem esperar por aquela reação, a jovem desceu indo atrás dele apoiando-se charmosamente em sua sombrinha.
 
_Novato,homessa homem,que disparate é esse?

_Donana me advertiu, Matias me advertiu, o Catete me advertiu, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro inteira me advertiu,mas vejam quanta estupidez a minha, EU IGNOREI!- Visivelmente abalado e irritado.

_Isso não processe Novato.- Hangra tentava aborda-lo para uma conversa franca contudo,em um tom mais ameno.

_Não procede? -Parou jogando as malas no chão.- Qual parte vosmecê se refere cara Hangra? Teria eu, vosso nobre capacho virgulado errado a forma verbal e linguística?

_Novato, tenha calma. Parcimônia ,quero conversar todavia não aqui,não assim muito menos nesse tom. Se pudesse supor que vosmecê se portaria de modo tão abrupto nem teria aberto aspas para essa pausa agora.- Dessa vez fora ela quem alterou o tom da voz.

_E por quê? Não seria do seu interesse estou certo? Algo não saiu como a nobre e inteligentíssima Hangra calculou? Sou tão manipulável assim em vossos pensamentos senhorita Reis?- Completamente possesso.

_Bento,estás complicando por demais a conjuntura. 

Demasiadamente desagradável! Estamos cá debaixo deste sol escaldante, no meio do nada, seu nenhum modo ou postura.

_Preocupada com escândalos?- Ele ironizou.

_Não,com escândalos não mas, com nossa educação sim.-mostrando seu desapontamento com ele.- Se ainda estiver disposto estarei em minha carruagem para tratarmos desse assunto como adulto que somos,suponho!- Dando-lhe as costas certa de que Novato a seguiria como habitualmente.Contudo, sempre há uma primeira vez.Bento retrucou em bom e alto som:

_Se ainda julgar que temos algo para tratarmos sobre esse ensejo, estarei hospedado na estalagem que passamos a pouco.Passar bem Hangra Reis!- Deixando a moça completamente tomada por sua reação.
 

A carruagem seguiu com Reis até a fazenda dos Sinais, onde fora convidada para acomodar-se.Lá a sua espera jaziam o Capitão Honório e sua senhora a Sinhá Dina de Mesquita. Uma dona muito doce e prendada,conhecida por seu trabalho aos mais carentes da região demonstravam em seus rostos ansiedade em conhecer a sinhazinha negra e Douta Hangra Reis. quando o cocheiro deu ordem aos cavalos que parassem, e do veículo desceu a jovem com a feição tranquila apesar do que lhe adviera no caminho dali, fez com que o casal senti-se revigorados por uma esperança.

_Obrigada Santa Clara!- exclamou a senhora vindo ao encontro da senhorita Reis com um lenço de renda branca em uma das mãos.

_A senhorita fez uma boa viagem?- investigou Honório contido nas emoções remexendo no vasto nariz.
 
_Sim, de modo satisfatório eu diria. É um pouco longe, entretanto,o importante é cá estou.

Sinhá Dina tocou-lhe as mãos como boa anfitriã deixando de lado as etiquetas da época. Semelhava que a presença da moça de algum modo lhe trouxera certo alvoroço interno. 

_Imaginei que estaria acompanhada pelo seu esposo...

_Amigo. Um parceiro em minhas investigações capitão.

_Senhorita Honório?- lembrou Dina.

_Perdoe-me,não quis ser rude.- justificou-se o homem.

_Imagine. Bento veio comigo, mas decidiu hospedar-se naquela estalagem a beira da estrada.

_Homessa! Não!- Dina trouxe a mão com o lenço ao peito contrita.- Separei um quarto tão arejado para ele.

_Peço que perdoe os modos de Novato,sinhá Dina. Meu amigo tem intemperes.- por dentro gritava: HOMENS!

_O importante é que vosmecê aqui está para nos trazer luz.- emendou o capitão,mascando o fumo entre os dentes.

Os três adentraram a sede. Hangra se encantou com a beleza da casa.De fato, Dina mostrava um excelente bom gosto orquestrado pelo patamar elevado de vida que os Bortolotti detinham. Seu quarto era o quinto de um longo corredor trabalhado em mármore carrara. Era amplo, arejado e todo trabalhado no estilo francês,lembrando muito o seu quando viveu na França. A recordação lhe trouxe um saboroso saudosismo.
Malas desfeitas e um devido descanso, Hangra volveu a sala imponente e aconchegante da sede para uma conversa inicial sobre o caso com o capitão Honório e sua esposa.
Ambos lhe contaram, que toda Capitania de Goyaz encontrava-se alarmada com os fatos que sobrevieram como uma bola de neve desgovernada. Cinco pessoas da mesma família, os Andrada de Tavares Silva encontravam-se acamados, vitimados de uma mesma enfermidade, um AVC cavalar que os impedia de falar, andar, alguns simplesmente vegetavam em cima de suas camas.

_E como isso se deu Capitão?- perguntou Hangra.

_Bem, parece ser sempre do mesmo modo. Porém, num efeito dominó.O primeiro foi Licurgo. Prestes a assinar seu testamento,numa tarde em sua casa recebeu um envelope com algo dentro e abrir deparou-se com um besouro.No outro,a noite,no meio da madrugada entrou num surto que jagunços rondavam sua propriedade e indomável,saindo para o pasto caiu na serralha do pasto. E de lá não ergue-se mais. Depois foi a vez de sua prima de segundo grau.Ela receberia terras do marido falecido, e outro envelope,outro inseto,surto e um derrame que a deixou de boca aberta e olhos arregalados até hoje paralisada em sua cama. Depois foi Henrique,Joaquim e Carlota. A última, no último mês.

_Interessante.- Disse Hangra depois ouvi-lo atentamente.- E que o povo comenta?

Dessa vez foi Dina quem tomou a frente do esposo.

_Ah minha doce flor,não fala em outra coisa nesta cidade que não seja a tal maldição do escaravelho.

_Escaravelho?- Reis retrucou intrigada.- Refere-se ao inseto,seria um escaravelho de Khepri, o rei Sol do Egito?

Os dois deram os ombros, mas Dina emendou:

_Não sabemos nada desse tal Khepri, contudo do escaravelho sim.

_Que é esse tal Khepri?- investigou o Capitão.

Hangra ergue-se e pôs a caminhar até a lareira.

_Na mitologia egípcia,Khepri(também Kheper, Khepera, Khepra, Khepre, Khepere) é o nome de uma divindade principal. Khepri é associado com a imagem do escaravelho,cujo comportamento de ficar carregando bolas de estrume é comparado às forças que fazem mover o Sol.Khepri gradualmente veio a ser considerado como uma encarnação do próprio Sol, e por isso tornou-se uma das formas do Deus do Sol. Segundo a Religião Egípcia, ele era responsável por "rolar" o sol para fora do Duat no final da sua jornada, também representava o renascimento diário de Rá.Como o escaravelho deixa os ovos nos corpos mortos de vários animais, incluindo outros escaravelhos, e no esterco, daí emergindo para o nascimento, os antigos egípcios acreditavam que os escaravelhos estavam carregados da substância da morte. Por isso, associavam ainda Khepri ao renascimento, renovação e ressurreição. De facto, o símbolo do escaravelho Khepri em egípcio antigo significa tornar-se. Como resultado disso, quando o culto do deus-Sol rival Rá alcançou significado, Khepri foi identificado como uma variante de Rá (o aspecto do Sol na manhã ou madrugada).
Consequentemente, quando Rá Amon se tornou a identidade de um mesmo deus (Amon Rá), determinou-se que Khepri era a forma de Rá quando jovem, em conflito com Nefertum, que era o Atum jovem. Isto tudo gerou uma cosmogonia onde Rá, como Khepri, foi resultado da atividade da Ogdóade e emergiu de uma flor de lótus azul apenas para ser imediatamente transformado em Nefertum que, depois de crescer, gerou a Enéade.
Khepri foi principalmente esculpido e pintado como um escaravelho, não obstante em alguns papiros funerários ser representado como um homem com a cabeça de escaravelho. Ele também foi representado como um escaravelho numa barca solar segura por Num. Quando representado como um escaravelho, ele era normalmente posto a empurrar o sol através do céu durante o dia, bem como a empurrá-lo em segurança durante a noite, na passagem do Sol pelo submundo.
Como o aspecto de Rá, é particularmente prevalecente na literatura funerária do período do Império Novo, quando muitos túmulos do Vale dos Reis foram decorados com Rá como o disco solar, Khepri como o Sol na manhã ou madrugada e Atum como o Sol poente.

_Santo Deus! Misericórdia!- Gritou assustada e benzendo-se a sinhá Dina. _Como foi que esse trem veio parar aqui? Honório do Céu! - agarrando ao braço forte do marido.

_Me perdoe se a assustei sinhá Dina,não foi a minha intenção, eu só queria mesmo era narrar os fatos, até porque preciso compreender o caso.

Foi quando ao sino da entrada bradou por três vezes e uma das empregadas direcionou-se para porta e uma figura esguia como uma árvore petrificada surgiu e junto dela um perfume estranho que rememorava ao enxofre saudando a todos.

_Boa noite para quem é de boa noite.- E somente os grande olhos negros como jabuticabas cresceram sobre a figura de Hangra.

Continua..


PARTE I  

 
A carta viera de navio, com o emblema imponente da Estância Velha, Porto Alegre.Hangra rapidamente cruzou pelo salão de sua mansão rasgando o envelope com uma das mãos deixando que as bordas de seus vestido de cetim pérola farfalhasse pelo chão de madeira.Bastava ler: “Aos cuidados da Senhorita Hangra Reis” que tudo era posto de lado, ainda mais a etiqueta de deixar sempre uma mão livre para levantas as saias das vestes da mulheres daquela época.

 
Estância de Goyas

_Outra carta?- Indagou Novato sem esconder a preocupação.Conhecia Hangra como a palma de suas mãos, conhecia aquela voracidade daqueles olhos enquanto percorriam as palavras escritas por alguma caneta de pena.Sabia que outra aventura lhe retiraria a oportunidade de confessar a moça sobre seus reais sentimentos.De certa forma isso sempre o chateava por demais.Era como se um abismo sempre houvesse entre eles e aquela definitiva conversa.
 


_Sim Novato.- Respondeu a senhorita investigadora e concluindo, enquanto se assentava em uma cadeira de madeira que pertencera ao seu pai.- É do sul. Apesar do assunto se tratar sobre a cidade de Goyaz. 

(Ps: Naquele tempo, Goiás, se escrevia e era conhecida por Capitania de Goyaz.)

_Refere-se a Capitania de Goyaz? 


 
Capitania de Goyaz

_Sim,pelo é o que me parece.- objetou sem dar muita tensão a questão do moço. 


_Mas Estância Velha e Capitania de Goyaz? Estão em lugares quase extremos. Só pode ser coisa de um doidivanas.

_Ah meu caro Novato...- suspirou Reis como quem não entendia o lapso de conhecimento do amigo, por fim deixou as cinco folhas ee ajeitando-se os ombros na cadeira olhou para ele dizendo:

_ O atual estado de Goiás foi administrado, no período colônia, pela Capitania de São Paulo, na época a maior delas, estendendo-se do Uruguai até o atual estado de Rondônia. Todavia, seu poder não era tão extenso e proeminente, ficando distante das populações e, também, dos rendimentos.

Depois da descoberta de ouro em Goiás, em 1722, os portugueses buscaram aproximar-se da região produtora, como uma forma de controlar melhor a produção de ouro e evitar o contrabando, além de servir como uma resposta mais imediata aos ataques dos índios e controlar os conflitos e revoltas entre os mineradores. Assim sendo, foi criado através de alvará régio a Capitania de Goiás, desmembrada de São Paulo em 1744 se não me falha a memória, com a divisão efetivada em 1748. O primeiro governador da então Capitania de Goyaz foi Dom Marcos de Noronha que passou a residir em Vila Boa de Goyaz.Durante a maior parte do período colonial e imperial, os limites territoriais entre as capitanias e províncias não eram demarcados com exatidão, estando quase sempre definidos pelos limites das paróquias ou através de deliberações políticas oriundas do poder central. Nesse período, Goiás foi uma das administrações a sofrer maiores perdas de território, com diversas divisões. Duas perdas significativas de território marcaram Goiás na época colonial: O Triângulo Mineiro e o Leste do Mato do Grosso. Já a história da Estãncia Velha constitui-se basicamente com a chegada dos índios. Após a participação indígena, registra-se que em 1788 fazia parte da Real Feitoria do Linho Cânhamo, instalada as margens do Rio dos Sinos, com o objetivo de ocupar a área para a Coroa Portuguesa e produzir cânhamo – matéria prima para a fabricação de cordame de navios e que Portugal exportava para outros países. Como o plano de ocupação não surtiu efeitos desejados, em 1824, já no Brasil Imperial, Dom Pedro distribuiu estas terras da Real Feitoria aos imigrantes alemães que aportaram em São Leopoldo. O primeiro imigrante alemão que se estabeleceu em Estância Velha foi Mathias
Franzen, que derrubou o mato e fez roça. Sendo sapateiro, já em 1830 exercia também o oficio aprendido na Europa. A partir daí, seguiu-se a vinda de diversas famílias de imigrantes.

Por volta de 1890, a tradição coureira de Estância Velha, a principio voltada a fabricação de selas e acessórios para montaria, mais tarde dedicada ao curtimento de couros e peles e produção de calçados, principal vocação da região.

Embora contrariado Novato sorriu, ficava estupefato com o vasto conteúdo de informações que Hangra guardava em sua mente.

_Nem vou vou perguntar de onde vosmecê retirou tanta informação.- brincou ele.

_Só leio Novato, deveria fazer o mesmo.Você tem talento.- ironizou.

_Do que se trata Hangra?- Indagou compelido pela curiosidade enquanto cruzada as pernas.

_Pelo que li, o Senhor Onório Bortolloti quer nossa...- sendo cortada imediatamente.

_Nossa não,SUA!- retrucou Bento Novato irritadiço.
_Novato...Não vamos recomeçar uma velha questão já superada.- ponderou a moça que sabia o quanto o moço e inseparável escudeiro desde algum tempo vinha dando sinais de sua insatisfação em virtude das viagens para resolver os casos investigativos.Hangra pensava que Bento assim se comportava pelo motivo de não gostar que ela se expusesse tanto as críticas da época, afinal, ela era a mulher negra, culta e rica que ninguém queria ter que suportar e ainda por cima comprava rixas eternas com grandes nomes desvendando segredos escusos de políticos e toda corja do resquício da realeza. Em parte sim, Novato tinha essa preocupação,no fundo o que ele almejava era protegê-la de tudo e todos e tê-la somente para si.

_Vosmecê certamente deve saber o que está fazendo.- findou o assunto erguendo-se premeditando uma saída do recinto.
_Novato...- levantou-se também a moça rapidamente o tocando pela mão enquanto desta vez a outra evitava o farfalhar de suas saias.- Por obséquio,rogo-lhe,sabe que esse é meu destino, foi o que escolhi para fazer em prol do meu povo,de tudo que meus pais me fizeram e ensinaram.Mas do que ninguém, és a única pessoa nesta vida que entende a importância do que faço.Não dê as costas.Venha comigo outra vez.- Reis sabia o tom que deveria usar com Bento Novato.Contudo, a importância dele para ela também era massiva e veemente, ela carecia dele consigo.

_Está bem senhorita Hangra Reis. Do que se trata afinal?- volvendo a sentar-se onde estava e dando relevância ao toque tão sutil e desejado da jovem amada.

- Pelo que entendi esse senhor, melhor capitão Onório Bortolotti nos convida para Estância Velha haja vista que a pequena vila passa por uma espécie de maldição.

_Outra? O que o acontece, o povo decidiu amaldiçoar-se?

O olhar de Hangra impediu de continuar.

_Parece que doze cinco pessoas da mesma família já passaram pela mesma coisa.

_Deixa ver se adivinho.- ironizou o moço.- Cinco assassinatos emblemáticos?

_É um caso especial meu caro.

_Acertei pelo visto?

_Errou. Passou de longe.

_Não é uma maldição?- retrucou ele perplexo.

_Sim,mas não de morte. Todos estão vivos.- - sorrindo jocosamente.

E desta vez o companheiro voou nas folhas sobre a mesa e se pôs a ler em completo desatino procurando a ordem cronologicamente das folhas desalinhas pela leitura de Hangra. Ao terminar, fitou Reis que o aguardava tomando um licor de jabuticaba.

_Pelo céus! Que marmota é essa?

_Eu lhe disse que trata-se de um caso muito especial.- tomando o último gole do licor e preparando outro em seguida oferecendo ao parceiro com uma pergunta:

_Então,o que me diz?

De uma golada só ele tomou o conteúdo,limpou a boca com o dorso da mão e objetou:

_Quando partimos?




Continua na sexta...