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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Eu, Leitora : "Usei um disfarce para flagrar meu marido"

 



Lia e Paulo levavam uma vida apaixonada até ela começar a desconfiar que ele tinha outra. Por mais de dois anos, Paulo negou todas as suspeitas, dizendo que ela estava louca. Movida pelo ciúme, planejou com detalhes uma investigação. Usando peruca loira, roupas diferentes e um enorme par de óculos escuros, Lia seguiu o marido e comprovou o que imaginava*
Sempre fui ciumenta, mas nunca imaginei que pudesse fazer o que fiz ao desconfiar de Paulo. Por cinco anos, tivemos uma vida cheia de paixão e carinho mútuo, mas tudo virou um inferno quando a ex-mulher dele se mudou de Campinas, onde morávamos, para o Rio de Janeiro. Paulo passou a viajar a cada dois meses para ver seus três filhos, e eu me mordia de ciúme. Achava que me traía com a ex. Para piorar a situação, fiquei grávida e, nesse período, sentia mais do que nunca que ele estava sendo infiel. Paulo negava sempre, dizia que eu era louca, e nossas conversas acabavam em grandes discussões. Vivi nessa condição por mais de dois anos, até que resolvi tirar minhas dúvidas a limpo. Aluguei uma peruca loira e comprei um par de óculos escuros, além de roupas de estilo bem diferente do meu. Disfarçada, eu o segui e vi com meus próprios olhos que ele tinha outra.
Antes de conhecer Paulo, fui casada por dez anos e tenho um casal de filhos dessa relação. Depois da minha separação, que não teve nada a ver com ciúme, fui trabalhar no departamento administrativo de uma empresa estatal, onde Paulo já era funcionário. A gente começou a namorar, em um ano nos casamos. Foi um período maravilhoso, eu estava feliz com a vida romântica que levávamos: jantares à luz de velas, presentes, noites de amor. Parecíamos o par perfeito. Mas o conto de fadas foi desmoronando com as minhas suspeitas, cinco anos depois de nossa união. Paulo me dava motivos para isso. Além de viajar todos os feriados sozinho com a desculpa de ir ver os filhos de seu primeiro casamento, sempre carregava fichas telefônicas no bolso, mesmo tendo telefone em casa e no trabalho. Durante a minha gravidez, ele às vezes ia para um apartamento que tinha no centro da cidade e ficava um, dois dias por lá. Alegava que precisava ficar sozinho, que eu o sufocava com tanto ciúme. Outras vezes, era eu quem o colocava para fora de casa. Minha filha diz que nunca viu um homem ir e voltar tanto. Passamos a viver assim, às turras.
Um dia ele saiu às 6h da manhã, dizendo que ia até a empresa resolver um pequeno problema e logo voltaria para irmos à casa dos meus pais, que viviam na Praia Grande. Era um sábado. Bateu 7h, 8h e nada dele. Telefonei para a empresa e ninguém sabia onde ele estava. As horas foram passando, e eu louca de raiva. Quando apareceu em casa, às 11h, foi dizendo que o problema era maior do que ele imaginava, por isso tinha se atrasado. Falei que eu tinha ligado e que ninguém sabia dele. Paulo teve o descaramento de me dizer que ouviu o telefone tocar, mas não deu tempo de atender. Nessa época, ele estava com 41 anos e se achando o máximo. Tinha acabado de comprar uma moto e vinha se vestindo com roupas mais jovens. Eu, quatro anos mais nova, estava grávida de sete meses e totalmente neurótica com a nossa relação. Resultado: não fomos ver meus pais e tivemos uma briga feia. Pedia que ele fosse sincero, que afirmasse que tinha outra. Mas ele negava. 'Qual é o homem que sai às 6h da manhã para transar?', perguntava. Eu acreditava desconfiando. O fato é que eu o amava e acabava relevando, até porque ele era muito gentil comigo, me driblava com beijos, abraços e palavras amorosas.
Como não conseguia controlar meu ciúme, cheguei a subornar a secretária dele com balas e bombons para me dizer quantos telefonemas a ex fazia e quanto tempo demorava cada ligação. Ela me ajudava, às vezes me informando, às vezes pedindo a outra pessoa para repassar a informação. Acabei montando uma rede informal de notícias sobre Paulo na empresa.
Quando a ex ligava em casa, eu prestava atenção na conversa e minha cabeça ia a mil. Tudo cabia no espaço entre 'ah, é?' e 'eu também'. Passei a revistar as coisas dele. Assim que chegava do Rio, cheirava as camisas, mexia na carteira, atrás dos canhotos do talão de cheque e de notas fiscais. Mas nada. Nesse tempo, nosso filho nasceu e, mesmo fora do trabalho, eu mantinha contato com os colegas para saber de Paulo. Estava completamente dominada pelo ciúme.
Cansada de viver na dúvida, procurei um detetive, mas o preço era tão alto que desisti. Foi então que resolvi fazer eu mesma a investigação. Soltei minha imaginação e fiz o que achava que um bom detetive faria. Tudo foi planejado nos mínimos detalhes: horários, passagens, roupas, maquiagem, tudo. Como sou morena e discreta com roupas, aluguei uma peruca loira e comprei duas mudas de roupa num estilo bem diferente do meu, além de um imenso par de óculos escuros. Quando Paulo marcou sua próxima viagem ao Rio, tratei de reservar uma passagem de avião para lá. Ele iria de carro, o que me daria vantagem de horário. Chegando ao aeroporto, fui direto para o banheiro e, pacientemente, comecei minha transformação. Entrei morena e saí loira, irreconhecível. Meu coração estava acelerado e meu rosto, vermelho.
Lá fora, procurei um ponto de táxi e combinei com o motorista que ele ficaria o dia todo à minha disposição. Fomos para o endereço da ex e estacionamos estrategicamente numa esquina. Enquanto esperávamos pela chegada de Paulo, começamos a conversar. Falamos do tempo, de filhos, mas o meu estado de espírito não estava para amenidades e acabei contando para o taxista por que estava ali. O homem ficou apavorado, tentou me fazer desistir. Nada do que ele me falou conseguiu abalar meu compromisso. Nem ouvia direito o que me dizia, tamanha era a minha vontade de acabar com a dúvida que me corroía há tanto tempo. Com certeza, o taxista se colocou no lugar de Paulo e talvez tenha pensado que eu estava armada. Eu parecia mesmo uma doida, com o rosto vermelho, a respiração irregular e a vontade irredutível de tirar a limpo as minhas desconfianças.
Quando finalmente Paulo chegou, depois de mais ou menos uma hora, tocou o interfone do prédio e subiu. Em seguida, voltou com os três filhos e foram para um restaurante na praia. Enquanto eles almoçavam, eu e o taxista comemos sanduíches. Ele ainda me disse: 'Olha, dona, esse homem não está fazendo nada de errado. Se eu fosse a senhora, voltava agora mesmo para casa, ele nem vai saber'. Nessa hora, cheguei a considerar o que disse, mas de novo o ciúme falou mais alto. O dia não havia acabado, e eu queria saber onde Paulo iria dormir. Ai dele se fosse para o apartamento da ex. Os quatro passaram a tarde na praia. Eu quis testar o meu disfarce e saí do carro. Vi que era perfeito, pois nem ele nem as crianças me reconheceram.
Lá pelas 19h, Paulo deixou os filhos com a mãe, pegou o carro e dirigiu-se para outro bairro. O taxista e eu fomos atrás. Paulo parou em frente a um prédio, tocou o interfone e esperou por alguém. Nessa hora, meu coração parecia que ia saltar para fora. Uns cinco minutos depois, apareceu uma mulher que eu nunca tinha visto e eles se beijaram. Não podia acreditar no que estava vendo. Minhas desconfianças faziam sentido. Eu estava nervosa, mas absolutamente controlada. O taxista demonstrava certa aflição e tentava me acalmar.
Paulo e a outra seguiram em direção à praia. Durante todo o trajeto, pude perceber que os dois estavam se divertindo muito, brincavam um com o outro, nos sinais vermelhos se beijavam. Vi tudo aos prantos. Pararam em frente a um hotel e foram direto para o bar do restaurante, onde ficaram namorando. Enquanto eu chorava, o taxista olhava para mim com pena e não sabia o que fazer comigo. Resolvi não parar a história por ali. Enxuguei as lágrimas, ajeitei a peruca, passei batom e perfume e fiz a proposta para o motorista: 'Agora o senhor vai me ajudar. Vai fingir que está comigo e vamos entrar lá'. Ele me disse: 'A senhora está maluca, dona? Deixa pra lá, vá pra casa. A senhora já sabe o que queria saber e precisa esfriar a cabeça'.
Mas eu me mostrei irredutível, e ele acabou concordando. Entramos e ficamos numa mesa próxima à de Paulo. Meu sangue fervia, estava com muita raiva de ver os dois trocando beijos e carícias. Paulo não me reconheceu, não sei se porque só tinha olhos para a 'namorada' ou então o disfarce estava mesmo muito bom. Magoada, precisava desabafar, acabar com aquela cena. Num impulso, me levantei e fui até a mesa deles. Puxei uma cadeira e sentei diante de um Paulo estarrecido. Fui logo falando: 'Oi, meu amor, você não vai me apresentar a sua amiguinha?'.
Ele ficou branco, parecia que não estava entendendo nada. Depois ficou esverdeado e me olhou como se eu fosse um marciano. Tirei a peruca e os óculos escuros e continuei: 'Então, deixa que eu mesma me apresento. Sou Lia, a mulher dele. Muito prazer, queridinha'. Ela pareceu surpresa, mas, em seguida, me olhou com desprezo e se aproximou de Paulo. Começou a acariciar a mão dele, num gesto de apoio. Ele finalmente conseguiu dizer: 'Lia, o que você está fazendo aqui?'. Respondi: 'Tinha certeza de que você estava mentindo'. Depois virei para a moça e disse: 'Você sabia que esse safado tem um filho de 1 ano?'. E para ele: 'Seja cavalheiro, peça um drinque para mim também'. Para a minha surpresa, a 'namorada' de Paulo tinha o mesmo tipo físico que o meu e aparentava a mesma idade que a minha, que, na época, estava com 38 anos. Depois soube que ela é só dois anos mais nova do que eu.
Com voz pausada, sufocando a vontade de fazer um escândalo, falei tudo o que me veio à cabeça, que ele era um canalha, que não merecia o meu amor nem o amor do filho. E arrematei: 'Está vendo aquele senhor ali? É o motorista do táxi que me trouxe aqui. Você vai pagá-lo. E diga para essa dona se mandar daqui agora mesmo, porque nós dois precisamos conversar'. Ela logo se posicionou: 'Eu não vou embora, quem vai é você'. Olhei para aquela mulher e tive gana de arrancar os olhos com as minhas unhas, mas sorri, apanhei a bolsa dela, enfiei debaixo de seu braço e empurrei-a para a porta. Paulo fez um sinal e ela foi levada pelo mesmo taxista que tinha me acompanhado. Passamos a noite no hotel. Eu chorando todo o tempo, ele tentando se justificar, me pedindo perdão. Nessa noite, jurou amor eterno, garantiu que a tal moça era uma aventura passageira, conseqüência de nossas brigas causadas pelo meu ciúme, mas eu sabia que nunca mais iria confiar nele. Voltei no dia seguinte de ônibus, sozinha. Foi uma viagem sofrida. Paulo ainda ficou no Rio, dizendo que tinha marcado mais um encontro com os filhos. Dois dias depois, voltou para Campinas. Eu o flagrei em maio, e só nos separamos seis meses depois. Nesse período, tentei confiar nele, mas não dava, e as brigas continuavam. Um dia minha filha falou que não queria mais viver com a gente, que iria viver com o pai. Eu desmontei, porque já tinha perdido o homem da minha vida e corria o risco de perder minha filha. Aí tomei a decisão de me separar dele.
Em novembro, Paulo foi morar sozinho, eu continuei em casa com os meus filhos. Nunca mais voltou a morar comigo, embora, durante outros dez longos anos mantivemos um relacionamento. Ele ia muito à minha casa ver o nosso filho, conversávamos e eu caí em tentação várias vezes. Aí a gente namorava, depois eu ficava mal, porque estava com o orgulho ferido. O que me movia era realmente o amor que eu tive por ele e a minha total falta de amor próprio. Ele falava que ainda me amava, mas que não podia voltar a viver comigo por causa da mulher do Rio, que era desprotegida. Eu sempre fui a firme, a autônoma, a que enfrentava a vida. A outra, que já era a terceira mulher de Paulo, sempre fez papel de vítima. Mas dez anos se passaram assim: Paulo, eu e a outra. Nesse tempo, fui me reconstituindo, recolhendo meus cacos e colocando do jeito que deu. E realmente me fortaleci para enfrentar a vida sem ele.
Hoje, lembrando a cena do flagrante, acabo rindo. Não me arrependo da minha atitude. Se não tivesse enfrentado minhas dúvidas, é possível que ainda vivesse com ele, me martirizando com o fantasma da desconfiança. Eu o amei como a nenhum outro homem na minha vida, mas o tempo cura todas as dores e todos os amores. Paulo se mudou para o Rio e se casou com a tal outra. Eles têm um filho, mas também não vivem juntos. Eu nunca mais me casei. Nosso filho já é um adolescente e adora o pai. Se eu faria tudo outra vez? Não sei. Mas, como já se passaram quase 20 anos do flagrante, estou isenta de emoções e posso ver o quanto me magoei, o quanto tudo isso acabou com a minha confiança em uma relação estável e leal. De vez em quando, Paulo e eu ainda nos encontramos, porque temos assuntos da educação de nosso filho. Eu o olho e não reconheço nele o homem por quem me apaixonei. Percebo que ele não tinha as qualidades que eu imaginei, eu amei uma fantasia.
Ainda hoje, aos 59 anos, Paulo vive como um Dom Juan. Sei que ele se preocupa comigo, tem um carinho por nós, mas adora mulher, qualquer mulher. Tenho pena de nós dois, por tudo que perdemos, mas me sinto em paz por ter escolhido ser dona das minhas atitudes e não uma marionete das minhas emoções."

Fonte:Marie Claire