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sexta-feira, 1 de maio de 2015

A MAIS TERRÍVEL HISTÓRIA DE HORROR DE UMA LEITORA

 
 
Um dos meus posts mais comentados e que mais tocaram as leitoras foi este aqui, sobre a minha mais terrível história de horror. Acredito que toda mulher tem uma história de horror pra contar, e é preciso que contemos essas histórias. Quando nos calamos, fazemos justamente o que se espera de nós: que baixemos a cabeça, e, passivamente, aguardemos pelo próximo abuso, estupro ou tentativa de estupro, humilhação na rua etc. A consequência mais comum num caso de abuso sexual é sentir-se culpada, responsabilizar-se pelo que aconteceu, e sofrer calada. Talvez, se soubermos que isso não aconteceu só comigo, que isso acontece com quase todas as mulheres por um único motivo ― por sermos mulheres ―, poderemos lutar contra os abusos ou, ao menos, não nos sentirmos tão mal. Naquele meu post, muitas de vocês decidiram compartilhar as suas histórias. Só que isso faz mais de um ano, e de lá pra cá o blog cresceu muito e recebeu novas leitoras, que talvez queiram relatar o que aconteceu com elas (sem esquecer que, em escala menor, o abuso sexual infantil também destrói a infância de meninos. Mas, com homens héteros em geral, as histórias de horror cessam quando se passa da adolescência. Com as mulheres, continuam).
Uma moça muito querida decidiu contar a sua história de horror para exorcizar
seus fantasmas. Ela tem apenas 18 anos, é brasileira nascida no Ceará, e atualmente vive em outro país.
Minha história de horror se passou quando eu tinha 13 anos e vivia no Ceará. Estava em uma séria e profunda depressão, três tentativas de suicídio, vivia isolada, sem amigos e absolutamente traumatizada pelo descaso paterno (minha mãe se divorciou quando eu ainda tinha 6 meses de vida e desde então meu pai nunca prestou assistência financeira ou afetiva, limitando nosso contato a certos dias e feriados em sua casa). Como meu quadro de depressão estava muito preocupante e eu corria risco de vida, minha mãe pressionou meu pai para que ele me desse mais atenção. Seu modo de "agir como pai" foi me levando para noitadas com seus amigos, onde eu era obrigada a assistir uso de drogas, especialmente maconha e cocaína. Apesar do universo oposto ao que cresci e do modo radicalmente contrário ao que fui educada, me sentia bem nesse círculo de novas amizades. Pessoas mais velhas, com os mesmos interesses de leitura que eu ― visto que eu era bem precoce nesse aspecto ― e uma sensação de liberdade. Meu pai me permitia beber até cair e chegou a me oferecer maconha, que só neguei por receio de ferir os sentimentos de minha mãe. Nós estávamos nos aproximando, eu começava a acreditar que ele iria recuperar o tempo perdido, que iria me amar e cuidar de mim de uma forma que nunca fez, mas que sempre sonhei experimentar. Engano meu. Por muitos dias ele sugeriu que a gente fosse dormir juntos por causa do frio. Começou a questionar a respeito de minha virgindade, se eu não queria aprender coisas relacionadas a sexo, e que ele preferia me ver perdendo a virgindade com uma cenoura do que com "esses rapazes de hoje em dia”. Eu não entendia nada, achava que era porque ele sempre fora excêntrico, radical, essas coisas... Até o dia do meu aniversário de 13 anos. Nesse dia fomos a um bar alternativo de uma cidade vizinha e viramos a noite bebendo com os amigos. Ele me segurava pela cintura, passava as mãos em minhas costas, dizia que era carinho de pai. Mas, sinceramente, alguma coisa no meu íntimo me dizia que era bem mais do que isso. Voltamos às três da manhã, deitamos na cama e ele me disse que na noite passada tinha sonhado comigo, me ensinado a como me masturbar e como fazer sexo. Que tinha achado aquilo "massa", pois mostrava como nossa relação pai-e-filha era livre e diferente das demais. Fiquei com medo, me encolhi no canto da cama e comecei a tremer... ele perguntou se eu estava com medo. Respondi que era frio. Adormecemos. Ao meio-dia acordei com ele em cima de mim, mas o medo foi tanto que não movi um músculo e não abri os olhos. Ele passava as mãos em minhas costas, entrando por dentro da blusa, até que abriu meu sutiã. Eu o achava pesado, estava difícil de respirar, não entendia o que estava acontecendo, só queria que ele parasse... Mas eu não tinha voz, não tinha reação, não conseguia sequer pensar no que fazer como próximo passo. Aguentei mais 10 minutos, já dormente afogada em meu medo, até que ele notou minha respiração pesada e se levantou para deixar o quarto. Quando olhei de lado, de forma escondida, pude ver seu pênis ereto. Depois disso fiquei meia hora na cama, sem conseguir me mexer, sem conseguir acreditar. Quando finalmente consegui me levantar, corri para o banheiro. Tomei banho por duas horas, me esfregando, me sentindo culpada por confiar num pai que nunca quis saber de mim, me sentindo imunda, vadia, qualquer coisa. Foi um dia difícil, até meu retorno para casa. Depois que meu pai tentou abusar de mim eu não me afastei dele. Continuamos saindo juntos, mas passei a dormir em um quarto separado e a não ter mais contato físico. Ele notou que eu tinha entendido a situação e não tentou novamente. Vivi três anos sem dividir isso com ninguém, fazendo de conta que nada tinha acontecido, até que achei no orkut uma comunidade de apoio a mulheres abusadas sexualmente. Contei minha história e fui encorajada a enfrentar meus monstros interiores. Contei pra minha mãe, amigos e família. Cortei os laços com meu "pai". Quis recomeçar e fui aos poucos me reconstruindo. Minha mãe, quando soube, chorou muito e quis matar meu pai. Culpou-se por ter confiado nele em nosso momento de fragilidade. "Se ele nunca ajudou, por que iria ajudar agora?", disse. Imediatamente cortamos todo contato com ele. Eu disse para ele que todos já sabiam, e ele tentou se defender xingando minha mãe, dizendo que ela o havia abandonado e lhe roubado a oportunidade de ser pai. Vale ressaltar que minha mãe se divorciou porque ele usava e vendia drogas e não trabalhava. Chegamos a passar fome, ao ponto de minha mãe comer feijão velho com aqueles insetinhos dentro e eu beber apenas chá, mesmo sendo recém-nascida, já que ela estava em um estado grave de anemia e não tinha leite. Numa situação ele ameaçou espancá-la, mas ela reagiu dizendo que se o fizesse, fizesse para matar, pois quando ela se recuperasse seria a vez dele de sentir dor até a morte (ele ficou com medo, passou até alguns dias dormindo na casa de amigos). Ou seja, além de negar o feito ainda culpou minha mãe por tudo... Óbvio, as mulheres são sempre as culpadas, não? As consequências do episódio duraram quatro anos (dos 13 anos 17): tive depressão, bulimia, só pensei em morrer, minha autoestima não existia, não me achava capaz de ser amada, de ser vista como uma garota interessante... Eu era, para mim mesma, apenas um saco de lixo.
 
 
 
 
 
 
  Hoje creio que grande parte do trauma esteja superado. Sou grata por ter "escapado" do "pior". Sou grata porque tive apoio e consegui vencer a depressão, a bulimia, e encontrei o amor... A autoestima ainda não é das melhores, mas será. Eu sei que posso crer num recomeço.
 
Fonte: escrevalolaescreva