Entre Quatro Paredes e Nada Mais LIVRO

domingo, 22 de junho de 2014

Férias e nada mais!

 »  » Coluna GATICES E OUTROS BICHOS - Férias e nada mais!

 Por Shirley Couto.

- Eu não aguento mais! Chega de acordar cedo e enfrentar trânsito e passar o dia na rua! Preciso fugir desse estresse!

Foi com essa singela declaração que acordei de meu mais profundo sono. Estava refestelada no sofá de minha 'dona' quando, de repente, percebi que ela entrava em polvorosa pela porta de nosso humilde palácio (para mim, aquela casa era o palácio mais perfeito que poderia existir e meus 'donos' eram deuses do Olimpo, capazes de me defender de tudo e de todos).

Já eram quase 18 horas e eu, uma gata muito atarefada, e muito cansada com tantos afazeres, estava descansando no sofá aveludado de minha 'dona'. O horário nem era tão avantajado, contudo, eu precisava repousar para poder perambular pela casa durante a madrugada fria de São Paulo.

Há alguns dias eu já havia percebido o descontentamento de minha 'dona'. Ela, que sempre fora uma pessoa alegre, brincalhona e muito (muito mesmo!) carinhosa, tornara-se nesses últimos dias uma mãe (sim, a minha mãezinha querida!) “desapercebida” e nada carinhosa comigo e meus irmãozinhos.

Acostumada que eu estava em receber tanto carinho e atenção, passei a sofrer com sua distância, mesmo sabendo que algo estava acontecendo e que tal atitude era involuntária.

Os dias foram passando e a situação apenas piorava. A cada dia ela estava mais triste e reclusa em seu quarto.

Eu, por consequência, apenas dormia e sentia esse distanciamento como se fosse uma facada cravada em meu peito. Doía demais!

Minha 'dona' sempre fora de receber suas amigas em nossa humilde, porém, confortável residência, a qual como já disse, tenho como um palácio. Contudo, até isso havia mudado! Nenhuma amiga dela vinha nos visitar e nem ao menos ligavam para saber como fora o seu dia. Até os encontros regados a chocolate quente e maravilhosos biscoitos feitos de nata por minha 'dona' haviam acabado.

Aproximadamente dois meses após tanta agonia, ouvi um bate papo de minha 'dona' com alguma amiga pelo telefone. Quando cheguei elas já falavam há algum tempo, contudo, peguei a conversa na seguinte parte:

- Como te disse, não aguento mais. Não sei o que faço. Preciso descansar! 

Sentia o desespero na voz dessa pessoa que amo tanto e via que seu cansaço era visível. Tive pena e fui me esfregar em suas pernas dando-lhe carinho. Nesse momento ela despediu-se da amiga ao telefone, se abaixou e, esquecendo-se de todos os seus problemas me disse:

- Ah, querida Morgana, como tenho faltado contigo! Desculpe não estar lhe dando tanta atenção e carinho, é que estou extremamente cansada e necessitando de férias, e nada mais que me ocupe o pensamento! Prometo que assim que elas chegarem terei os meus dias dedicados apenas e totalmente a você e seus irmãozinhos, ok? Você sabe que mamãe te ama demais, não sabe? 

Com o coração envolto numa alegria sublime, por saber que o amor de minha dona por mim não acabara e que ela estava apenas estressada pelo árduo trabalho que tem enfrentado em seu dia-a-dia, dei uma sonora e carinhosa miada de afeto por aquele ser tão importante para mim e, mais uma vez, esfreguei-me em suas pernas como quem lhe diz:

- Não se preocupe, minha querida, o amor que nos une supera qualquer situação!

(Miadas de alegria)



VAI BRASIL!

Formada em Letras pela Unicamp, com pós-graduação em Língua Portuguesa, Shirley Couto é professora de Português do colégio Sérgio Buarque de Holanda, na Zona Sul de São Paulo. Realiza trabalho de leitura e redação com alunos das séries finais do Ensino Fundamental e escreve a coluna Gatices e outros bichos para o blog da Editora Nova Alexandria toda sexta-feira.