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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

AVE (NOCTURNA)

Mulher-pássaro, Otto Stupakoff

O teu amor era uma criatura da noite.
Iludiu-me porque pediu para entrar, sem eu perceber que era esse o truque. Afastava-me dos espelhos, não sei se para que não o olhasse no reflexo, o que põe a nu a natureza da alma. Ou para que não visse as minhas faces brancas, pouco a pouco privadas de sangue.

Esqueceste-te da minha natureza de ave selvagem, não me basta voar, preciso lançar-me ao vazio, e subir o mais que conseguir.
Era inevitável perceber as grades, por mais que te esforçasses por as fazer parecer transparentes.

Sem mim não consegues voar, atiraste-me. Não pude evitar sorrir. Vi que me tornara num dos espelhos que tanto temias.
Ainda assim, não desististe. Os predadores não desistem. Ias continuar por perto. Por isso precisava de esquecer, esquecer o teu toque no meu pescoço…

Disparei uma bala de prata contra o meu peito. Deve ser suficiente. Se não for, cravo uma estaca no meu coração teimoso! Ficará um pouco mais desfeito, mas sobreviverá. Renascerá. Para as criaturas do dia. Para voar.

Isa Lisboa