Entre Quatro Paredes e Nada Mais LIVRO

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Nova colaboradora: Dulce Morais


22 de agosto de 2013

Nova colaboradora: Dulce Morais





Biografia


Sou originária da cidade de Tomar, Portugal. Se nasci em país lusófono, deixei-o ainda criança para seguir o destino, com rumo a várias culturas, acabando por me fixar durante a adolescência à beira do Lago Léman, em Genebra. Foi lá que vivi durante vinte e cinco anos, estudei, fundei uma família e comecei a rabiscar versos e prosas em cadernos ou folhas soltas, escondidos em seguida em gavetas bem fechadas.
As mudanças de país e de horizonte foram-me saudáveis e criaram uma constante curiosidade pela Humanidade, pelas ciências, pela psicologia, mas sobretudo, pelas letras. Desde que aprendi a decifrar o maravilhoso código da escrita, penso não ter vivido um dia sem carregar um livro e viajar em devaneios através da imaginação dos autores. Se iniciei com Mark Twain e prossegui com Robert Louis Stevenson e semelhantes, foi na adolescência que descobri as irmãs Brontë, Jane Austen, mas também Hermann Hesse, Gabriel Garcia Márquez e tantos outros.
Absorvi de tal forma da cultura e o idioma dos países onde vivi, que quase não pratiquei a língua portuguesa até aos 36 anos. Tendo decidido regressar a Portugal em 2010, aprendi a língua das minhas origens durante um ano inteiro antes de me instalar novamente na cidade da minha infância. Desde então, vivo uma paixão pela língua de Camões e, graças aos conselhos de amigos, descubro a literatura portuguesa e brasileira com entusiasmo.
Quanto à escrita, se nunca desisti de deixar fluir as palavras em francês, é agora em português que me expresso com mais frequência escrevendo, e, em particular, na poesia, mas também na prosa poética, contos e reflexões.
Encontrarão publicações da minha autoria aqui:

A PAZ NO OLHAR

O nosso olhar, a maneira como o pousamos sobre os outros, pode ser a fonte da maior alegria do dia, ou do pior momento que deixará uma lembrança que não poderá mais ser esquecida por quem o recebeu.

Momentos mágicos em que uma transeunte desconhecida olha com ternura para um homem perdido no seu livro, em que uma mãe pega seu filho ao colo transmitindo todo o amor incondicional no seu olhar.

Mas também há momentos em que o olhar desdenhoso dum passageiro de metro para o seu vizinho, cuja conversa parece desagradar, olhar que condena o casal apaixonado demais e que não consegue separar-se, cria uma frieza tal que é impossível esquecer o peso do juízo de valor assim transmitido.

Viveu um homem, já há muito tempo, cujo olhar transmitia sempre a paz e o carinho. Era um homem que tinha suas opiniões e sabia defendê-las, mas nunca o fazia sem que seu olhar mostrasse essa doçura e essa ausência de julgamento que o caracterizavam.

Acontece que foi um dia convocado para ser testemunha num processo por agressão duma senhora idosa. Ele tinha assistido à cena e podia certamente trazer alguma luz aos eventos, mas sobretudo determinar se o acusado sentado naquela sala de audiência era, ou não era, o culpado da agressão.

O processo tinha sido complicado. O acusado não reconhecia qualquer fato, enquanto a vítima afirmava ter a certeza absoluta de que se tratava do seu agressor.

A testemunha sentou-se no banco que lhe era reservado e aguardou que o interrogassem, tal como lhe tinham indicado. Como acontece frequentemente, o Tribunal estava atrasado e teve de esperar ali perto de meia hora.

Aproveitou esse tempo para observar as pessoas ali presentes, começando pela senhora de idade avançada, sentada no banco reservado ao queixoso nesse tipo de situação. A senhora parecia perdida perante a autoridade judicial, parecia não saber bem como se sentar ou se comportar em tal instante.

Quando cruzou o olhar meigo da testemunha que esperava, acalmou-se, sentou-se bem direita e pareceu recuperar cores na face, até ali bastante pálida. Pareceu recuperar uma constância, uma presença, que lhe tinha feito falta até esse instante.

O homem pronto para testemunhar continuou a sua visita visual da sala até encontrar o olhar do acusado, sendo do lado oposto. O olhar que recebeu foi hostil, cheio de desdém, carregado de ameaças. No entanto, o olhar da testemunha não mudou e continuou cheio de paz e de indulgência.

Após alguns instantes de observação mútua silenciosa, o acusado pareceu vacilar, seu olhar agressivo perdeu a intensidade aos poucos até se tornar vergonhoso e constrangido.

Quando o Tribunal decidiu continuar a audiência, o acusado pediu para falar antes da testemunha ser interrogada. O Juiz, admirado pela súbita mudança de atitude, deixou-o falar, cada vez mais espantado com o que ouvia da boca do homem que tinha tornado o processo tão complicado até àquele momento :

-            Antes de interrogarem a testemunha, quero simplesmente reconhecer todos os fatos alegado. Fui eu que agredi a senhora aqui presente e peço que o Tribunal aceite a minha confissão.

O Juiz, que também tinha aguardado que o Tribunal se preparasse para continuar o processo, tinha observado os olhares trocados entre a testemunha e os presentes. Olhou para o acusado e indicou-lhe que o iria ouvir dentro de alguns minutos.
Antes de se dedicar à confissão do acusado, voltou-se lentamente para a testemunha que continuava sentada e disse :

-            Gostava que estivesse presente aqui todos os dias ! Evitaria muito tempo perdido. Transmitindo, com um simples olhar, um sentimento mais profundo e sensato que tantos discursos que tenho dito aqui. Notei o seu olhar dirigido aos presentes nesta sala. O senhor parece não fazer nada, mas afinal faz mais do que muitos nós. O seu olhar, a sua calma, o que inspira, trazem mais justiça neste Tribunal que todos os julgamentos que aqui decorreram.

Depois desta audiência, o dono do olhar que transmitia a paz, continuou ainda muitos anos a olhar, simplesmente a olhar, quase sem falar.

Ele não tinha qualquer poder mágico ou místico. Simplesmente, sabia transmitir o sentimento de calma e serenidade que sentia no seu coração com um simples olhar !

Dulce Morais