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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Você já ouviu falar das Crianças Bruxificadas da África? Parte 1

 


De Uíge, Angola


Domingos Pedro tinha apenas 12 anos quando seu pai morreu. A morte foi repentina, a causa foi um mistério para os médicos, mas não para os parentes de Domingos.
Eles reuniram-se numa tarde na humilde casa de barro dos pais de Domingos, agarraram-no e amarraram suas pernas com uma corda, relatou ele. Jogaram a corda sobre as vigas da casa e ergueram-no até ser suspenso de cabeça para baixo sobre o chão de terra batida. Então, lhe disseram que cortariam a corda se ele não confessasse ter assassinado seu pai.

Eles gritavam: "Bruxo! Bruxo!" — lembrou Domingos, com lágrimas escorrendo pelo rosto. "Havia tantas pessoas gritando comigo ao mesmo tempo...", exclamou ele.
Assustado, lhes disse o que queriam ouvir, mas seus parentes não se deram por satisfeitos. Ferraz Bulio, líder tradicional do bairro, disse que sete ou oito pessoas estavam arrastando Domingos por uma trilha de terra até o rio, aparentemente para afogá-lo, quando ele interveio.
"Eles estavam dando tapas e socos nele", disse Bulio. "Esta é a maneira como as pessoas reagem com uma pessoa acusada de bruxaria. Há muitos casos assim."
 
Bulio tem razão. Em partes de Angola, Congo e República do Congo, um número surpreendente de crianças são acusadas de bruxaria. Em seguida são espancadas, maltratadas ou abandonadas. Defensores das crianças estimam que milhares das que vivem nas ruas de Kinshasa, capital do  Congo, têm sido acusadas de bruxaria e expulsas por suas famílias; muitas vezes como justificativa para não se ter que alimentar ou cuidar delas.
Funcionários do governo identificaram 432 crianças de rua que foram abandonadas ou sofreram abusos depois de serem acusadas de bruxaria em uma cidade ao norte de Angola. Um relatório apresentado no ano de 2006 pelo “Instituto Nacional para a Criança” — órgão do governo angolano — em parceria com a UNICEF, descreve o número de crianças acusadas de bruxaria como "imenso".
 
A noção de crianças bruxas não é nova por aqui. É uma crença comum na Angola. A origem está na cultura dominante Bantu, que acreditam que os bruxos se comunicam com o mundo dos mortos e usurpam ou “comem” a força da vida dos outros; trazendo às suas vítimas infortúnios, doença e morte. Bruxos adultos supostamente enfeitiçam crianças dando-lhes comida, depois as forçam a retribuir com o sacrifício de um membro da família.
Entretanto, as autoridades atribuem o aumento da perseguição as crianças aos 27 anos de guerra civil em Angola, que terminou em 2002, e aos constantes conflitos no Congo. Tais conflitos deixaram muitas crianças órfãs; enquanto outras famílias ficaram intactas, mas pobres demais para se alimentarem.
"Os casos de bruxaria começaram quando os pais se tornaram incapazes de cuidar das crianças", disse Ana Silva, que é responsável pela proteção dos pequeninos no Instituto Nacional para a Criança. "Então começaram a buscar qualquer justificativa para expulsá-los da família."
Desde então, segundo ela, o fenômeno tem acompanhado os migrantes pobres das províncias do norte angolano do Uíge e do Zaire, até chegar nas favelas da capital Luanda.

Dois casos horrorizaram as autoridades locais. Em junho de 2007, uma mãe de Luanda cegou sua filha de 14 anos com água sanitária para tentar livrá-la das visões malignas. Em agosto do mesmo ano, um pai injetou ácido de bateria no estômago do seu filho de 12 anos de idade porque ele temia que o menino fosse um bruxo, contou Ana Silva.
O governo angolano tem feito campanha desde 2000 para dissipar noções sobre crianças bruxas, disse Silva, mas o progresso é lento. “Não podemos mudar a crença de que bruxas existem”, disse ela. "Mesmo profissionais capacitados e com instrução acreditam que bruxas existam."
Em vez disso, o seu instituto está tentando ensinar figuras de autoridade — policiais, professores, líderes religiosos — que a violência contra as crianças nunca é justificada.

A cidade angolana de Mbanza Congo, a apenas 80 quilômetros da fronteira com o Congo, abriu um novo caminho. Após uma criança acusada de bruxaria ser esfaqueada até a morte em 2000, as autoridades provinciais e a “Save the Children” — uma organização global de caridade —recolheram 432 crianças da rua e conseguiram que 380 delas voltassem a morar com parentes, declarou o relatório sobre bruxaria.
Onze igrejas fundamentalistas foram fechadas depois de relatos de exploração e abuso de menores. Oito pastores congoleses foram deportados. As vilas formaram comitês para monitorar e defender os direitos das crianças. Após estas medidas, as autoridades dizem que o número de crianças que são abusadas ou que vivem nas ruas caiu drasticamente.

Já em Uíge, cerca de 160 quilômetros ao sul de Mbanza Congo, é outra história. A cidade é um aglomerado de barro e lama em meio a colinas verdes, que possui lojas marcadas por buracos de balas em toda sua extensão. Nesta região a perseguição às crianças está aumentando, conforme declarou o bispo Emilio Sumbelelo, da Igreja Católica de São José.
"É muito, muito comum nas aldeias (a perseguição)", disse ele. "Nós sabemos que algumas crianças foram mortas."
Em sua igreja, está o único santuário para crianças vítimas de bruxaria. É um abrigo pouco maior que uma garagem para três carros. Trinta e dois meninos, incluindo Domingos, ocupam beliches colocados a um pé de distância um do outro. As poucas roupas são guardadas em caixas embaixo das camas. Não existe abrigo para meninas.
Desde julho, todos os recém-chegados foram mandados embora. "As crianças vêm aqui para pedir proteção, mas não temos espaço", disse o bispo. "Até o momento, não encontrei nenhuma forma especial de luta contra este fenômeno."

Muitos meninos descrevem um passado de rejeição, abuso e medo. David Gomes Saldanha, 18 anos, morava com sua tia até os 12 anos. O rapaz contou que ela se voltou contra ele depois que sua filha de 3 anos adoeceu e morreu. Depois, sua tia se recusou a alimentá-lo e amarrava suas mãos e pés a cada noite, temendo que ele pudesse fazer outra vítima. Um vizinho finalmente o alertou a fugir. "Eu não sou um bruxo e eu não era um bruxo", disse Saldanha. "Mas eu tive que fugir porque estavam ameaçando me matar. "
Afonso Garcia, 6, pegou o último berço vazio do abrigo em julho último. "Eu vim aqui por minha conta porque meu pai não gosta de mim e eu não estava comendo todos os dias ", falou ele com impressionante naturalidade.
 
Há três anos, após a mãe de Afonso falecer, ele foi morar com seu pai. Sua madrasta, Antoinette Eduardo, começou a suspeitar que ele era um bruxo depois que as crianças da vizinhança informaram que ele tinha comido uma Gillette. Além disso, conta ela, "ele estava ficando cada vez mais magro, mesmo comendo muito bem."
Sob interrogatório, ela disse que Afonso afirmou que um parente teria o visitado em seus sonhos, exigindo que matasse um membro da família. Afonso nega ter confessado a “bruxaria”.
O que se desenrolou depois é típico de muitos casos aqui. Os parentes de Afonso procuraram um curandeiro tradicional para “curá-lo”.
 
O curandeiro, João Ginga, 30, trabalha num lugar que ele chama de um “hospital” - uma sala apertada de paredes de barro. "Se alguém tem um espírito ruim, eu posso discernir", disse ele em uma manhã em que seus clientes esperavam em um banco. "Nós tratamos mais de mil casos por ano."
Com um empreendimento tão movimentado, o Sr. Ginga observou que não conseguia se lembrar do caso de Afonso. A tia de Afonso, Isabella Armando, relatou que sua família deu o Sr. Ginga 270 dólares em dinheiro, velas, perfume e talco para tratar Alfonso.
O Sr. Ginga realizou alguns rituais, colocou uma substância nos olhos de Afonso — “que o fez chorar de dor” — e pronunciou tê-lo curado, conta Isabella. Porém, seu pai e a madrasta, os únicos parentes que poderiam ter recursos para cuidar dele, não concordaram e o expulsaram de casa.
"Eu tinha pena dele, e eu continuo a ter pena dele, porque ele estava vivendo nas ruas", explicou a madrasta. "Mas estávamos com medo."
 
Sr. Ginga não é o único curandeiro por aqui que alega curar crianças bruxas. Sivi Munzemba é uma mulher que diz ter exorcizado crianças possuídas inserindo um cataplasma de plantas em seus ânus, raspando suas cabeças e trancando-os durante duas semanas em sua casa.
Moisés Samuel, diretor do escritório provincial do instituto das crianças, disse estar preocupado não apenas com os curandeiros tradicionais, mas também com um bando de igrejas e seus “adivinhos” que alegam exorcizar os maus espíritos. Estas igrejas atraem multidões mesmo em dias de semana.
Uma vez marcadas como bruxas por um adivinho ou curandeiro, especialistas em bem-estar infantil dizem que até mesmo a polícia muitas vezes recua diante delas.
Oficiais mantiveram Domingos, o menino que foi suspenso numa viga, por uma noite na delegacia e então o mandaram para casa. Eles nunca investigaram o tio de Domingos que liderou o ataque, declarou Bulio, o líder da comunidade. "Claro que foi um crime", afirmou Bulio. "Mas porque é bruxaria, a polícia não vai assumir qualquer responsabilidade".

Domingos, agora com 15 anos, insistiu que “confessou” ser um bruxo apenas para salvar sua vida. Entretanto, mesmo sua mãe de 32 anos de idade, Maria Pedro, não acredita nele.
A senhora Pedro, obviamente gosta de Domingos, seu filho mais velho. Ela exalta o progresso do menino nos estudos e se preocupa com novos ataques de seus parentes, diz que ele deve deixar o abrigo.
Ainda assim, ela suspeita que seu filho foi enfeitiçado para matar. "Deve ser verdade porque ele confessou", disse ela, olhando Domingos cuidadosamente através de uma mesa em sua casa de dois quartos.
Ouvindo isso, Domingos se levantou e caminhou rapidamente para fora da casa. Dez minutos depois, ele reapareceu na porta com a face rubra: "Mãe, a partir deste dia, eu não sou mais seu filho", declarou ele ferozmente.
A Sra. Pedro, emudecida, assistiu-o ir. “Eu simplesmente não sei porque Domingos ficou tão furioso”, disse ela mais tarde.