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quarta-feira, 2 de março de 2016

A GOTA E O FOGO por Danka Maia





Talvez eu demore um inverno.Foi a resposta que ela deu ao amigo de longas datas,daqueles que a gente somente sabe que conhece e que o mesmo nos lê,mas,sem saber de onde ou porquê.
Fora uma conversa franca,sem rodeios.Os rodeios cabem entre os meios termos da vida,não era o caso decididamente.Naquela tarde,Gota sentiu-se perdida na imensidão de um copo vazio,solitário e perdido.Todas suas reservas tinham se esgotado.E não há nada de errado em assumir isto,porque por sorte é na escassez que nos damos conta do tanto de nós que se foi sem precisar.Não que não se deva conter,o contido não vive a sua existência,ele somente a conta como os velhos carneirinhos das histórias de ninar que as mães dos homens lhes narram, quando pequenos infantes que no afoito de viver,entregam-se a cúmulo da ansiedade carecendo dessa dose de freio gostoso que somente em olhos maternos repousam.
Ela não se viu naquela imensidão de tanto nada.Não se reconheceu.Agora jaz ali apenas Gota.E quanto tempo tem de durabilidade uma gota isolada e sem fontes para recarregar-se? Engoliu seco aquela dura realidade.Relembrou de um dia naquele mesmo copo ter ouvido sua senhora falar ao filho desolado:


_ A dor é única.Tu jamais saberás a minha porque foi feita sob medida para esta pele,para fortalecer esse espírito,calejar este coração.-batendo contra o peito veementemente.-Mas saiba filho também, que, se essa dor é única o sofrimento e opcional,tu sempre terás o poder da escolha.
Aquelas palavras perduraram nas suas ínfimas moléculas de H2O. E então pensou nele,o improvável amigo.Não porque fosse deixa-la,ou não viesse ao seu encontro,porém quando foi que nessa vida água e fogo combinaram?
Isso ponderava ela. Fogo sempre repetiu com a firmeza que lhe cabia:


_Se acreditas não sei,porém eu sim, e assim será!


Gota esperou por dias,contudo resolveu, e num vento desses que o somente o Destino explica,aquele copo virou e veio lentamente rolando pelo tapete empoeirado,e,na soma de suas forças pediu a uma brisa que por ali emanava que o chamasse,talvez fosse para se despedir,pois quando em sua mente fica tudo tão cinza sobram muitas poucas cores para perceber. Entretanto, outra vez ele estava lá.Veio como fagulha e apoderou com respeito da lareira,todavia moderado,no fundo sentira a fraqueza do estado dela,pois para Fogo, Gota sempre foi Tempestade.
Escutou as nuances dela como um cego que necessita compensar no ouvir a suplementação de seus limites.Viu que a água sangrava,no entanto,milagres acontecem e se repetem.Se um dia tornou-se vinho e agora é sangue,sim,pode acontecer outra vez!


_Olha,se tu acreditas não sei,porém eu te digo,somente te acalma porque o meu calor pode aumentar a temperaturas das tuas moléculas e esse ar gélido que cercas irão amornar e assim seus átomos te farão ver o quanto você ainda é.


_Eu sou?-Respondeu Gota desvalida.


_Sim você é,pode estar como for, eu quero dizer que, quando eu era pequeno, diziam que nasci para ser mau , me disseram que eu era diferente. E eu me sentia fora do lugar, muito barulhento, muito inflado desse meu eu, nunca fui bom em ficar parado, nunca fui bom em me encaixar. Achava que talvez não seria bom em nada.Até que um dia eu percebi uma coisa, algo que eu espero que todos percebam. Ser diferente é bom. Então, não se encaixe Gota, não fique ai,seria uma heresia alguém como tu desistindo.O Universo não aceita. Nunca tente ser menos do que você é,um dos maiores desafios da existência é mostrar quem somos e como domamos estes medos.Acha mesmo que nunca me feri,me machuquei para ter esse nível de controle? E não abuse,logo explodirei em labaredas.
Um riso brotou nos lábios de Gota.
Num relance lançou sobre ele uma película do seu seiva e logo se ouviu:


-Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii-aquele chiado quando queremos abrandar uma panela de pressão e Fogo retrucou:


-Ah minha amiga,era tudo que eu carecia.Viu,isso sim é conexão!-E ela viu o quanto era bom,ser útil na sua inutilidade.Entretanto,ao findar da conversa lhe falou:


_Talvez eu volte no próximo inverno.Minha senhora certamente colocará este copo para apaziguar a água da chuva e de novo serei alguém.-Fogo a entendeu outra vez. Ela deixou que ele começasse a esvair e quando pronto para partir esboçou:


-Sabe,sei que você tem razão,só não sei se posso.Abri uma caixa de Pandora dentro de mim.Me desculpe.


-Ele a olhou e formou-se ali outra vez rebatendo:


-Por que manter uma caixa de Pandora dentro de ti se és a chave que te libertará dela? Olha,quero e preciso de calor o ano inteiro,eu ficarei aqui!


Espantada com a decisão dele replicou:


_Mas por que vai mudar e ficar aqui se acabo de ti explicar que tenho uma caixa de Pandora aberta dentro de mim?


Desta vez Fogo soltou um riso certo e esperançoso respondeu:


_Porque a qualquer hora tu vais fechar esta caixa e com certeza vai precisar de fogo para queima-la para todo o sempre e nesse dia eu estarei bem aqui.E isso ainda dará em grandes histórias.


Moral da história: Se tudo que o fogo queima a água pode apagar,também é justo compreender que toda porção de água fria necessita do fogo para ebulir seu estado e assim transforma-la.