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terça-feira, 24 de março de 2015

Bancária testa “Viagra feminino”, pílula que combate a falta de desejo: “Tudo melhorou em meu casamento”

Quase 20 anos depois do Viagra, a indústria farmacêutica ainda não foi capaz de criar um remédio que combata a ausência de desejo feminino – problema que atinge 32% das mulheres no mundo. Marie Claire conversou com voluntárias em testes de pílulas para tratar a falta de tesão e relatam suas experiências


Pesquisa feita pelo instituto Durex Global Sex Survey em 37 países mostrou que 32% das mulheres entre 18 e 65 anos já enfrentaram falta de libido (Foto: FOLIO-ID)
 
Ao acordar em uma manhã de verão, a bancária nova-iorquina Clara*, 38 anos, estava louca para transar. Mas, com dois filhos pequenos em casa e a correria matinal que ela e o marido, o advogado Roberto*, 40, teriam pela frente, acabou desistindo da ideia. Mas Clara encontrou uma solução criativa – e excitante – para contornar o problema. Colocou um envelope no painel do carro de Roberto, com o aviso: “Abra quando chegar ao trabalho”.

Dentro havia um bilhete onde estava escrito apenas “22h”, anexado ao panfleto de um motel. No horário marcado, a bancária aguardava o marido na porta da suíte, segurando uma garrafa de champanhe. “Eu estava nua, só de salto alto”, conta. “Passamos o dia inteiro pensando nesse encontro, e isso criou um clima super sexy. Fazia tempo que as coisas andavam mornas entre nós.”

Clara tem certeza de que essa noite inesquecível com o marido não teria acontecido se ela não estivesse tomando a flibanserina, uma pílula feita para tratar a falta de tesão na mulher. Quando o problema deixa de ser eventual para virar regra, passa a ser uma doença, chamada transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH), caracterizada pelo declínio até a perda total do apetite sexual feminino.

“Eu também mudei de atitude: me matriculei na academia e voltei a me sentir bem com meu corpo. O efeito da pílula atingiu vários setores da nossa vida.”
Clara*, bancária
Diferentemente do Viagra – cuja ação é aumentar o fluxo de sangue para o pênis, tornando mais fácil “sustentar” ereções –, o efeito da flibanserina se concentra no cérebro. A droga aumenta a dopamina e a norepinefrina (hormônios que participam da excitação sexual) e diminui a serotonina (que, acredita-se, seja responsável pela inibição da libido).

Nos primeiros anos de namoro, Roberto e Clara transavam pelo menos cinco vezes por semana. “Depois que tive o primeiro filho, meu desejo diminuiu muito e nunca voltou a ser como antes”, diz ela. “Eu já não tinha o mesmo corpo, não me sentia sensual e a rotina de trabalho aumentou. Tudo isso me deixava sem disposição para transar.”

A bancária, então com 30 anos, passou muito tempo tentando recuperar o prazer, numa busca que incluiu de homeopatia a terapia de casal. Nada funcionou. Até que decidiu abrir mão de vez do sexo. Quando o marido a procurava, Clara o repelia ou fingia estar dormindo. “Ele deitava ao meu lado em silêncio e eu sentia sua raiva e tristeza no ar.” Até que Roberto lhe mostrou um anúncio do laboratório americano Sprout Pharmaceuticals, que procurava voluntárias para testar a flibanserina. Clara se inscreveu imediatamente.

Algumas semanas depois que o estudo começou, a bancária sentiu seu desejo despertar. Com doses diárias do medicamento, ela passou a planejar encontros se­xuais e “roubar” o marido para uma rapidinha, enquanto os filhos assistiam a desenhos animados. O casal foi do sexo por obrigação a cada 15 dias para transas duas vezes por semana.

“Tudo melhorou em nosso casamento. Roberto ficou mais carinhoso. Depois do trabalho, em vez de ver televisão, ele me servia uma taça de vinho e perguntava como havia sido meu dia”, afirma Clara. “Eu também mudei de atitude: me matriculei na academia e voltei a me sentir bem com meu corpo. O efeito da pílula atingiu vários setores da nossa vida.”

Um ano após o início do tratamento com a flibanserina, o casal recebeu uma péssima notícia. O laboratório responsável pela droga cancelou o fornecimento do remédio. Clara foi informada de que a fase de testes estava encerrada e que teria de aguardar a aprovação do Food and Drug Administration (o FDA, que cuida da regulamentação de remédios nos Estados Unidos). Seis anos se passaram e a bancária continua à espera – e seu desejo sexual teve uma queda vertiginosa.

Clara não está só em seu drama íntimo. Uma pesquisa realizada em 2013 pelo instituto Durex Global Sex Survey em 37 países mostrou que 32% das mulheres entre 18 e 65 anos já enfrentaram falta ou ausência de desejo em algum momento da vida. Só nos Estados Unidos, quase 10% das americanas entre 18 e 44 anos sofrem com o TDSH, de acordo com um estudo feito com 31 mil mulheres, publicado na Obstetrics & Gynecology, em 2008.

No Brasil, os números não são menos alarmantes. Um levantamento feito pelo Hospital das Clínicas de São Paulo mostrou que a falta de libido representa o maior número de queixas registradas no Ambulatório de Sexualidade da Ginecologia: são 65% das reclamações. A instituição atende 200 pacientes mensalmente.


VIAGRA, CIALIS, LEVITRA...
 
Em 1998, o FDA aprovou o citrato de sildenafila, uma droga comercializada com o nome de Viagra, para tratar a impotência masculina. Na primeira semana, milhares de receitas foram emitidas. Até 2012, o Viagra e seus concorrentes famosos – Cialis, Levitra e Stendra – somavam US$ 4,3 bilhões em vendas anuais.

Com a expectativa de sucesso semelhante, as empresas farmacêuticas investiram bilhões em medicamentos que prometem melhorar a performance sexual das mulheres. Só que o FDA rejeitou todos – ao passo que o Viagra foi aprovado em apenas seis meses.

Clara não entende por que o órgão liberou o Viagra tão rápido, enquanto as mulheres só esperam.  “Devem ser homens que tomam essas decisões”, afirma. “Se fossem mulheres, um Viagra feminino estaria no mercado há anos.” Assim como a bancária, outras frentes apoiam a tese de que o machismo ronda as pesquisas científicas.

A advogada Terry O’Neill, presidente da Organização Nacional para as Mulheres, dos Estados Unidos, reconhece que o trabalho do FDA é se preocupar com a segurança ao aprovar medicamentos. Mas afirma que há um longo histórico de negligência quanto às necessidades femininas. “Existe uma noção cultural de que as mulheres não precisam de desejo sexual.”

“Existe uma noção cultural de que as mulheres não precisam de desejo sexual.”
Terry O’Neill, advogada
Enquanto os médicos tentam entrar em um consenso sobre a sexualidade feminina – há quem ache que somos complexas demais para ser “curadas” com uma pílula –, outro medicamento entra no páreo: o bremelanotide. Produzido pelo laboratório Palatin Technologies, está no estágio final dos testes do FDA. A droga ativa receptores cerebrais que enviam sinais de prontidão sexual.

As pacientes injetam o remédio algumas horas antes do sexo para “disparar” o desejo. Enquanto isso, dois medicamentos que ainda estão na fase intermediária de análises, chamados Lybrido e Lybridos, criados pela holandesa Emotional Brain, garantem ter ação dupla: primeiro preparam o cérebro com testosterona para elevar a reação sexual das mulheres e depois aumentam o fluxo de sangue para a vagina, ao estilo do Viagra.


TESÃO INJETÁVEL
 
Rachel*, uma arquiteta de 37 anos, casada há dez e mãe de três filhos, achou assustador ter que aplicar injeções de bremelanotide, ao ler em um jornal que o laboratório responsável estava recrutando voluntárias para testes. Mas estava tão desesperada para recuperar o desejo que se candidatou.

Logo que começou o tratamento, deixou de se incomodar com as injeções. Calculava o horário das “picadas” para quando encontrava uma brecha em sua agenda (e na do marido) para transar. A frequência sexual passou de uma vez por mês para duas vezes por semana.

Tanto Rachel quanto a bancária Clara – indicadas para esta reportagem pelos fabricantes dos medicamentos – apresentaram excelentes resultados nos testes. No entanto, a bióloga Sheryl Kingsberg, da Universidade Case Western Reserve, faz ressalvas. “As mulheres que participam desses testes geralmente têm relações de longo prazo e, com maior ou menor frequência, fazem sexo com os parceiros. Contabilizar o aumento das transas não é a melhor medida da eficácia do medicamento”, explica Sheryl.“

“Depois de tomar o remédio, sentia sono e precisava dormir”
Rachel*, arquiteta
O que falta para elas é a fome de sexo, que é mais subjetiva do que a quantidade de vezes que transam.” Enquanto isso, os médicos do FDA insistem em afirmar que não são machistas – só se preocupam com efeitos colaterais. É contra a política da agência comentar sobre medicamentos em análise, mas um porta-voz do órgão disse à Marie Claire que a disfunção sexual feminina está na lista das 20 áreas de “alta prioridade” de pesquisa.

Rachel reconhece que, por mais feliz que tenha ficado enquanto tomava o bremelanotide, não usou a injeção mais de uma vez por dia, porque a droga produzia cansaço e náusea. “Tinha que tirar uma soneca antes de estar pronta”, diz. Esse sintoma estava entre os efeitos colaterais mais frequentes relatados por outras voluntárias. Além disso, 7% das usuárias desistiram quando viram a pressão arterial subir. E 9,6% delas pararam o tratamento relatando fadiga, enjoo, sonolência e tontura.

“Não há medicamento no mundo que não traga riscos”, explica a bióloga. O Viagra, por exemplo, apresenta contraindicações como dores de cabeça, de estômago e congestão nasal, além de não ser recomendado para cardíacos. “Os tratamentos para mulheres têm um padrão de risco-benefício mais alto que os tratamentos para homens”, diz Sheryl. “Potencialmente, há dois pesos e duas medidas inconscientes que são aplicados.”

A psicóloga Lori Brotto, diretora do Laboratório de Saúde Sexual da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, analisa o problema sob outro ângulo. Ela acha que o marketing farmacêutico tenta convencer as mulheres de que elas não têm desejo quando, na verdade, são “apenas humanas”.

“As mulheres que participam desses testes geralmente têm relações de longo prazo e, com maior ou menor frequência, fazem sexo com os parceiros. Contabilizar o aumento das transas não é a melhor medida da eficácia do medicamento”
Sheryl Kingsberg, bióloga
Tanto Clara quanto Rachel passam muito tempo não necessariamente querendo sexo, mas querendo querer – uma das principais características do TDSH. “Essa doença ocorre quando uma mulher diz: ‘Eu não penso mais em sexo’”, explica. “Mas a peça fundamental é estarem perturbadas com a falta de desejo. É como perder o apetite.”

Lori acredita que muitas dessas mulheres poderiam se beneficiar com um tratamento psicológico que analisasse o que está emperrando o desejo. Suas pacientes são submetidas a oito semanas de terapia, educação sexual e técnicas de meditação. O tratamento também inclui uma “investigação” do que desencadeia o estado mental de desejo de cada mulher, que pode incluir qualquer coisa – falar sacanagens ao pé do ouvido do parceiro, assistir a filmes pornôs ou ver um homem atraente nu.

“O importante é que os casais trabalhem juntos para desenvolver um conjunto realista de expectativas sobre seus desejos. É a melhor maneira de descobrir qual caminho funciona para cada um.” Decifrar estímulos sexuais não é tão fácil quanto tomar uma pílula. A bancária Clara reconhece que uma parte de sua dificuldade é a pressão do dia a dia. “Sei que não é realista ter o mesmo desejo sexual que eu tinha aos 22 anos”, ela diz. “Mesmo assim, adoraria voltar a sentir.”



*Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados