Entre Quatro Paredes e Nada Mais LIVRO

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Mas eu me mordo de ciúmes...

Por Shirley Couto.

amor é complicado entre os seres humanos, ainda bem que sou uma gata!  As pessoas, quando estão enamoradas, se acham donas umas das outras. Que ilusão! Tenho uma vizinha que constantemente dá um show na rua, tentando (inutilmente) 'segurar' seu parceiro sentimental.

Todas as vezes quando o mal caráter do esposo dela sente que está à sós, ele tenta 'xavecar' as garotas que passam por seu portão. Pobre tentativa! Feio que dói, como ele é, nem a mais horrível das criaturas lhe daria bola. Não sei por que nossa vizinha tem tanto ciúmes de um ser assim.

Certo dia, eu estava me refestelando deitada sobre o muro de nossa humilde residência, aguardando minha amada 'dona' chegar, quando de repente tomei o maior susto! Do nada, como de um outro mundo, surgiu um disse que disse , uma berração e, por fim, um estalo. Pensei: "pronto, o mundo está acabando!"

Do lugar onde estava, nada dava para ser visto, contudo, como eu amo ser uma gata bem informada, escorreguei pelas paredes de nossa garagem e, em poucos segundos, já estava prostrada perante dois bichanos maravilhosos que vivem na casa ao lado.

Cheguei toda faceira e dengosa (não iria desperdiçar a chance de impressionar aquelas belas espécies de enormes olhos azuis) e já fui perguntando:

- E ai, pessoal, tudo bem?

- Tudo! Ambos respondem em uma só voz.

- Resolvi dar uma 'descidinha' para saber das novidades... Ouvi um bafafá vindo desse lado e fiquei curiosa. Vocês sabem o que aconteceu por aqui?

- Nada de importante. Apenas mais um 'showzinho' da louca da vizinha que não pode ver seu maravilhoso marido olhando para as menininhas que passam por aqui. Disse-me Lyon, o gato mais lindo do mundo, todo pomposo! 

- Aff! (Pensei alto) Esses seres humanos se acham tão civilizados e só fazem coisas erradas! Para quê fazer um escândalo desses se de nada adiantará? Por que tentar segurar alguém à força, se o resultado será temporário?

Dei uma miada de insatisfação e nem percebi os olhares melosos que vinham dos dois bichanos à minha frente.

Apesar de já ter quatro anos de idade (uma idade até que avançada para um felino) eu ainda sou mocinha e nunca paquerei em minha vida. Não por querer, claro, mas por falta de oportunidades, visto que, minha 'dona' também por me amar demais, não me deixa sair e ficar perambulando pela rua. Para ela, nosso palácio familiar já é o bastante para que eu viva bem e feliz.

De repente, uma buzinada desenfreada assusta-me e volto de meus mais íntimos pensamentos amorosos para o mundo real. Olho para minha frente e surpresa percebo que meus amiguinhos ainda estão ali, a admirar-me. Dou a volta, faço uma pose e toda dengosa digo em tom de despedida:

- Bom, amigos, preciso ir... Quem sabe amanhã nos veremos novamente?

- Ficaria muito contente em poder te rever e conversar um pouco mais contigo sobre alguma amenidade... Disse Lyon piscando para mim.

- Com certeza! Respondi em troca e já fui virando e saindo em direção a minha casa.

Olhamos um para o outro e nem percebemos o olhar enciumado do bichano ao lado. O mundo era só nosso. Nesse instante, compreendi o verdadeiro significado da palavra amor.

Quase que inconscientemente virei em direção a minha casa. Parecia que e flutuava. Deslizei pela rua com o andar mais charmoso possível, o rabo erguido e balançando ao toque do vento, toda pomposa e faceira.

Chegando em frente ao meu portão, olhei para trás e soltei o miado mais doce que já havia soltado até aquele instante. Se fosse um 'humano' eu teria dado uma piscadinha e feito sinal de coração com as mãos, como os vejo fazendo quando querem se agradar. Como sou apenas uma bichana, agora enamorada, olhei para trás, apertei os meus olhos e dei aquele pulinho para dentro da garagem.

Tive, naquele momento, a certeza de que todo e qualquer amor é justificável. Estava tão enamorada que esqueci até do verdadeiro motivo de minha ida a casa da vizinha e de minha implicância com o ciúme que essa moça tem de seu esposo, afinal, quando amamos queremos o nosso ser amado única e exclusivamente para nós. Concorda, caro leitor e amigo?


(Miadas apaixonadas!!!!)


VAI BRASIL!

Formada em Letras pela Unicamp, com pós-graduação em Língua Portuguesa, Shirley Couto é professora de Português do colégio Sérgio Buarque de Holanda, na Zona Sul de São Paulo. Realiza trabalho de leitura e redação com alunos das séries finais do Ensino Fundamental e escreve a coluna Gatices e outros bichos para o blog da Editora Nova Alexandria toda sexta-feira.