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segunda-feira, 20 de abril de 2015

A PORTA Por Danka Maia





Hera nunca creu que aquele apartamento pudesse ser tão grande depois de voltar ali passados quinze anos. Todavia, era o único local que tinha plena certeza que ele não a encontraria.
Os dias passaram a dor da ausência não. Essa jamais passa, é um verbo que só fica no presente, não conhece o relógio, não sabe o que é passado. O dia doze chegou, e ao sentar no sofá esquecido de seus pais viu ao lado a pequena Bíblia que dera a sua mãe anos atrás. De pronto procurou por 1 Coríntios 13:"Tudo sofre,tudo crê,tudo espera,tudo suporta.O amor nunca falha" -Hera sorriu,e naquele riso havia a dúvida,afinal com ela não tinha sido assim.
Foi na manhã do dia doze que o destino marcou encontro com ela. A campainha tocou e nem foi necessário chegar lá, aquele cheiro amadeirado seria reconhecido por Hera em qualquer lugar do planeta ou fora dele.
Os passos descontinuaram. Foram ficando lentos, e mais lentos. E quando se abancou da porta e reclinou de lado sua face, seu coração disparou e soube que Rick estava ali.
Do outro lado daquela mesma porta, jazia um homem, um boque de rosas vermelhas e um coração em pedaços. A discussão tinha sido árdua demais e o ponto final fora dado por Hera com um pedido de não me procure mais que Ricky tentou abafar dizendo:

_Do amor não se foge, até se esconde, mas por um tempo.

Tempo que a jovem não soube ou quis esperar.

Ela dedilhava todo contorno da porta apertando os olhos e engolindo seco como se tocasse o corpo dele, e cerrou tanto os olhos que ao colocar a testa contra a porta, uma lágrima  desceu vagarosamente e parou sobre seu lábio superior e ao limpar parte daquela gota misturou a sua saliva e Hera sentiu que a dor tem gosto, é amargo, salgado e ao entrar pela boca jamais sairá de seu corpo porque toma conta de tudo principalmente do coração, o músculo da vida ,o dono da alma. E foi nesse  instante que notou esvaecer o perfume e a presença de Ricky que sem pensar correu apanhou as chaves em cima do balcão da cozinha abriu a porta , no entanto, tudo que pôde contemplar foi ali aos seus pés as rosas rubras, o bilhete que explicava a partida para voo dali a meia hora e o barulho das portas do elevador já fechadas.

Ela fitou a porta, as rosas, o bilhete e sem titubear desatinou descendo pelas escadas, aqueles degraus eram infindos e a sua alma sedenta. E viu como tudo se torna tão pequeno diante daquilo que realmente importa: Amar!


Todavia, caiu. E ao chegar a portaria viu que o elevador  estava vazio.Decidida, de pijamas e chinelos pediu trocados ao porteiro e percorreu toda a Avenida em busca de um táxi.  Dado o endereço do Aeroporto, e lá estando. Cruzou toda a extensão do recinto majestoso em pisas duras e obstinadas. As pessoas a olhavam ponderando ser uma insana.
E sim, não era, mas encontrava-se só  que de amor.Porque as vezes,a única loucura mais sóbria na vida e  que te faz bem é amar e nada mais.
Ofegante, desfechou a atendente:

_O Voo 347 para o Canadá?

A moça sorriu compreendo a urgência da solicitação e foi precisa:

_ Portão 12, saída em cinco minutos,senhorita.

E como ela, os demais na fila que começaram a gritar:

_Isso!
_Vai, você consegue!

A asma a impedia de manter o ritmo da corrida chegara à exaustão. Inda em passos acelerados, conseguiu chegar, porém o avião já taxiava pela pista pronto para decolagem.
Hera levou as mãos sobre a cabeça  tomada e domada pelo desespero.
O tempo não tinha esperado. Que saibam o tempo jamais espera, a hora de ser feliz é sempre a mesma para todos os mortais: Agora!

Depois de breves consolos, à volta para casa foi estar no velório da própria alma. Um sepulcro caiado e vazio como rememorou estar  também naquela Bíblia.
Ela não deu ouvidos a ninguém,nem ao taxita que por dó não lhe cobrou a corrida, ao porteiro que indagara como foi,e ao entrar naquele mesmo elevador pensou:

_Meu Deus, o que fiz?

Quando as portas se apartaram, Hera não existia. Sua última seiva foi tentar apanhar as rosas e abrir a tal porta que fez de muralha no lugar do que foi projetado: Uma mera passagem. Passagem pela razão, pelo orgulho, porque é melhor estar em paz do que certo.
   Mas foi ao acender a luz que o sol brilhou. Naquele mesmo sofá Ricky jazia afoito pela sua entrada e quando a viu o riso dele tornou-se vida para ela que abandonando rosas, chaves e tudo simplesmente correu e o abraçou tão forte como quem descobrira  o melhor pretexto para existir: Renúncia!

Após longos minutos se perdoando, se encontrando  e se perdendo um nos olhos do outro  as duas perguntas da moça foram:

_Como foi que me encontrou?

Ricky apanhou a pequena Bíblia  a entregou replicando:

_Usei Jeremias 29:13.- e sorriu.

Ligeira Hera abriu na citação que mencionava:

"E me procurareis, e me achareis quando me procurares de todo vosso coração."

Então veio a segunda questão limpando os olhos marejados:

_E por que não foi?

Ele tocou a face com extrema delicadeza e segredou:

_Porque do amor não se foge, até se esconde, mas por um tempo.


E a beijou.






Até Galera!