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Se for
Se for para ser Ilusão
Que passe
Mas não depressa demais
Que dure o tempo dos Sonhos
Se for para ser Promessa
Que eu a saiba cumprir
Que o Mundo me deixe vê-la
Que o Medo não me agarre a mão
Se for para ser Enigma
Que eu o saiba decifrar
Que encontre o fim do Labirinto
Que entenda o Percurso
Se for para ser Caminho
Que seja Novo
E se for Conhecido
Que seja Reinventado.
Isa Lisboa
No começo do sonho
Lá,
onde o sonho começa,
sentei-me,
e esperei.
Não pelo sonho,
que não chega a quem
o não procura.
Sentei-me,
e esperei,
esperei que o sonho me saísse
para lá dos olhos;
que me rodeasse
como se um mapa
se formasse
à minha volta.
E então,
lá,
onde o sonho começa
me recomecei.
PRISÃO
A luz da minha cidade
A luz da minha cidade
Em versos, houve poetas
Que a tentaram descrever
Em notas, houve músicos
Que a tentaram cantar
Em película, houve fotógrafos
Que a tentaram prender
Em tela, houve pintores
Que a tentaram imortalizar.
Mas só quem nestas ruas
Costuma caminhar
Sabe como ela é
Porque todos a tentam guardar;
À luz da minha cidade
Para conhecer um pouco sobre Lisboa:
Barco salva vidas
Era hora de lançar o salva-vidas à água.
Tinha forças para remar, mas a falta de bússola deixou-me sem saber para onde ir.
Já tinha esquecido o conhecimento ancestral das estrelas-guia, julgo que todos o transportamos connosco, na nossa memória herdada. Mas as luzes do Mundo fizeram-nos esquecê-lo.
E ali estava eu, iluminada pelas estrelas, sem entender o que me diziam. Era, pelo menos, reconfortante tê-las ali comigo.
Tive sede, mas não podia beber, a água estava cheia de medos, não se devem beber, especialmente quando a incerteza nos abraça.
Decidi que devia parar, fechar os olhos, para melhor ouvir as estrelas, o som das ondas.
E então percebi que não havia remos, nem sequer bote, flutuava nas águas, agora calmamente.
A minha cápsula salva-vidas não era mais que o meu corpo. E então a minha alma aquietou-se. Ouvia as estrelas, o mar, a terra ao longe. E soube que ia entendê-los e que a terra me esperava.
Para todos há, algures, a Terra Prometida.
Isa Lisboa
Lost
Procurei-te
Nas ruas
Entre as casas conhecidas
Nos becos desconhecidos
Imaginei-te entre a multidão
A tentares seguir com ela
Como se conseguisses
Seguir caminho que não é teu
Ou talvez ela apenas te levasse
Para longe de mim.
Mas o teu rosto
Eu não encontrei
Nem naquele sonhador
Sentado no banco de jardim.
Mais distâncias eu persegui
Ainda sabendo
Que o Mundo não era suficiente
Para ti.
Chegada ao cabo enfim
Sem sinal de esperança
Até que te procurei
Na onda da praia
Naquela que me molhou
Os pés naquele dia
Mas também ela
Tinha
desaparecido…
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Foto: Kawika Singson, gentle waves created this shoreline
sand art
|
Poupée cassée
Como um
espartilho colado à cintura, o sentia, a apertar o peito, esse amor, que sem
ela saber bem como, ali estava. Contra o peito, espartilho, cortava o ar à
respiração. Tinha ouvido dizer que havia quem não o usasse, mas estava
habituada, o espartilho moldava-lhe a cintura fina, o colo generoso, sentia-se
bonita.
Não
poderia sair à rua sem o seu espartilho, seria mais um boneca desengonçada,
triste. Sabia que o silêncio a rodearia, como a olhariam, e que esse não esse o
olhar que queria.
Quando
tirava a roupa, quando a pele se tocava, os lábios se beijavam e os corpos se
misturavam, em movimentos compassados, ensaiados; ainda mantinha o espartilho.
Sentia aquele calor estranho, como se fosse apenas morno, mas ao mesmo tempo a
queimasse, deixando uma ferida fria que sarava no dia seguinte. Sarava quando
saía e não era boneca desengonçada, sem espartilho que a mantivesse elegante.
Mas
quando se via nua apenas ela, quando se atrevia a tirar a roupa frente ao
espelho, desapertava o espartilho, conseguia respirar, e parecia bom, parecia
que podia ser livre. E então o medo era mais forte, não podia ser bom, nunca
seria nunca bom, não seria nunca uma boneca desengonçada, triste, só.
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| Dark Lolita (Kodona Style)_by Cha Tox |
Sei o teu nome
Acordo,
E percebo
Que estou perdida
E que, desesperadamente
Não consigo encontrar-me.
Saio para a rua,
Sou aquela música
"alguém escreveu
o teu nome
em toda a parte";
Vejo-o em todas as
Novas músicas que oiço;
Escrevo-o
Em todas as folhas brancas
Que encontro.
Sei que o teu nome é
Loucura
A sanidade que me sobra suspira-mo.
Mas não quero
Deixar-te;
Já não posso
Estou perdida
Irremediavelmente
Perdidamente.
Perdida em ti.
SÊ A MINHA CONCHA
Sê
a minha concha
como
se eu fosse pérola (preciosa)
assim
como me vejo nos teus olhos
(generosos).
Envolvida
por ti,
venham
fortes marés
venham
criaturas marinhas
até
das profundezas.
Nada
me levará
de
onde quero estar.
Sê
a minha concha,
envolve-me.
Poisemos
no fundo do mar
onde
tudo é água e sal
apenas.
Isa Lisboa
Olhos negros
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Anna Bocek art
|
Os teus olhos estão
negros hoje
Parecem declamar-te
Como um poema dito
Que escreveste a ti
mesma;
Expões
As páginas do livro
Abertas sobre o
rosto
Não há quem as saiba
ler!
Sentes tu.
Poucos as vêm
Menos as entendem
As palavras escritas
por teu punho
Guardadas aí
No negro dos teus
olhos;
Mas há quem as
tacteie
Como se fossem
Braille
Quem as abrace com
paciência
Até que deixem de
ser grito
E as apanhe
Quando caem lágrima.
Os teus olhos estão
negros hoje
Ao teu lado
Silenciosamente
Alguém espera que
volvam ao mar.
Verbos
Tecedeira
Senta-te aqui
Neste tapete que teci
Para ti
A cor dos teus olhos
Foi a que escolhi
Para o detalhe do bordado
Feito por cima
Da linha que prendi
Nos tons do teu cabelo
Assim este manto que estendi
Descansa nele tuas asas.
Vem
Senta-te aqui
Neste tapete que teci
Para ti –
Diz a aranha
À borboleta.
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| Foto: Christophe Gilbert |
Mulher-Borboleta
![]() |
| Arte: Sokolova Nadezhda |
Queria suster-te no
céu
Mas não podia
As minhas asas
Não me chegavam;
Asas de cores fortes
Mas de frágil tecido
Nasci borboleta
Ao invés de águia real.
E então me fiz
mulher
Para poder caminhar
contigo
No meu regaço
Posso enfim
envolver-te;
Mantive as asas
Mas já não posso
voar
O meu corpo está
preso
À terra
Mas só assim te
poderia tocar
Já há muito fui
crisálida,
Do casulo nasci
borboleta
E por ti
Cresci mulher.
Mulher-borboleta.
Este poema foi originalmente publicado aqui.
Borboleta
CRISÁLIDA
![]() |
| Foto da web |
Como
todas as borboletas, começara por ser crisálida, frágil, envolta no seu casulo
protector, talvez desinteressante, achariam alguns.
Mas
descobriu que, se quisesse, podia transformar-se em borboleta.
E,
apesar das dúvidas que a assaltavam, deixou que as asas crescessem, deixou que
a côr as invadisse, e rasgou a película
que lhe tinha servido de casa por tanto tempo.
Gostou
da sensação nova, de voar, de cortar o vento, de escolher os caules onde
pousar, de procurar pólen, de se deixar estar nas flores do prado, desfrutando
de um pouco de sol.
Mas,
ao contrário de todas as outras borboletas, um dia voltou à pequena planta onde
pela primeira vez voou.
Enrolou-se
nas suas próprias asas, indiferente a como estavam mais coloridas, e tapou-se
com o que restava do velho casulo.
Não
sabe bem quanto tempo lá ficou. Talvez tenha sido apenas alguns dias. Ficou até
que uma outra borboleta ali passou. Ficou talvez com curiosidade sobre com
aquela estranha crisálida, creio que a reconheceu, bateu à porta, não obteve
resposta, está um dia lindo, disse, anda, sai, ainda há tanto para voar.
Sem
movimento de resposta, seguiu.
A
borboleta-crisálida espreitou para fora, viu o sol, o dia, o céu. Sim, queria sair, voar. Já descansara.
Isa Lisboa






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