Quem sou eu?

Danka Maia é Escritora, Professora, mora no Rio de Janeiro e tem mais de vinte e cinco obras. Adora ler, e entende a escrita como a forma que o Destino lhe deu para se expressar. Ama sua família, amigos e animais. “Quando quero fugir escrevo, quando quero ser encontrada oro”.

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Ilha

Foto: Google

Juntos somos uma ilha, seduzidos pelo descanso do frenesin de ser continente nos dias comuns. Sem bússola, flutuando ao sabor das marés.
Lá fora travam-se batalhas, a janela abafa os sons dispersos que ainda tentam chegar. Cá, o elmo e a espada descansam num canto. Os nossos corpos, livres da armadura, entregam-se à leveza.
Desaparecem as feridas e esquecem-se as cicatrizes, as que nos marcam e as que se formarão.
Os teus beijos refrescam os meus lábios, matam-me a sede, sede de dias a atravessar o deserto. A minha pele respira, finalmente, aspirando o teu perfume.
Os nossos corpos são como peças num puzzle, que se constrói devagar, juntando as peças uma a uma, no lugar certo. Peça a peça se vai formando um mapa sem coordenadas, mas não precisamos de guia. O caminho surge na certeza do destino.
Perdes-te. Também eu me perco. Sem corpo. Sem armadura. Sem paredes. Eu sou tu. Tu és eu.

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Se for



Se for para ser Ilusão
Que passe
Mas não depressa demais
Que dure o tempo dos Sonhos

Se for para ser Promessa
Que eu a saiba cumprir
Que o Mundo me deixe vê-la
Que o Medo não me agarre a mão

Se for para ser Enigma
Que eu o saiba decifrar
Que encontre o fim do Labirinto
Que entenda o Percurso

Se for para ser Caminho
Que seja Novo
E se for Conhecido

Que seja Reinventado.

Isa Lisboa
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No começo do sonho


Lá,
onde o sonho começa,
sentei-me,
e esperei.

Não pelo sonho,
que não chega a quem
o não procura.

Sentei-me,
e esperei,
esperei que o sonho me saísse
para lá dos olhos;
que me rodeasse
como se um mapa
se formasse
à minha volta.

E então,
lá,
onde o sonho começa
me recomecei.


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PRISÃO

Foto: Security _ Anonymous
Sabes como é,
quando queres sair de ti mesma e
não consegues?

Avanças resoluta para a porta
e descobres
que já não há porta,
apenas parede,
que te rodeia.

Prisão.

Não há pior do que a da mente.
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A luz da minha cidade

A luz da minha cidade
Em versos, houve poetas
Que a tentaram descrever
Em notas, houve músicos
Que a tentaram cantar
Em película, houve fotógrafos
Que a tentaram prender
Em tela, houve pintores
Que a tentaram imortalizar.

Mas só quem nestas ruas
Costuma caminhar
Sabe como ela é
Porque todos a tentam guardar;
À luz da minha cidade

Para conhecer um pouco sobre Lisboa:


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Barco salva vidas



Era hora de lançar o salva-vidas à água.
Tinha forças para remar, mas a falta de bússola deixou-me sem saber para onde ir.
Já tinha esquecido o conhecimento ancestral das estrelas-guia, julgo que todos o transportamos connosco, na nossa memória herdada. Mas as luzes do Mundo fizeram-nos esquecê-lo.
E ali estava eu, iluminada pelas estrelas, sem entender o que me diziam. Era, pelo menos, reconfortante tê-las ali comigo.
Tive sede, mas não podia beber, a água estava cheia de medos, não se devem beber, especialmente quando a incerteza nos abraça.
Decidi que devia parar, fechar os olhos, para melhor ouvir as estrelas, o som das ondas.
E então percebi que não havia remos, nem sequer bote, flutuava nas águas, agora calmamente.
A minha cápsula salva-vidas não era mais que o meu corpo. E então a minha alma aquietou-se. Ouvia as estrelas, o mar, a terra ao longe. E soube que ia entendê-los e que a terra me esperava.
Para todos há, algures, a Terra Prometida.

Isa Lisboa
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Barco


Barco, navegas
Deixa o horizonte
Ancora em mim

Autor não identificado

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Lost

Procurei-te
Nas ruas
Entre as casas conhecidas
Nos becos desconhecidos
Imaginei-te entre a multidão
A tentares seguir com ela
Como se conseguisses
Seguir caminho que não é teu
Ou talvez ela apenas te levasse
Para longe de mim.

Mas o teu rosto
Eu não encontrei
Nem naquele sonhador
Sentado no banco de jardim.
Mais distâncias eu persegui
Ainda sabendo
Que o Mundo não era suficiente
Para ti.

Chegada ao cabo enfim
Sem sinal de esperança
Até que te procurei
Na onda da praia
Naquela que me molhou
Os pés naquele dia
Mas também ela
Tinha desaparecido…

Foto: Kawika Singson, gentle waves created this shoreline sand art



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Fuga



Fujo e não sei

- Parada e exausta –

De ti e de mim

Arte: Pier Toffoletti

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Poupée cassée

Como um espartilho colado à cintura, o sentia, a apertar o peito, esse amor, que sem ela saber bem como, ali estava. Contra o peito, espartilho, cortava o ar à respiração. Tinha ouvido dizer que havia quem não o usasse, mas estava habituada, o espartilho moldava-lhe a cintura fina, o colo generoso, sentia-se bonita.

Não poderia sair à rua sem o seu espartilho, seria mais um boneca desengonçada, triste. Sabia que o silêncio a rodearia, como a olhariam, e que esse não esse o olhar que queria.

Quando tirava a roupa, quando a pele se tocava, os lábios se beijavam e os corpos se misturavam, em movimentos compassados, ensaiados; ainda mantinha o espartilho. Sentia aquele calor estranho, como se fosse apenas morno, mas ao mesmo tempo a queimasse, deixando uma ferida fria que sarava no dia seguinte. Sarava quando saía e não era boneca desengonçada, sem espartilho que a mantivesse elegante.


Mas quando se via nua apenas ela, quando se atrevia a tirar a roupa frente ao espelho, desapertava o espartilho, conseguia respirar, e parecia bom, parecia que podia ser livre. E então o medo era mais forte, não podia ser bom, nunca seria nunca bom, não seria nunca uma boneca desengonçada, triste, só.

Dark Lolita (Kodona Style)_by Cha Tox

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Sei o teu nome



Acordo,
E percebo
Que estou perdida
E que, desesperadamente
Não consigo encontrar-me.

Saio para a rua,
Sou aquela música
"alguém escreveu
o teu nome
em toda a parte";
Vejo-o em todas as
Novas músicas que oiço;
Escrevo-o
Em todas as folhas brancas
Que encontro.

Sei que o teu nome é
Loucura
A sanidade que me sobra suspira-mo.

Mas não quero
Deixar-te;
Já não posso
Estou perdida
Irremediavelmente
Perdidamente.


Perdida em ti.
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SÊ A MINHA CONCHA

Sê a minha concha
como se eu fosse pérola (preciosa)
assim como me vejo nos teus olhos
(generosos).

Envolvida por ti,
venham fortes marés
venham criaturas marinhas
até das profundezas.
Nada me levará
de onde quero estar.

Sê a minha concha,
envolve-me.
Poisemos no fundo do mar
onde tudo é água e sal
apenas.

Isa Lisboa
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Olhos negros

Anna Bocek art
Os teus olhos estão negros hoje
Parecem declamar-te
Como um poema dito
Que escreveste a ti mesma;

Expões
As páginas do livro
Abertas sobre o rosto
Não há quem as saiba ler!
Sentes tu.

Poucos as vêm
Menos as entendem
As palavras escritas por teu punho
Guardadas aí
No negro dos teus olhos;

Mas há quem as tacteie
Como se fossem Braille
Quem as abrace com paciência
Até que deixem de ser grito
E as apanhe
Quando caem lágrima.

Os teus olhos estão negros hoje
Ao teu lado
Silenciosamente
Alguém espera que volvam ao mar.
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Verbos

Foto: Heart of stone _ vancity197


Trazia o verbo amar no bolso. Quando lhe parecia, tirava-o do bolso e dava-o com um sorriso, aquele que se adequava.

Nunca se gastava, tinha uma caixinha cheia de amo-tes, junto com outros verbos que se colavam bem.

Só se esqueceu de que o Amor é um substantivo e de que precisa de um pronome.


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Tecedeira

Senta-te aqui
Neste tapete que teci
Para ti

A cor dos teus olhos
Foi a que escolhi
Para o detalhe do bordado
Feito por cima
Da linha que prendi
Nos tons do teu cabelo
Assim este manto que estendi
Descansa nele tuas asas.

Vem
Senta-te aqui
Neste tapete que teci
Para ti –
Diz a aranha
À borboleta.  


Foto: Christophe Gilbert


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Mulher - Borboleta (a carvão)

Desenho de Isa Lisboa, baseado numa foto da web

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Mulher-Borboleta

Arte: Sokolova Nadezhda

Queria suster-te no céu
Mas não podia
As minhas asas
Não me chegavam;
Asas de cores fortes
Mas de frágil tecido
Nasci borboleta
Ao invés de águia real.                                                       

E então me fiz mulher
Para poder caminhar contigo
No meu regaço
Posso enfim envolver-te;
Mantive as asas
Mas já não posso voar
O meu corpo está preso 
À terra
Mas só assim te poderia tocar

Já há muito fui crisálida,
Do casulo nasci borboleta
E por ti
Cresci mulher.
Mulher-borboleta.


Este poema foi originalmente publicado aqui.
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Borboleta

Josephine Wall

Deixei a minha casa – segura – e parti em busca de mim mesma. Perdida, procurava um espelho onde me visse como sou. Um local ermo. Onde não ouvisse as vozes que me confundem. Uma árvore, de onde me lançar, e experimentar as minhas asas, há tanto escondidas.
E, no meio da viagem, encontrei-te a ti. E quis ficar, porque vi. Em ti poderei despir-me ao chegar, adormecer nua, nunca terei frio.
Em ti posso voar.
Borboleta e mulher.

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CRISÁLIDA

Foto da web
Como todas as borboletas, começara por ser crisálida, frágil, envolta no seu casulo protector, talvez desinteressante, achariam alguns.
Mas descobriu que, se quisesse, podia transformar-se em borboleta.
E, apesar das dúvidas que a assaltavam, deixou que as asas crescessem, deixou que a côr  as invadisse, e rasgou a película que lhe tinha servido de casa por tanto tempo.
Gostou da sensação nova, de voar, de cortar o vento, de escolher os caules onde pousar, de procurar pólen, de se deixar estar nas flores do prado, desfrutando de um pouco de sol.
Mas, ao contrário de todas as outras borboletas, um dia voltou à pequena planta onde pela primeira vez voou.
Enrolou-se nas suas próprias asas, indiferente a como estavam mais coloridas, e tapou-se com o que restava do velho casulo.
Não sabe bem quanto tempo lá ficou. Talvez tenha sido apenas alguns dias. Ficou até que uma outra borboleta ali passou. Ficou talvez com curiosidade sobre com aquela estranha crisálida, creio que a reconheceu, bateu à porta, não obteve resposta, está um dia lindo, disse, anda, sai, ainda há tanto para voar.
Sem movimento de resposta, seguiu.
A borboleta-crisálida espreitou para fora, viu o sol, o dia, o céu. Sim, queria sair, voar. Já descansara.

Isa Lisboa


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Caminho


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