![]() |
Arte: Autor desconhecido |
Escuridão – Capítulo V
A surpresa foi enorme quando, ao acordar naquela manhã, viu a primeira claridade dos últimos seis anos. Era ténue e desapareceu quase imediatamente. Apenas teve tempo de entrever um halo mais claro, um pormenor do dia, uma sombra menos escura. Tinham sido só alguns segundos de surpresa, antes de tudo voltar ao que lhe era agora habitual: a escuridão. Sentiu algo estranho. Uma mistura de medo e de curiosidade, de vontade que voltasse a acontecer, acompanhada por uma estranha sensação de vertigem. Não disse nada. Não contou a ninguém. Poderia ter sido só um sonho. Tinha apenas acordado quando o evento sucedera. Só podia ser isso mesmo: um sonho. O dia continuou como todos os outros.
As semanas sucederam-se e nada de novo aconteceu. A luz, ou melhor, o sonho daquela claridade, não voltou. Já não pensava nela quando, ao virar a esquina de uma rua em direção à estação do autocarro que a devia levar a casa do irmão, voltou a ver. Desta vez não era simplesmente uma leve e breve aparição da luz. Era uma luminosidade tão forte que teve de fechar os olhos e cobri-los com as mãos. A dor foi intensa, mas passou. O choque foi mais intenso ainda. Não podia deixar de sentir aquela mistura de curiosidade e de medo.
Decidiu consultar o médico e explicou-lhe os eventos. Imediatamente foram receitados novos testes, novas análises e, após algumas semanas, novos resultados estavam disponíveis. A doença recuava. Ninguém compreendia as razões da situação. Nem os médicos, nem ela própria. E ninguém podia prever se iria continuar a ver ou entrever a luz ocasionalmente, se iria voltar a acontecer, ou se iria continuar a melhorar. Nenhum médico se atrevia a prognósticos. Tudo era desconhecido. Nunca tinham visto uma tal coisa.
A mãe dela, guiada pela fé, estava convencida de um milagre, de que Deus ouvira as suas súplicas repetidas e decidira, enfim, devolver a vista à sua filha. Os irmãos, mais pragmáticos, armaram-se em especialistas em psicologia e explicavam que, como a força de vontade e o desejo de combater a doença eram mais fortes, e como ela nunca tinha desistido de querer voltar a ver, a mente tinha acabado por vencer o corpo fazendo recuar a doença.
Quanto à principal interessada, nenhuma das explicações a satisfazia. Se Deus ouvia as súplicas, devia certamente fazer milagres a quem precisasse muito mais do que ela. A sua mente não tinha vencido o corpo, simplesmente, porque ela já tinha renunciado há muito a combater a doença. Já se tinha convencido de que iria ficar cega até ao fim da vida e o facto nem a incomodava assim tanto. Claro, gostaria de voltar a ver o rosto dos que amava. Claro, desejava voltar a ver as cores. Com certeza que queria admirar o Mundo e comunicar com um simples olhar, adivinhar pela expressão na cara e o olhar o interlocutor o que ele pensava, o que sente ao ouvir as suas palavras, ao ver uma das suas esculturas. Mas o que lhe parecia indispensável na vida, agora, ela só o tinha encontrado depois de perder a vista.
Era a aceitação de quem ela era. A argila e a escultura já a chamavam no tempo em que ainda via, mas a família, a sociedade, exigia que uma menina tão inteligente não perdesse o seu tempo de maneira tão inútil. No entanto, quando deixou de ver, já não pareceu estranho a ninguém. Pelo contrário, todos a encorajaram a continuar a experiência e agora mostravam orgulho no seu sucesso.
A independência que conquistou durante os últimos seis anos, ela sabia, não teria sido aceite tão facilmente. Mas, para uma pessoa que não pode ver, e que todos esperam ser independente, tornar-se autónoma, é uma vitória, não só para ela, mas para toda a família e amigos que já imaginavam assisti-la até ao fim da vida.
O que iria acontecer se a doença recuasse verdadeiramente? Iria conseguir guardar tudo o que tinha conquistado? A história não o diz. Ensina, no entanto, que só as pessoas que a amavam verdadeiramente ficaram ao seu lado. Diz também que essas pessoas, por vezes, confundiam amor e controlo mas que, graças – e não por causa – à doença e às suas consequências, aprenderam a ter orgulho nos sucessos e nos passos que dava na direção da independência. E ela sabia que tinha começado a ver quem era, a ver o queria para ela, exatamente quando os seus olhos deixaram de ver…
— FIM —
Diz-se que por vezes precisamos ficar cegos para ver. E isso tem alguma verdade. Quer a personagem tenha recuperado a visão ou não, creio que o que realmente importa é que se tenha recuperado a ela mesma!
ResponderExcluirParabéns por este conto, Dulce, surpreendente neste final!
Um beijinho
Obrigada, Isa!
ExcluirÉ verdade que, por vezes, é preciso aprender a ver... fechando os olhos :)
Beijinhos!
Divino!
ResponderExcluirMuito obrigada, Simon!
ExcluirAbraço!
Gostei da maneira que terminou o conto, vc tem um poética pessoal que querendo ou não acaba surpreendendo seus leitores.
ResponderExcluirBjs no seu coração.
Já pensou em escrever um livro? Seria maravilhoso ter um livro seu, assim como tenho alguns da Danka!
Querida Clau,
ExcluirMuito obrigada!
Prometo pensar no assunto :)
Beijinhos!
Belíssimo final Dulce ! E cabe um reflexão : até onde estamos cegos ?!! De uma forma tranquila você deixa a resposta impressa neste final ... adorei ! Parabéns e que venha mais contos ! Um forte abraço !
ResponderExcluirMuito obrigada, Sandro!
ExcluirVirão mais se eu conseguir terminá-los :D
Abraço!
Sem palavras Dulce, demorei mas consegui chegar...Me faz pensar se realmente enxergamos ou achamos que o fazemos.
ResponderExcluirLindo!
Danka,
ExcluirÉ a pergunta que resta colocada neste conto e acho que a resposta depende de cada um. Mas é sempre possível decidir agir de forma diferente!
Beijinhos!