Quem sou eu?

Danka Maia é Escritora, Professora, mora no Rio de Janeiro e tem mais de vinte e cinco obras. Adora ler, e entende a escrita como a forma que o Destino lhe deu para se expressar. Ama sua família, amigos e animais. “Quando quero fugir escrevo, quando quero ser encontrada oro”.

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Escuridão – Capítulo V

Arte: Autor desconhecido

Escuridão – Capítulo V 

A surpresa foi enorme quando, ao acordar naquela manhã, viu a primeira claridade dos últimos seis anos. Era ténue e desapareceu quase imediatamente. Apenas teve tempo de entrever um halo mais claro, um pormenor do dia, uma sombra menos escura. Tinham sido só alguns segundos de surpresa, antes de tudo voltar ao que lhe era agora habitual: a escuridão. Sentiu algo estranho. Uma mistura de medo e de curiosidade, de vontade que voltasse a acontecer, acompanhada por uma estranha sensação de vertigem. Não disse nada. Não contou a ninguém. Poderia ter sido só um sonho. Tinha apenas acordado quando o evento sucedera. Só podia ser isso mesmo: um sonho. O dia continuou como todos os outros. 

As semanas sucederam-se e nada de novo aconteceu. A luz, ou melhor, o sonho daquela claridade, não voltou. Já não pensava nela quando, ao virar a esquina de uma rua em direção à estação do autocarro que a devia levar a casa do irmão, voltou a ver. Desta vez não era simplesmente uma leve e breve aparição da luz. Era uma luminosidade tão forte que teve de fechar os olhos e cobri-los com as mãos. A dor foi intensa, mas passou. O choque foi mais intenso ainda. Não podia deixar de sentir aquela mistura de curiosidade e de medo. 

Decidiu consultar o médico e explicou-lhe os eventos. Imediatamente foram receitados novos testes, novas análises e, após algumas semanas, novos resultados estavam disponíveis. A doença recuava. Ninguém compreendia as razões da situação. Nem os médicos, nem ela própria. E ninguém podia prever se iria continuar a ver ou entrever a luz ocasionalmente, se iria voltar a acontecer, ou se iria continuar a melhorar. Nenhum médico se atrevia a prognósticos. Tudo era desconhecido. Nunca tinham visto uma tal coisa. 

A mãe dela, guiada pela fé, estava convencida de um milagre, de que Deus ouvira as suas súplicas repetidas e decidira, enfim, devolver a vista à sua filha. Os irmãos, mais pragmáticos, armaram-se em especialistas em psicologia e explicavam que, como a força de vontade e o desejo de combater a doença eram mais fortes, e como ela nunca tinha desistido de querer voltar a ver, a mente tinha acabado por vencer o corpo fazendo recuar a doença. 

Quanto à principal interessada, nenhuma das explicações a satisfazia. Se Deus ouvia as súplicas, devia certamente fazer milagres a quem precisasse muito mais do que ela. A sua mente não tinha vencido o corpo, simplesmente, porque ela já tinha renunciado há muito a combater a doença. Já se tinha convencido de que iria ficar cega até ao fim da vida e o facto nem a incomodava assim tanto. Claro, gostaria de voltar a ver o rosto dos que amava. Claro, desejava voltar a ver as cores. Com certeza que queria admirar o Mundo e comunicar com um simples olhar, adivinhar pela expressão na cara e o olhar o interlocutor o que ele pensava, o que sente ao ouvir as suas palavras, ao ver uma das suas esculturas. Mas o que lhe parecia indispensável na vida, agora, ela só o tinha encontrado depois de perder a vista. 

Era a aceitação de quem ela era. A argila e a escultura já a chamavam no tempo em que ainda via, mas a família, a sociedade, exigia que uma menina tão inteligente não perdesse o seu tempo de maneira tão inútil. No entanto, quando deixou de ver, já não pareceu estranho a ninguém. Pelo contrário, todos a encorajaram a continuar a experiência e agora mostravam orgulho no seu sucesso. 

A independência que conquistou durante os últimos seis anos, ela sabia, não teria sido aceite tão facilmente. Mas, para uma pessoa que não pode ver, e que todos esperam ser independente, tornar-se autónoma, é uma vitória, não só para ela, mas para toda a família e amigos que já imaginavam assisti-la até ao fim da vida. 

O que iria acontecer se a doença recuasse verdadeiramente? Iria conseguir guardar tudo o que tinha conquistado? A história não o diz. Ensina, no entanto, que só as pessoas que a amavam verdadeiramente ficaram ao seu lado. Diz também que essas pessoas, por vezes, confundiam amor e controlo mas que, graças – e não por causa – à doença e às suas consequências, aprenderam a ter orgulho nos sucessos e nos passos que dava na direção da independência. E ela sabia que tinha começado a ver quem era, a ver o queria para ela, exatamente quando os seus olhos deixaram de ver… 

— FIM —
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Escuridão – Capítulo IV

Arte: Autor desconhecido

Escuridão – Capítulo IV 

Os meses passaram. Passaram os anos. Ela já estava habituada a tudo o que lhe parecia impossível seis anos antes. Já não se perdia no seu próprio apartamento. Já conseguia deslocar-se na rua sem qualquer ajuda, mesmo em sítios que não conhecia. O segredo eram os outros sentidos. Apercebeu-se que a sua audição detectava mais informações do que pensara possível, que as suas mãos e a preciosa guia sentiam e viam o caminho e os seus perigos. Pensava muitas vezes que as pessoas que podem ver desperdiçam o dom de visão em coisas inúteis quando deveriam aproveitar esse presente para apreciar o mundo, para comunicar sentimentos de doçura, de ternura, como só o olhar pode. 

E trabalhava. O mais curioso no seu trabalho é que ninguém acreditava que ela o poderia fazer até que viram os primeiros resultados. Nem ela tinha consciência que seria capaz de uma tal coisa, mas a sensação nas mãos era tão tranquilizadora, tão maravilhosa, que decidiu tentar a experiência. E deu resultado. A coisa ainda mais estranha era que, ela, a própria criadora dos objetos, não os podia ver. Era escultora. As suas pequenas estátuas vendiam-se facilmente. Porque não eram caras, mas também pela curiosidade dos amadores que queriam possuir uma estátua, um busto, uma flor, formada na argila por uma pessoa com a sua condição. 

Tudo o que diziam dela, ela ouvia. Nunca lhe veio à ideia responder. Aceitava que as pessoas pensassem dessa maneira mas recusava-se categoricamente a deixar-se levar a aceitar condescendência e generosidade originada pela culpa. Tinha novos amigos, alguns que também não podiam admirar o Mundo, outros que desejavam sempre descrever o que ela não podia ver para que lhe fosse possível imaginar ou comparar com a lembrança de tudo o que vira no passado. O seu filme privado ainda estava vívido, fresco. Ela nunca se esquecia de rever tudo o que tinha amado ver. As lembranças, se bem que em menor quantidade, ainda ocupavam o olhar da sua memória.

termina no dia 21 de outubro...

Dulce Morais
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Escuridão – Capítulo III

Arte: Autor desconhecido

Escuridão – Capítulo III 

A noite continuou a preencher a sua visão, deixando cada vez menos luz. A bengala-guia foi comprada, o pequeno apartamento apetrechado com os aparelhos que lhe iriam facilitar o quotidiano. As pontas dos dedos ainda não se tinham habituado às letras inventadas por Louis Braille, mas aprendiam aos poucos. Já encontrava as marcas gravadas nas moedas quando ia tomar café para deixar o troco em cima da mesa. Também já conseguia identificar o pacote de leite e distingui-lo do de sumo de laranja. Descobriu que, afinal, ainda podia ler. Claro, não era com os olhos, mas com os ouvidos. As gravações em CDs de obras literárias eram poucas e nem sempre encontrava disponíveis os textos que queria descobrir, mas a sua mãe, que tinha a particularidade de ter sido dotada de uma voz encantadora, dedicava os seus serões a gravar, num pequeno aparelho que adquirira para o propósito, os livros mais recentes que sabia que a filha iria gostar. Foi assim que a sua coleção de livros foi crescendo e que lia ainda mais do que no passado. É verdade que, quando podia ver, a leitura era uma atividade que exigia uma concentração dirigida exclusivamente para as páginas imprensas. Agora que ouvia livros, podia ao mesmo tempo aquecer a água para o chá ou pentear o cabelo, concertar as almofadas do sofá ou limpar a mesa. 

Uma manhã, ao acordar, compreendeu que a cor tinha desaparecido da sua vida. O calor do sol que entrava pela janela aquecia o seu rosto mas ela não podia já distinguir as partículas de luz. Já estava preparada há muito para esse dia e não se assustou. Ficou só triste, e chorou. Não acusou a vida. Não acusou o destino. Nem a má sorte. Nem a doença. Chorou de saudades. Chorou da ausência da beleza das imagens que jamais poderia rever. E acalmou. Lembrou-se das viagens, do encanto das cores que guardaria na sua memória por relembrá-las com frequência para as manter vivas. E fez o seu filme privado, na sua mente, composto das maravilhas que vira nos meses anteriores. Voltou a dormir, cansada pelas emoções que tinha vivido, sem mesmo sair da cama. Quando acordou, não sabia que horas poderiam ser. Encontrou às apalpadelas o relógio especialmente concebido que lhe permitia saber as horas com o toque e descobriu que já passavam das onze da manhã. Lentamente iniciou a sua nova vida na escuridão. 

Continua no dia 14 de outubro...

Dulce Morais
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Escuridão - Capítulo II


Escuridão - Capítulo II


As semanas passaram e o sono continuava ausente das suas noites. Mais consultas, mais análises, mais conversas com médicos que não se davam ao trabalho de utilizar um vocabulário inteligível para ela. Resolveu informar-se sobre a doença que lhe engolia a vista aos poucos. Queria saber. Consultou inúmeros livros na biblioteca. E leu. E soube. Talvez não soubesse tudo, mas sabia o suficiente para compreender o que estava a acontecer ao seu mundo.

Foi só então que decidiu falar aos seus familiares. Reunidos na sala de jantar, em casa dos pais, estavam todos presentes: o seu pai, a sua mãe, os dois irmãos, o namorado e a sua amiga de sempre. Na hora do café levantou-se e pediu a atenção de todos. Falou. Explicou. Chorou. Contou. O choque nos rostos dos presentes era evidente. Ninguém respondeu. Pareciam todos ter perdido a voz. O seu namorado levantou-se, deu dois passos muito lentos na sua direção e, ainda mais lentamente, abraçou-a. Ficaram ali abraçados um longo momento até que, finalmente, o seu pai fez a primeira pergunta: Quanto tempo? Ninguém sabia ao certo, mas ela deu a estimativa que o médico lhe tinha indicado. Nada mais foi dito naquele dia. Cada um voltou para sua casa. Os amigos e familiares, no entanto, não ficaram muito tempo silenciosos nem inativos. A partir do dia seguinte e durante duzentos e quarenta e três dias, cada um, ou quase, se dedicou a fazer-lhe ver o que ela não poderia ver mais tarde e para o resto da sua vida. Quase todos. Quase. O namorado, ao fim de quatro semanas, anunciou que, afinal, iria fazer aquele estágio na Inglaterra que tinha inicialmente recusado. Sendo um contrato de três anos, preferia separar-se. Seria difícil manter uma relação ativa e viva à distância, sobretudo porque em breve, ela não iria poder escrever-lhe ou utilizar um computador para comunicar com ele. Ela não recusou nem suplicou. Não disse que, se não pudesse escrever ou utilizar um computador, ainda poderia falar. Não tentou prendê-lo. Compreendia que ele não quisesse amarrar-se a uma pessoa que não poderia ver, que seria dependente.

Todos os outros se dedicaram a levá-la visitar e ver tudo o que poderia gravar na sua memória. O verde das paisagens, o azul do céu e do mar, as cores do arco-íris. Os seus pais viviam uma vida modesta. Havia dinheiro suficiente para o necessário e ainda para alguns prazeres, mas sempre prazeres simples. Nada de grandes viagens através do Mundo. No entanto, porque tinham consciência de que existiam centenas ou milhares de coisas que a filha nunca iria poder ver, decidiram fazer um empréstimo. O dinheiro serviu para viajar com ela. Foi assim que viu o Egipto e as suas pirâmides, Amsterdão e as maravilhosas pinturas de Van Gogh, o British Museum e os seus tesouros, Nova Iorque e a sua Estátua da Liberdade, a Islândia e as suas paisagens fantásticas, e ainda muitas outras coisas, mais belezas e mais cores. Tentou gravar tudo na sua memória, guardar para sempre as imagens de tudo o que via. Observava tudo com muita atenção para tentar nada esquecer. Sabia no entanto que a memória apaga aos poucos o que não considera importante. Teria de se lembrar de tudo com frequência, de rever as imagens de tudo o que não queria esquecer.

Após oito meses, e apesar de nada ter dito aos familiares e amigos, tornou-se evidente que já não valia a pena partir para uma nova viagem. Chegara o tempo de parar, de descansar e de preparar-se para o inevitável. A luz já não penetrava a sua retina de maneira regular. O véu da noite ensombrava com frequência a sua vida. Tinha vivido todos os meses passados a gravar imagens na sua memória para tentar guardar algo da beleza do mundo que iria deixar de ver e quase tinha esquecido que teria de preparar-se para a vida que a esperava. Tinha de aprender os gestos que lhe seriam necessários para adquirir alguma independência quando a escuridão ganhasse. E, assim, todos os dias que se seguiram foram de aprendizagem. E aprendeu sobretudo a contar. Contou os passos que separavam a sua cama da casa-de-banho. Contou quantos eram necessários para ir até à cozinha. Contou os palmos entre a cafeteira e o frigorífico, e quantos entre o fogão e a gaveta dos talheres. 

Continua no dia  5 de outubro...

Dulce Morais
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Escuridão - Capítulo I

Arte: Autor desconhecido

Escuridão - Capítulo I



Virou-se novamente na cama, para o lado esquerdo, desta vez. Continuava sem conseguir dormir. Que horas seriam? Há quanto tempo tentava dormir sem qualquer sucesso? Decidiu acender a luz do candeeiro, encontrou os óculos às apalpadelas e conseguiu finalmente ver no despertador que passava das três da madrugada. Em vez de continuar a tentar dormir, pegou num livro começado há muito e decidiu sentar-se na cama para ler até que o sono ganhasse. Mas não conseguiu. Aquela simples atividade, ler, era algo que, em breve, já não iria conseguir fazer.
Como poderia ela dormir depois daquela notícia que caiu como uma bomba na sua vida? Então, decidiu, para tentar compreender e aceitar os factos, rever em memória o percurso que a trouxera àquele ponto. Fora há cinco anos a primeira vez que consultou o oftalmologista. Na escola, tinha sentido dificuldade em ler o que se escrevia no quadro, não conseguia distinguir quase nada ao longe e tinha cada vez mais dores de cabeça sem qualquer explicação. O médico fez todos os exames e testes necessários. Enviou-a para ser consultada por outro médico no hospital com o objetivo de investigar as razões de tal situação numa rapariga de apenas dezasseis anos. Três semanas mais tarde, os resultados chegaram: teria de usar óculos em razão de uma grave miopia. Estranhamente, esta doença tinha-se desenvolvido muito rapidamente no caso dela, o que era inabitual. No entanto, nada mais fora identificado. As dores de cabeça eram só uma consequência da má visão.
Teria terminado o problema se tudo se estabilizasse por ali, mas não foi o caso. Nos cinco anos seguintes continuou a ver cada vez menos, cada vez menos claramente. O médico continuou a receitar testes, novos óculos, com correção cada vez mais forte. E nesse dia, pelo fim da tarde, a notícia caíu-lhe em cima como se o próprio céu, como se o mundo, o seu mundo, estivesse a despedaçar-se. Sofria de uma doença rara para a qual só existe uma consequência: iria ficar cega. Dentro de pouco tempo, talvez seis meses, talvez um ano, já não iria conseguir ver o mundo, já não lhe seria possível ler, ver o rosto das pessoas que amava, admirar paisagens, estudar, viver sozinha. Iria precisar de ajuda, de reaprender cada gesto banal da vida para adaptar-se à escuridão.
Como poderia ela conseguir dormir depois de uma tal notícia? O seu namorado, adormecido a seu lado, nada sabia ainda, nem os seus pais que viviam perto. Não tinha conseguido falar a ninguém da notícia. Ainda não conseguira aceitar, ainda não queria acreditar na realidade da situação e falar a alguém, contar o que se passava, explicar as consequências, teria significado tornar tudo mais real, mais inevitável. Ainda não estava pronta para as perguntas, ainda não tinha força para evidenciar uma postura de coragem às pessoas que a rodeavam. Iria esperar um pouco, umas semanas, até conseguir dizê-lo. Ocorreu-lhe que talvez nunca fosse encontrar coragem para falar. Mas afastou a ideia rapidamente. Não queria começar a duvidar disso também.
Continua no dia 28 de setembro…
Dulce Morais
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Escuridão - Apresentação

Arte: Autor desconhecido


Escuridão - Apresentação

Vai iniciar-se em breve neste blogue a publicação de um conto que tem por título “Escuridão”. Será publicado em 5 capítulos e contará as etapas de um percurso através da escuridão, até encontrar a luz... ao fundo do túnel ou da alma…

Espero que venham a gostar. Não hesitem em dar a vossa opinião. A critica construtiva é sempre útil para poder melhorar.

Até breve.

Dulce Morais
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