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A Calma na Palma da Mão
Existem tantas possibilidades de duas pessoas nunca se encontrarem no vasto mundo em que vivemos! Não me refiro particularmente a pessoas destinadas a ligar-se uma à outra pelo sentimento amoroso, mas sobretudo a pessoas que podem trazer umas às outras coisas que mais ninguém iria trazer.
Acontece que, o que frequentemente consideramos como coincidências da vida, nos leva à presença de pessoas que nunca iríamos encontrar em situações ditas normais. A história que se conta nestas linhas aconteceu na realidade. Os eventos aqui descritos poderão ser considerados como insignificantes, mas tiveram uma importância capital, pelo menos para uma das protagonistas. E quando uma coisa é importante para uma pessoa, pode tornar-se relevante para as outras.
Existem pessoas no meio de nós que sofrem no quotidiano! Claro, todos nós sofremos. Temos mágoas na nossa vida, temos desgostos, temos problemas, preocupações que nos retiram a felicidade ou, pelo menos, a ocultam por uns tempos. No entanto, refiro-me aqui às pessoas que sofrem no seu corpo! Pessoas que, todos os dias, sem exceção, sofrem de dores, mais ou menos graves, mais ou menos intensas, mais ou menos suportáveis! Esse sofrimento, causado por doenças, por ferimentos diversos, ou por outras razões, pode ser passageiro ou pode ser crónico!
Quero aqui contar a história de Sofia que sofria de dores crónicas! Todos os dias sentia a dor no seu corpo! Muitas vezes ignorava-a, fingindo que estava tudo bem e conseguindo até esconder o seu mal-estar das pessoas à sua volta!
No entanto, quando a dor é cada vez mais forte, quando está presente todos os dias, os companheiros, os amigos, os colegas, acabam sempre por notar que “qualquer coisa está errada”. Foi isso que aconteceu a Sofia.
Depois de ter conseguido admitir que nem sempre se sentia bem, os amigos conseguiram finalmente compreender que o “nem sempre” era “quase nunca”! Não podiam fazer nada para aliviar a dor quando ela chegava, mas estavam presentes, e isso, acreditem ou não, era o mais importante para a Sofia!
Apesar de se sentir mal muitas vezes, Sofia não se deixava ir abaixo e continuava a ter uma vida o mais normal possível. Participava em jantares com amigos, ia ao cinema, gostava de festas. Foi numa dessas situações em que estava a festejar uma ocasião particular com amigos que Sofia foi apresentada a Mariana.
Elas não se conheciam, e nada sabiam uma da outra, mas trocaram algumas palavras sobre a festa. Por ali ficaram durante a maior parte da noite, até que, o que Sofia rezava para não acontecer, aconteceu : uma dor, mais forte que as outras, mais traiçoeira que as outras, porque mais intensa, porque mais insuportável, surpreendeu-a no meio da festa.
Como sempre, Sofia isolou-se. Levantou-se e dirigiu-se para os lavabos! Encostou-se à parede e deixou-se deslizar até ao chão frio. Segurou a cabeça entre as mãos e ficou assim, aguardando que a dor acalmasse o suficiente para que lhe fosse possível voltar para casa. Claro, voltar para a casa, porque uma tal dor é esgotante, não deixa força para mais nada, consome a energia toda e só permite esforços mínimos!
Sentada ali no chão, ouviu a porta abrir-se e viu entrar Mariana, um sorriso na face. Esta não disse nada, só sorriu. Avançou lentamente, sentou-se em frente de Sofia e calmamente, pousou-lhe a mão no ombro.
Nenhum gesto tão simples, tão sincero, jamais tinha provocado um tal sentimento de calma. Sofia sentiu o calor daquela mão pousada no seu ombro, sentiu a calma transmitida por aquela pessoa que algumas horas antes lhe era desconhecida. Sentiu também a força, a coragem, insinuada naquele silêncio!
A dor acabou por acalmar, Sofia acabou por se levantar, mas a mão de Mariana ficou ainda um longo momento pousada no seu ombro. Acompanhou-a até ao exterior, e ali ficou enquanto Sofia esperava pelo taxi que acabara de chamar!
A doçura do gesto de Mariana, a ternura, mas sobretudo o silêncio, a ausência de curiosidade, confortaram Sofia de uma maneira que ela desconhecia!
A calma na palma da mão de Mariana ficou gravada na memória de Sofia e, sempre que uma dor traiçoeira a atormenta, a lembrança dessa calma ajuda-a novamente a suportar, a superar o sofrimento, tornando assim os seus dias mais leves e a sua situação mais suportável!
Dulce Morais
Essas dores que só um ombro amigo pode ajudar na cura
ResponderExcluirGostei bastante, poderia nos contar mais sobre elas
bjos
Muito obrigada, Roberta!
ExcluirQuem sabe elas regressem num conto futuro... :)
Bjs!
Dulce
ResponderExcluirAinda há pouco acabei de escrever "Há quem diga que nada acontece por acaso"... E agora leio este teu texto, a lembrar-me o que escrevi minutos antes...! :)
Beijinhos
É verdade Isa, que nada acontece por acaso... :)
ExcluirObrigada pelo teu constante apoio!
Beijinhos
Dulce,me encantei com essa abordagem,de pessoas que podem ou não estar ligadas as nossas vidas e com o poder de reacionar nossa trajetória.Estou nesse momento pensando nas pessoas que passam,passaram,passarão e as que jamais saberei se chegarão a mim.Amei! Beijocas!
ResponderExcluirDanka,
ExcluirHaverá sempre pessoas que ficam apenas por um tempo no nosso horizonte... algumas deixam algo que nos faz crescer, outras nada mais que uma vaga lembrança...
Obrigada pelo seu apoio, pela motivação e carinho :)
Beijinhos!
Dulce, ontem na escola quando lia o livro "Milagre" uma passagem de um diálogo, lembrou-me você . E na mesma hora comecei a escrever um acróstico , iria mandar no dia 25 , mas como senti seu cheirinho em Mariana ...
ExcluirDelicada amiga que tem o dom
de saber usar o silêncio tanto quanto
as palavras que lotam nossa alma
de conforto e
esperança
Bjs.
....
ExcluirSeria necessário mais um silêncio para agradecer a sua leitura e o seu apoio constante, então vou apenas dizer: <3
Beijinhos, minha amiga!