Danka Maia é Escritora, Professora, mora no Rio de Janeiro e tem mais de vinte e cinco obras. Adora ler, e entende a escrita como a forma que o Destino lhe deu para se expressar.
Ama sua família, amigos e animais.
“Quando quero fugir escrevo, quando quero ser encontrada oro”.
Depois de minutos descendo meus quadris em várias posições céus a fora percebi que um macho humano me observada da cobertura de um prédio, que eu só sabia que era prédio porque vi nas escolas de fadas. Voei até ele toda faceta, cheguei na sacada colocando minhas mãos sobre meu queixo e os cotovelos sacada. Ele parecia petrificado como aqueles feitiços escabrosos das feiticeiras do Sul do meu reino.
— Oi! Tudo bem com você? — ainda mudo. — Oi! Fala a minha língua?
— Eu morri? — foi tudo que o morenão gostoso na casa dos quarenta conseguiu dizer.
— Por que você acha que morreu?
— Eu estou vendo uma mulher de asas debruçada na sacada do meu apartamento.
— E daí?
— Você é um anjo?
Não prestou. Agora de pé na sacada, passei a mão pelas minhas curvas e com um olhar bem sacana rebati:
— Você acha que eu tenho jeito de anjo é? — esfregando minhas mãos por minhas curvas, seios e bunda.
— Ainda acho que morri.
— Por quê?
— Porque do jeito que eu sou devo ter ido para o inferno e nesse caso você é uma linda diabinha.
Gargalhei ainda mais disposta a enlouquecê-lo.
— Você é lindinho sabia? — desci passando o dedo pelo peito viril e peludo dele trazendo o mesmo dedo na boca o chupando. — Tem um gosto bom. — outra risadinha levada.
— Quem é você?
— Que importa. Não seria melhor perguntar: Do que está disposta a fazer?
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Sugiro a leitura com a melodia instrumental "Por Uma Cabeza"
Toda mulher é uma rainha. Cedo ou tarde todas se dão
conta disto.
Essa não é mais uma história de uma pobre coitada
com pouca ou nenhuma oportunidade na vida.
Mas não é
mesmo!
Susete estava
em seus cinquenta e poucos anos, mãe de Ricardo e Mariana, avó de Lucas, Tiago,
Gabriela e Teodoro, esposa Valente. Adorava a família, porém sentia falta de
por um instante sentir-se livre. Era como se algo faltasse em sua alma,como se naquele
preciso segundo morresse não teria vivido tudo intensamente como fez com nas
demais partes de sua vida. Susete sentia a ausência de liberdade. E não
confundam liberdade com libertinagem. A dona de casa de todo dia não queria um amante,
um caso ou um amigo, era tanto amada quanto amava, somente alcançava o brilho
do fulgor que só a liberdade pode nos proporcionar. E no seu caso em especial,
atendia pelas oscilações que o corpo adora obedecer: A dança.
_Poxa Valente, vamos sair. Jantar? Que me diz?
Valente era torneiro mecânico naval aposentado,
conhecera o mundo, nenhum local tornara-se mais atraente aos seus olhos que não
o sofá da sua sala que a vida inteira decorou e pouco desfrutou do pobre. Não
entendia muito bem porque a esposa sentia tanto essa vontade de bater pé por
ai, no entanto, a venerava e satisfazê-la era sim um ponto importante para ele.
_Oh Susete, liga lá para suas amigas, a Ida e Tina ,quem sabe elas não
se animam. Sabe o trio ternura não se arrisca a uma aventura não é paixonete?-Deitando no bendito divã
outra vez remoendo amendoins torrados, vício que adquirira desde o tempo que
esperava horas a fio nos saguões dos aeroportos de sua existência. Susete
suspirou um tanto desanimada a o mesmo tempo compreendida pelo parceiro de vida.
Marcou com as "meninas" na
velha e tradicional confeitaria Colombos no Centro do Rio.
_Ai que essas golousemas descem pela minha boca,embriagam
nos meus sentidos e...
Ida concluiu soltando uma gargalhada acompanhada de
Susete:
_E vai direto para seus quadris de onde nem com reza
braba sairá!
_Só mesmo fazendo campanha de libertação no bisturi
do Doutor Medeiros!-Susete finalizoudeliciou-se com a farra.
_Ai vira essa boca para lá Ida. -resmungou Tina
batendo três vezes na charmosa mesa e confessando:
_O Afonso reclama até hoje daquela lipo que implorei
e o fiz pagar até mês retrasado! Unha de fome de uma figa! Trinta anos de
casado e ainda se acha no direito de fazer reclamações.
_Devia agradecer
por você não coloca-lo na justiça do trabalho isso sim! -Ida estava incontrolável.-_trabalho
escravo? Causa ganha na certa!
Mas Susete ficou ausente com um olhar perdido entres
as ambrosias e a fatia da torta de pêssegos que tanto apreciava.
_Su,que houve?-quis saber Tina.
_É! Estamos
escarnecendo o marido da amiga e você se perde na terra do nunca!-reclamou Ida.
_Não crianças,
apenas estou divagando. Achei que com filhos criados e encaminhados, netos
curtidos teria Valente só para mim. Agora noto que traçamos metas diferenciadas
para envelhecermos juntos.
_ Ihhhh...Já vi tudo! Resmungou Ida. -Ele entrou na
fase do tórrido caso de amor entre o sofá e a bunda dele ,não é?
_Credo Ida!-replicou Tina. -E isso é jeito de falar
do...
Ida mandou:
_Do rego do outro?
_Eu não tenho
tanta petulância!
E mais uma vez formou-se a calorosa discussão entre
as duas amigas de Susete.
_ E eu não sei disso Tina? Por seus talentos
herdados da falecida sua mãe, que Deus a tenha em bom lugar e bem longe de mim,
estaria transando com Duarte até hoje com um lençol e um buraco no meio.
Gargalhando e
arrancando um riso de Susete.
_Também não foi bem assim! -Tina quis justificar-se.
_Que não foi!Quem te ensinou a virar lagartixa na
cama para ele fui eu,me poupe madre Tereza do Méier!
Ida prosseguiu filosofando para Susete:
_Amiga linda de bonita do meu coração. A equação é simplíssima:
HOMEM+SOFA+APOSENTADORIA: MULHER COM LACRE DE NOVO!
Tina protestou:
_Tá maluca praga? Quase 40 anos de casamento a
Susete se tornar virgem de novo?
_Se ficar só donzela de novo se dê por satisfeita
filha,outro dia li na internet um caso de uma mulher que numa dessa acabou com
a dita-cuja toda colada.
_O que? -Susete se acabou em riso.
_Ida isso é
loucura!-Protestou Tina outra vez concluindo:_Gente, virou tudo uma coisa só
por acaso?
_Estou falando para vocês que li,a perseguida da mulher de vagina virou
MONOGINA! Uma coisa só! Susete agiliza o processo amada, se não nunca mais verás
o bicho de um olho só do Valente!
E ai as três desabaram nos ares da graça.
Na volta para casa, olhando as luzes da cidade num
início de noite no banco traseiro do taxi,Susete se pôs a refletir sobre tudo
aquilo e rememorando ate soltou outros risadas que fizeram o motorista fita-la
pelo retrovisor.
_Desculpe senhor. -disse modesta.
_Que isso senhora, rir é o combustível da alma.No
meu caso o Tango é o meu combustível.
E aquela palavra acendeu uma antiga fagulha dentro
de Susete.
_Tango?
_Ah sim eu adoro dançar um Tango as terças e sextas
na Lapa.
_Que maravilha! Amo dançar, na mocidade até me
arrisquei durante um tempo,e o tango também era um de minhas preferências.Mas
sabe como é a vida,veio casamento, filhos, e a gente vai seguindo e se perdendo
de quem somos para sermos aquilo que também sonhamos sem imaginar a ausência
que pode causar no ser o que realmente nos completa:Nós mesmos!
_A senhora não gostaria de visitar a
Estudantina?-indagou o motorista num tom de convite, e após vinte hora de
conversa e apresentações devidamente feitas, paga a corrida que acabou saindo
pela metade que o taxímetro marcara, Susete tinha um nova visitaa fazer pelo seu mais novo amigo Artur, vulgo
Tuco,o taxista.
Ela jamais chegou em casa tão esfuziante.
_Valente! Paixonildo! Gostoso de minha alma!- Os
gritos enchiam o silêncio da casa e da alma da dona de casa,porém,o maridão
jazia no terceiro sono nos braços de Morfeu.No outro dia contou tudo a ele com
uma empolgação de 15 anos de idade.
_Paixonete, o que vai fazer num salão dedança criatura?
_Paixonildo vamos! Por favor!- Implorando-o com as
duas mãos cerradas.
_Susete, embora não compreenda essas tuas
necessidades descabidas, até tento respeitar. Se quiseres ir vá, tens minha
benção!- volvendo ao sofá de novo o que a fez lembrar-se do romance do traseiro
dele como o canapê em questão como abordada Ida.
E como ele dera o aval, lá foi à sonhadora em busca
de liberdade. Fez amigos, desabrochou o corpo agora amadurecido para o bailado.
Lá encontrou Heitor, seu professor, um argentino
feliz e movido pelo tango e a primeira lição que a ensinou foi:
_Susete,o tango precisa ser visto como aquela dança
de uma noite qualquer onde você jura que
não vai acontecer nada que te absorva, surpreenda ou encante. Mas, ao baila-lo
entenda-o como se fosse à última vez que poderá desfrutar de tal prazer.
A
desenvoltura e paixão que a tomava era tanta que levou o professor convida-la
para uma Milonga,ali mesmo na Estudantina na noite seguinte.A habilidade dela
era tamanha que a intitulou a melhor aluna da classe.
Susete aceitou sem pestanejar, chamou todos. Marido,
filhos, amigas, no entanto no dia e hora questão sabe quantos estavam? Nenhum
deles. Valente tinha a final do time de futebol e era óbvio queencontro com o sofá já estava deveras marcado,
os filhos tinham outros compromissos, os netos estariam na hora de dormir, Ida
viajara dias antes para casa da filha em Curitiba e Tina encontrara-se com um
bueiro que lhe deixou a perna esquerda quebrada o repouso tornara-se suapalavra de ordem.
E cá entre nós quem nunca viveu um momento como
esse? Quando só queremos a presença, o apoio incondicional de quem amamos e
tudo que recebemos com ou sem intenção é o olhar vazio no meio do salão. O
coração da dona de casa disparou, as pernas bambearam, e ficou refletindo no
que era o a dança que apresentaria com Heitor.O Tango mescla o drama, a paixão, a
sexualidade, a agressividade, é sempre e totalmente triste. Como dança é
"duro", masculino, sem meneios femininos, a mulher é sempre submissa.
O ritmo é sincopado, tem um compasso binário. A síncope é de uma nota tocada no
tempo fraco que se prolonga até um tempo forte, o que movimenta a música e
desloca acentuação do ritmo. O professor aproximou-se dela e sabendo de tudo
foi levee sábio:
_Susete , tiempo
para ser libre y lo que es más hay una noche más.
Imediatamente ela sorriu e acenando a cabeça
concordou e repetiu agora para si,dentro da alma:
_Hora de ser livre em uma noite qualquer!
E a
conduzindo delicadamente pela mão até o centro onde o foco de luz se ascenderia
sobre os dois, ela num lindo vestido rubro um pouco mais longo atrás, justo,
mas de modo comedido, com meias pretas transluzentes que torneavam suas pernas
deixando-as mais belas que de costumeiniciou-se o Tango Por Una Cabeza.
ATENÇÃO CARO LEITOR:
DAQUI EM DIANTE MINHA SUGESTÃO É QUE A LEITURA SEJA DEGUSTADA AO SOM DA BELÍSSIMA MELODIA EM QUESTÃO,COM UM VINHO FICA MUITO MELHOR...
"Por Una Cabeza(Instrumental)
Escolhido
a dedo por Susete,lembrança do filme estrelado por Al Paccino-Perfume de Mulher seu predileto,onde mostra que pessoas
simples,importantes,cegas,surdas,lindas ou feias podem e devem vivenciar o doce
prazer que a liberdade nos dá, e agora chegara a sua ocasião de deliciar-se nos
braços dessa liberdade, por ela tão desejada.
Heitor deslizou suas mãospelo seu ombro até a cintura e no
primeirolance maior da nota do violino
a trouxe rente ao seu corpo, começando aquela Milonga com um ABRAZO (abraço), anel formado pelo braço
direito do homem em volta dascostas da
mulher, o esquerdo da mulher em volta dopescoço do homem eesquerdo do
homem e direito da mulher unidos pela mão. Requisito indispensávelpara a dança de tango.
Enfim, Susete era mais feliz,bela e jamais fora tão
livre!
Entãoveio o ADELANTE (em frente),A frente do
homemADORNO (enfeite),uma graça que se acrescenta com um ou ambos pés,
de modoindividual, em pausa ou
movimento,uma típica decoração.Ao completar este ciclo, veio o tão esperado ADAGIO (do italiano, lento). A
continuação de oscilações amplas realizadas sobre um tempo lento. Movimento de
cenário, de caráter pausado, usado para intensificar a sensualidade. Quando a mulher
o aproveita paraacariciar com sua perna
a perna do companheiro. A sequência maravilhava os poucos expectadores que ali
apreciavam aquele belo espetáculo para Susete era como se no mundo não houvesse
nenhuma outra mulher, somente ela e totalmente dona de si.
Pensava consigo:Voar
sempre, cansa -por isso ela corre em passo de dança.
Vieram a AGACHADA,
corte com que conclui um giro e consisti em aproximar-se do piso
horizontalmente, a AGUJA (agulha), se
fala de quando o homem pisoteava enquanto a mulhergira ao seu redor, e define com lápis. Susete
afastou encenando fielmente AMAGUE
(amargurar-se), que é aspecto arrependida e caída.Heitor a colheucomuma APERTURA (abertura),passo
que se dá sem cruzar uma perna sobre outra nem juntar os pés.E ARROJE (arremesso) quando o homem
estende os braços e expulsa amulher a
maior distância, geralmente para levar-lhe ao cruzamento ou propor oinício de um giro.Que veio e foi sensacional,
o módico público foi ao delírio.Susete amava,sentia e sofria por estes
instantes não vividos.Esquecendo do trivialdançar é sentir, sentir é sofrer, sofrer
é amar. Se você ama, sofre e sente. Não espera:Dança!
E quando o último acorde do violino calou-se Susete
viu que toda vez que carecesse ir aquele Reino onde era Rainha plena e eterna tudo que precisava
fazer era simplesmente não dançar, mas entregar-se ao desejo de ser livre, ou
como disse Friedrich Nietzsche: "E
aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não
podiam escutar a música e descobrir onde mora a verdadeiro espírito de
liberdade."
Cesar
a olhou de um jeito único.Aquele onde o mundo,o segundo,o temposimplesmente cessam e naquele campo de visão
só existem os seus e os olhos da outra
pessoa.Houve um instante de decisão,de que aquilo não valia a pena, de que o
outro sentir não valia tanto quanto pensara ao ponto de leva-lo ali, naquele
batente da janela do alto de um prédio de quinze andares,e foi a esticar a mão
da sorte segundo elem em direção a Letícia,a mão direita, que seu pé escorregou
e antes de alcançar ada companheira dos
dez anos de suas vidas, seu corpo volveu para trás e a última palavra que ouviu
da boca dela foi: _Não!-
Cesar encontrara o chão exatos três segundos depois.Os médicos tentaram,a vida
tentou,mas ambos não lograram êxito algum. No
velório a pergunta que queria não calava era porque o Professor de Física, um
homem racional ao extremo, apaixonado pela esposa, um amigo leal, um filho irrepreensível
poderia chegar aquela conjuntura, tirar a própria vida. Não havia resposta,
existiam especulações, suposições e mais indagações, porém réplica,
definitivamente Cesar não teria deixado. Letícia
mergulhou num fundo de dor, o amava mais que a própria vida, muitas vezes mais
que a si mesma. A família tanto dele como a dela perpetuou ao lado da escritora
dando todo o suporte necessário, no entanto, após alguns dias por decisão dela,
acataram e todos se foram. No apartamento enorme de três quartos, uma vezque o intento era ter uma família cheios de
meninos e meninas, restara apenas e somente o vazio de uma utopia, a loucura de
um bem querer,um coração despedaçado. Foi após um pranto copioso entre a quina
da cozinha e a saída para o longo corredor que a campainha ousou tocar. Tocou.
Tocou. E num ato de irritação suprema Letícia interfonou ao porteiro cobrando
do homem qual parte do não estou para
ninguém não teria compreendido, a resposta educada na voz mansa foi no
mínimo intrigante:
_Desculpe,
mas acho que a senhora deveria atender.-Conhecia Januário,era um criatura de coração nobre,um porteiro que virou
amigo,sabia que teria suas razões para ter lhe dito tal coisa.Depois do
vigésimo toque reuniu forças e colocandoa mão sobre a maçaneta a destrancou, entretanto ao abrir,a sua frente,no
chão, no meio do capacho um vaso com um lindíssima tulipa, sua flor
preferida.Levou as mãos os lábios tomada por um misto de espanto e dor
dilacerante, somente Cesar conhecia aquela preferência, porque quando juntos
,houve um dia que a pedira que escolhesse uma flor que fosse o símbolo de amor
entre eles.Ninguém além do marido saberia tal detalhe,num relance viu que um
rapaz aprontava-se a espera do elevador e o chamou: _Ei!
Foi você quem deixou essa tulipa aqui? _Sim
senhora, fui eu. - Objetou mesclando um chiclete. _Talvez
tenha se enganado. - Letícia não podia aceitar que aquela tulipa fosse para ela.
Seria impossível. _Não.
- O rapaz foi firme. - _Aqui está o recibo, apartamento 1303, Letícia Alves de
Prado? È a senhora? A
mulher gelou. _Sim,
sou eu. Quem a mandou? _Não
sei senhora, mas há um cartão no vaso, sou tão somente o rapaz das entregas.-
Dando os ombros e entrando de vez no elevador que jazia a sua espera.De costas
era retornou e ao fitar os olhos outra vez naquele vaso caiu de joelhos diante
dela.As mãos tremiam.O coração disparou.Um temor lhe tomou os olhos,mas
corajosa procurou pelo cartão, e outra surpresa lhe adveio,o cartão era de cor verde.Outro
predicado que só Cesar conhecia,porque o pertencia,pela cor dos olhos dela
serem verdes "furta-me a alma"
como brincava, desenvolveu o costume de toda vez que um recado,um verso, uma
bronca,um mero:Estou aqui.
Ininterruptamente eram escritos numa folha de papel verde. E de novo estava
diante dela, contudo como? Letícia
abriu as pressas o cartão e a ao ler o conteúdo da folha de papel cor furta-me a alma foi inevitável não
deixar os mesmos olhos tão apreciados por ele se autoabsorverem em lágrimas de emoção.
A letra, as palavras, os pontos, as vírgulas, eram todas dele.
Ali
mesmo Letícia outra vez entregou-se a desgosto. Semelhava tudo se encaixar, parecia
Cesar,explicando-se e agora fazendo vê-la o que de fato tinha feito,embora o
motivo ainda não fosse aclarado. Os
dias passaram, e as tulipas também. Sim, desde aquele dia, todos os seguintes o
entregador lhe via deixar uma tulipa. Sentia que de algum modo o marido deixara
algo para que fosse compreendido uma vez que cada flor era acompanhada de uma mensagem.
Depois de uma semana tomou fôlego e decidiu ir a floricultura saber de como
aquilo teria sido feito por ele.A proprietária sorriu quando Letícia chegou,deu
ares de esperar por sua presença ali mais ou menos dias. _Boa
Tarde. Meu nome é Le... _Letícia
Alves de Prado. - Completou a senhora sorridente e estendendo a mão. _Como
sabe meu nome?-Perguntou percebendo tratar-se de outro enigma. _Poucas
são as certezas da vida Dona Letícia, fora a morte poucasnos restam,no entanto,em minha vida sei que
jamais esquecerei do seu nome.Antes de tudo,permita-me dar os pêsames por sua
perda que julgo ser irreparável.-Letícia recuou a mão após o cumprimento sincero
da senhora que completou citando: _Meu
nome é Isabel.Creio que sua vinda até aqui seja devido o recebimento de suas
tulipas.Estou certa? _Sim.É
o que me trouxe aqui. _Compreendo.
- Isabel recuou o olhar, indo para trás do balcão da loja apanhando um livro
preto de capa dura. O abriu com cuidado, revirou folhas e ao achar volveu o
exemplar para Letícia permitindo que lesse. A esposa de Cesar obedeceu e mais
uma vez ficou abismada. Cesar tinha contratado e pago os serviços da
floricultura por exato um ano, onde diariamente as tulipas deveriam ser
entregues em seu apartamento a Letícia no mesmo horário, as três e dezesseis da
tarde, hora em que se encontraram pela
primeira vez.De algum modo, a intenção dele era manter para companheira que
acontecesse o que fosse,aquela hora e minutos jamais seriaesquecidos por ele. E
Letícia de novo chorou. Isabel
apanhou uma carta guardada numa gaveta. Outro envelope maior, porém verde, furte-me a alma.E veio o veio deslizando
pela bancada até as mãos da moça e a dizendo: _Seu
marido me pediu que quando viesse aqui deveria entregar esse envelope e essa
foto, deixou comigo para que eu a reconhecesse. Foi enfático quando falou:_Ela
virá. -suspirou do mesmo modo comovida e terminou: _E aqui está você. Letícia
apanhou o envelope, sorriu entre as lágrimas, e saiu porta fora correndo
desesperadamente, invadidapor um ato
tão lindo e ao mesmo tempo tão insano.Enquanto corria entre as pessoas, ruas e
cruzava na frente de carros, somente uma coisa permeava a mente: _Por
quê? Depois de correr por quase quinze quarteirões,
as pernas cansaram, o fôlego faltou, não se pode fugir o tempo todo, a gente
até se esconde, mas nunca para sempre. Sentou-se num banco de uma praça que não
conhecia, respirou e após minutos recordou do envelope o apanhou delicadamente,
chegou a relutar se deveria ou não abri-lo, e de novo pensou em Cesar, sim, ele
gostaria que Letícia interpretasse o conteúdo que guardara no papel.
Um
caminhão passado repetida vezes por cima teria deixado mais cacos dela do que
aquela carta. Letícia odiou Cesar. Voltou à vida ou que restara da mesma e
deixou por dias que as tulipas se aglomerassem em sua porta ao ponto de
atrapalharem o direito de ir e vir dos vizinhos e afins que careciam da
passagem.Depois de muitas reclamações, para evitar desgastes, decidiu por as
tulipas para dentro, largou na entrada, no hall, mal olhava para as lindas
flores que pareciam sorrir para a moça ressentida.Outra vez, a saudade bateu,outra
vez nos braços das tulipas Letícia repousou seu corpo,sua alma e sua dor.Abriu
todos os cartões,todos sempre rememoravam um dia, uma passagem, algo especial
naqueles dez anos de convivência. O
sofrimento tem algo nobre, trás consigo um amadurecimento díspar, faz a gente
ver o que não via, sentir o que não sentia, tolerar o que não tolerava e até
continuar amando o que não merecia mais ser amado. E
foi nesse surto de amadurecimento que se armou, preparou e resolveubuscar pela tal Ana,se ela tivesse despertado
o último sentimento de Cesar,Letícia queria conhecê-la,não para dizer verdades,
saber se era pior ou melhor, quando a falta bate no peito tudo isso torna-se meramente
fugaz e efêmero.É pequeno,o amor é maior, quebrae ultrapassa certas barreiras antes
intransponíveis. Ana era alta, grandes olhos, cabelos curtos e de riso fácil
que se tornou triste quando Letícia apresentou-se explicando quem era. Algo
estava errado. Pairava no ar. Ana suspirou e depois de pedir a Letícia que sentasse
no sofá da sala de seu escritório mordiscou os lábios e foi sincera:
_Sinto
muito pelo que aconteceu com Cesar. Nunca cri que pudesse ter aquelaatitude quando lhe contei a verdade sobre
mim. O
sol ensaiou raios na mente da esposa. _Como
assim a verdade Ana? _Na
noite anterior ao episódio contei a Cesar que não podíamos ficar juntos. Não
estava convicta, queria um tempo maior para refletir a respeito. _E
ele?- Letícia indagou confusa. Ana a contemplou e mais uma vez foi franca: _Contou-me
que havia desfeito de seu maior tesouro por uma bijuteria. Letícia
começou a entender os fatos.Despediu-se educadamente da jovem, e no caminho
para casa lembrou cada segundo daquele dia no batente do prédio. _Não
faça isso meu amor... Cesar... _Tem
que ser assim Lê. Um dia vai entender... E
ao esticar a mão para o marido na tentativa de demovê-lo da insana ideia agiu
com o âmago: _Não
importa o que aconteceu. Não importa se errou, se acertou,sou capaz de passar
por cima de tudo, mas não sou capaz de viver sem você Cesar. Foi
quando seu corpo descontinuou, seu rosto volveu para ela e sorrindo pareceu se
arrepender e ver que ainda valia a pena inda que tivesse que ser iniciado do
nada.Também nesse instante que elevou a mão,tudo aconteceu. Sobrevieram
dias, meses, tulipas e cartões de cor verde furta-me
a alma imbuídos de lembranças até que o última dia chegara.Era a última
tulipa.Letícia encontrava-se feliz,fizera uma estufa,Cesar havia cumprido a
última promessa,teria dito que um dia daria a amada a melhor razão do mundo
para ter sua própria estufa.O mesmo entregador de um ano atrás foi quem trouxe
a derradeira flor.Tocou a campainha, sorriu repousando nas mãos de moça e num
aceno confessou: _Foi
um prazer Letícia. _Muito
obrigado Felipe. Letícia
a levou para a bela estufa,deixou numa mesa e a contemplou por muito tempo, era
como se aquela flor pudesse despertar todas as outras lembranças citadas nas
outras.Foi até a cozinha e apanhou uma garrafa de vinho que Cesar guardara para
segundo ele a melhor razão que lhe adviesse.Letíciafitou a garrafa e falou consigo: _Que
melhor razão posso ter?- Abriu a garrafa, despejou na taça habitual, onde os
dois bebericavam enquanto faziam planos. Voltou a estufa, olhou para tulipa e
erguendo a taça como se o contemplasse a sua frente fechou os olhos imaginando
o riso tímido dele sussurrou: _Saúde
meu único e eterno amor!
Encheu
o peito e procurou o cartão,e como os outros no mesmo lugar.O abriu
,recostou-se na bancada e leu:
E
Letícia sorriu, prosseguiu,e foi feliz com sua nova razão de viver.Quando Cesar
encomendou e pagou pelas tulipas creu que estava dando a Letícia um novo
horizonte, mas na verdade daria uma grande prova de amor.Talvez se não
estivesse escorregado,teria cancelado as flores, talvez, talvez...O mundo é
feito deles.A vida é feita de fatos.Uma coisa é certa:Quando há respeito,sempre
haverá um modo de fazer o que precisa ser feito com carinho, consideração e
sobretudo lealdade.O amor tudo espera,tudo sofre,tudo suporta,o amor nunca
acaba.
Maria
escancarou as portas do seu armário e sentou-se à beira da cama olhando
o enorme volume de roupas que até mesmo poderia jogar fora. Em menos
de um ano, já era a terceira vez que teria de se mudar.
Logo agora que estava se acostumando com a nova casa.
Seu pai trabalhava com plantas ornamentais e desejava há algum tempo
encontrar um bom lugar para abrir uma floricultura e ter um espaço para
plantar suas flores.
Não demorou até que seu pai encontrasse uma casa que atendia às suas necessidades.
E como era de costume, mais uma vez teria de se mudar. A mudança foi numa manhã de sábado.
Tivera tempo para arrumar todas as suas coisas e ainda descansar um pouco.
A casa ficava em zona rural, e os vizinhos mais próximos moravam a aproximadamente um quilômetro e meio.
O lugar era bonito e agradável para quem não gosta da agitação da
cidade e prefere o sossego do campo, e o mais importante, havia espaço
de sobra para se plantar.
Ajudou seu pai a descarregar o restante dos objetos e entrou para começar a arrumação.
Sua mãe já estava no interior da casa à sua espera.
Quando pisou na soleira da porta, jurou ter sentido um arrepio
descer-lhe à espinha, e sentiu os cabelos da nuca se arrepiar também.
Bateu três vezes na madeira pensando neutralizar qualquer energia negativa.
Sua mãe estava feliz com a nova casa. Era espaçosa, arejada, os quartos eram amplos, a varanda era aconchegante.
Um lugar agradável. A construção era antiga, mas a velha casa
permanecia de pé e não aparentava toda idade que tinha, pois há pouco
havia sido reformada.
O dia foi longo para Maria. Trabalhou bastante até conseguir deixar tudo em ordem e a seu gosto.
Seu irmãozinho, Fernando, de apenas seis anos de idade, apenas brincou o dia todo em um banco de areia que havia no quintal.
A noite não demorou a chegar e logo a família se reuniu para jantar.
Maria sentia falta dos barulhos da noite na cidade. Tudo ali era tranquilo demais.
Havia dois quartos na casa, uma sala, a cozinha e o banheiro.
Dormiria com seu irmão em um quarto, enquanto seus pais ficariam com o outro.
O fim de semana passou rápido. Na segunda-feira ela teve de ficar
sozinha com seu irmão, pois seus pais tiveram de ir para a floricultura
que era distante dali.
Procurou fazer todos os seus afazeres de manhã para que tivesse algum tempo para brincar com Fernando.
Sentia falta de ter pessoas para conversar, mas acreditava que aos poucos se acostumaria.
Era difícil passar o dia todo apenas na companhia de seu irmão. Seus pais sempre chegavam quando já estava escuro.
Com o passar dos dias sentiu que não gostava de ficar dentro de casa. Era fria e úmida, bem diferente de quando chegou.
Vivia constantemente usando blusas, mesmo quando o sol brilhava lá fora.
Apenas Fernando não sentia o mesmo, vivia arrastando seus carrinhos pelo chão usando apenas bermudas.
Sentia-se cada vez mais sozinha e até mesmo chegou a comentar isto com
seus pais, que não se importaram muito, dizendo que tudo não passava
de uma fase de transição.
Passou a achar que enlouquecia. Toda vez que se deitava para dormir, não conseguia pegar no sono.
Virava de um lado pro outro tentando achar a melhor posição.
Deixando o quarto sempre o mais escuro possível, e mesmo assim passou a ver imagens estampadas na parede.
Esfregava os olhos várias vezes, mas elas não desapareciam. Pensava ser coisa de uma mente alucinada.
Noites a fio passava observando as imagens na parede que às vezes
formavam rostos e outras vezes eram apenas espirais que giravam
insistentemente.
Não contou isso a ninguém para que não atestassem sua loucura.
Desejava não ter de dormir mais naquele quarto.
Tentou algumas vezes dormir na sala, o que não ajudou muito, pois coisas piores aconteciam ali.
Dormia no sofá e por vezes sentia alguém lhe puxar o cobertor com violência.
Levantava-se assustada e assim que colocava os pés no chão, mãos geladas agarravam seus calcanhares.
Tentava gritar, mas sua voz saía sempre como um gemido.
Quando conseguia correr até o quarto dos pais, sempre ouvia a mesma frase: “Está sonhando ou imaginando coisas!”.
Mas ela sabia que não era isso. Estava certa de que não era. Estava profundamente perturbada.
Para piorar sua situação, seus pais passaram a levar Fernando com
eles para que fosse à escola e apenas o traziam de volta à noite.
O fato de estar definitivamente sozinha fez com que os fenômenos aumentassem.
Quando estava na sala ouvia ruídos vindos da cozinha. Encolhia as pernas sobre o sofá e tapava os ouvidos.
Não era suficiente para que não ouvisse as portas do armário se
abrindo, os copos e pratos sendo quebrados, torneira sendo aberta. Era
enlouquecedor. Quando era tomada de certa coragem, levantava-se e ia
até a cozinha e para sua surpresa, sempre tudo permanecia intacto, em
seus devidos lugares.
Aos poucos foi emagrecendo, seus olhos viviam com olheiras, em seu
corpo apareciam marcas roxas, como se fosse espancada por alguém e,
mesmo assim seus pais ainda achavam que ela apenas tinha uma mente
fértil demais.
Cansada de vivenciar aquele tormento, decidiu abandonar tudo. Andou e andou até avistar a casa dos vizinhos mais próximos.
Estava exausta. O sol estava a pino. Decidiu bater palmas e pedir um pouco de água.
Uma mulher aparentemente simpática veio atender.
Maria a cumprimentou e disse-lhe onde morava. A mulher arqueou um pouco a sobrancelha.
Após conversarem um pouco do lado de fora, a mulher a convidou para entrar. — Então você mora na casa velha? – perguntou a mulher enquanto servia-lhe água.
Maria apenas meneou a cabeça.
— E você está gostando de lá?
Silêncio entre as duas.
— Na realidade… Não!
A mulher sentou-se fixando o olhar sobre a jovem.
— Percebo que não está feliz. Talvez eu possa ajudá-la.
— Talvez não! – Maria suspirou.
— Não aparenta ser uma pessoa feliz. Existe algo que a preocupa? Não precisa ter medo de se abrir.
Maria não conteve as lágrimas. Ignorou a voz que no fundo a mandava voltar para casa e falou:
— Sim. Talvez tenha algo a dizer. Coisas ruins vêm acontecendo comigo. Apenas comigo.
— Não precisa me falar muita coisa. Poupe seu coração. Moro aqui há algum tempo e já ouvi muitas histórias.
Não precisa me contar. Posso imaginar! – disse a mulher, enquanto discretamente observava as marcas nos braços dela.
— Então a senhora acredita em mim? Naquela casa existe mesmo algo sobrenatural? O que sabe a respeito?
— Bem… Quando me disse onde morava, confesso que meu coração gelou.
Há muito tempo atrás, viveu naquela casa uma família.
Três filhos e sua mãe, já idosa. Eles viviam bem, mas um dos filhos enlouqueceu.
Via vultos, objetos que caíam no chão, coisas que se quebravam. Dizem
que ele acabou contagiando os irmãos com sua loucura e por fim, os três
acabaram por matar a própria mãe, e dizem que a enterraram sob o chão
da cozinha.
Essa história chocou muita gente, pois eles ainda moraram durante um bom tempo na casa, sobre o túmulo da mãe.
A jovem sentiu medo. Aquela história era inacreditável. Não deveria ser verdade.
Tomou a água rapidamente e despediu-se da mulher, correndo de volta para casa.
Quando chegou, tudo estava como havia deixado. Entrou devagar pela porta que dava na cozinha.
Olhou ao redor e não viu nada de estranho. Lembrou-se de que a mulher havia dito que o túmulo da velha era na cozinha.
Puxou a mesa para um canto e abaixou-se para arrastar o tapete, não
conseguiu, pois todos os armários começaram a se abrir novamente e os
pratos e copos eram cuspidos de dentro deles com violência sobre ela.
As gavetas começaram a se abrir e fechar, e os talheres também voavam lá de dentro em sua direção.
Ela não se deixou impressionar, mesmo sentindo seu corpo paralisado pelo temor, não desistiu.
O tapete parecia estar preso ao chão, não se soltava.
Um vento forte vindo do lado de fora a jogou contra a parede, abrindo um corte em sua fronte.
Recordou-se de que sua mãe dizia que contra os poderes do mal, apenas a
oração fazia algum efeito, resolveu iniciar uma série de orações que
se lembrava. A princípio não surtiu efeito, mas devido a sua
insistência, os fenômenos cessaram.
Desta forma pode finalmente arrastar o tapete e constatar que o piso da cozinha era irregular.
Havia uma parte que parecia ser nova, como se alguém o tivesse quebrado e o refeito.
Formava perfeitamente o desenho de uma sepultura.
Tomando-se de toda coragem que ainda lhe restava, procurou por alguma
ferramenta que a ajudasse a quebrar o piso. Encontrou um pé-de-cabra, e
com toda força que tinha, quebrou todo o piso.
Pegou uma pá e em seguida retirou a terra.
Não ficou surpresa ao encontrar a ossada humana.
Sentia-se paralisada pelo pavor, mas ainda conseguiu retirar os ossos e os levar para fora de casa.
Já escurecera e seus pais não demorariam a chegar.
Preparou uma pira improvisada e ateou fogo nos restos mortais que encontrara.
Quando seus pais finalmente chegaram, ela ainda estava no quintal, ajoelhada junto à fogueira.
Assustaram-se em vê-la naquela situação, com as roupas sujas e com terra nas unhas e cabelos.
A abraçaram perguntando o que havia acontecido.
Maria lhes contou tudo, desde o princípio e todos se chocaram com sua história.
Imediatamente resolveram arrumar as coisas e partir para longe dali. Arrependeram-se de não ter dado ouvidos à ela. Partiram para sempre, deixando para trás a velha casa e toda maldição que pairava sobre ela.