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Arte: Autor desconhecido |
Escuridão – Capítulo IV
Os meses passaram. Passaram os anos. Ela já estava habituada a tudo o que lhe parecia impossível seis anos antes. Já não se perdia no seu próprio apartamento. Já conseguia deslocar-se na rua sem qualquer ajuda, mesmo em sítios que não conhecia. O segredo eram os outros sentidos. Apercebeu-se que a sua audição detectava mais informações do que pensara possível, que as suas mãos e a preciosa guia sentiam e viam o caminho e os seus perigos. Pensava muitas vezes que as pessoas que podem ver desperdiçam o dom de visão em coisas inúteis quando deveriam aproveitar esse presente para apreciar o mundo, para comunicar sentimentos de doçura, de ternura, como só o olhar pode.
E trabalhava. O mais curioso no seu trabalho é que ninguém acreditava que ela o poderia fazer até que viram os primeiros resultados. Nem ela tinha consciência que seria capaz de uma tal coisa, mas a sensação nas mãos era tão tranquilizadora, tão maravilhosa, que decidiu tentar a experiência. E deu resultado. A coisa ainda mais estranha era que, ela, a própria criadora dos objetos, não os podia ver. Era escultora. As suas pequenas estátuas vendiam-se facilmente. Porque não eram caras, mas também pela curiosidade dos amadores que queriam possuir uma estátua, um busto, uma flor, formada na argila por uma pessoa com a sua condição.
Tudo o que diziam dela, ela ouvia. Nunca lhe veio à ideia responder. Aceitava que as pessoas pensassem dessa maneira mas recusava-se categoricamente a deixar-se levar a aceitar condescendência e generosidade originada pela culpa. Tinha novos amigos, alguns que também não podiam admirar o Mundo, outros que desejavam sempre descrever o que ela não podia ver para que lhe fosse possível imaginar ou comparar com a lembrança de tudo o que vira no passado. O seu filme privado ainda estava vívido, fresco. Ela nunca se esquecia de rever tudo o que tinha amado ver. As lembranças, se bem que em menor quantidade, ainda ocupavam o olhar da sua memória.
termina no dia 21 de outubro...
Dulce Morais
Gostei da surpresa de ela ser escultora...! Menor surpresa, e ainda bem, foi que ela tenha continuado a sua arte! :)
ResponderExcluirUm beijinho
Obrigada, Isa!
ExcluirHá quem diga que é coragem. Há quem diga que é resignação. Acredito que seja apenas amor... à arte, ao mundo, à vida!
Beijinhos!
Que bom que após a cegueira não deixou se abater. Creio que quando desejamos fazer algo de todo nosso coração o universo conspira a nosso favor.
ResponderExcluirAnsiosa, pelo próximo capítulo.
Bjs.
Chega hoje o último capítulo e espero que gostem da surpresa :)
ExcluirConcordo com a Clau,o universo conspira ao nosso favor,é o velho efeito boomerang,laças o bem e só o bem voltará.Adorando Dulce!
ResponderExcluirBeijinhos!
Muito obrigada, Danka!
ExcluirFico feliz que esteja gostando :)
Beijinhos!
Fui pego de surpresa. Eu esperava que fosse readaptar mas, jamais imaginei ela ser uma escultora. Vamos ver que outras surpresa virão ... muito bom Dulce ! Parabéns
ResponderExcluirSandro,
ExcluirEspero que o capítulo final continue à altura das suas expectativas!
Abraço!