QUATRO DIAS
Intrigada Sofia o indagou:
_E por que precisava de tal oportunidade? Já se
passaram tantos anos.-sussurrou crendo que ele não ouvira.
_Sempre achei que essa conversa por mais dolorosa
que fosse tinha que existir.Temos assuntos inacabados Sofia, sabe disto.-
Fitando de lado enquanto limpava o suor de seu rosto de traços marcantes e bem
feito.
A moça sabia que Guto tinha razão. Mas às vezes o
que nos adianta a razão frente à decepção? Nada. Quando a circunstância nos
puxa o tapete jogando-nos num abismo de emoções e lágrimas pouca coisa resta,
uma delas, palavras.Simplesmente parecem perder toda seiva que muitas vezes nos
coloca de pé. O que Sofia queria esconder do rapaz fora a depressão cavalar e
crudelíssima que enfrentara calada e que somente Milton notou porque teve que
conviver com ela.
_Sofia de novo com esse quarto fechado?- Milton era
baixo,branco, cabelos negros,olhar pequeno e
um pouco paciente.Compreendia que aquele casamento fora um acerto bem
feito para si e a filha do pastor.Porém se irritava constantemente nos
primeiros anos com a convalescência emocional dela e as idas ocultas ao
psiquiatra.
_Desculpe.- Respondeu num tão quase inaudível.
_Poxa tem que levantar dessa cama e ir viver! A casa
está uma desordem, comida para fazer, roupa para lavar. Daqui teus pais estão
ai para o glorioso almoço de domingo e se ver essa bagunça toda vou me explicar
como para eles? Anda, levanta logo! Anda, anda!
A moça se erguia num esforço descomunal da cama.
Punha primeiro os pés para fora enquanto a
outra parte de si implorava que fenecesse naquele exato segundo e assim
terminaria todo aquele calvário.Milton ia abrindo as cortinas com grosseria e
mais resmungos,afinal aquele era seu único trabalho, fazer de conta que tudo
estava bem.
Sofia naquele dia em particular havia decidido, sem
nada avisar, sem combinação nenhuma com o marido porque evidentemente este a
calaria até mesmo usando a força como ocorrera algumas vezes,que naquele almço
haveria um grande desvendamento.Queria se revelar, pronunciar toda dura verdade tão bem abrigada,rasgar o
peito, expor a alma, abandonar as vestes daquela postura reprimida, abrir as
pernas dos pensamentos e conceber frente a todos a si mesmo,mostrar quem ela
era e como se sentia para aqueles que se intitulavam sua família.Cansara de ser
uma gente cotidiana, de maquiagens mal feitas e retoques ainda piores.Carecia
que aquele tipo de fidelidade resignada fosse enfim extirpado de sua vida para
todo o sempre.Seu pai era um homem comum, cumpridor metódico de seus deveres
religiosos e por ele considerados preciosos.Entendia pouco de prazeres,e ao
findar de tantos anos não conseguia mais
dissipar o que eram seus poucos desejos, se tinha sonhos ou se tudo se
aglomerava na tediosa linhagem que construíra ao longo de tantos anos de
dedicação.
A mãe era mais uma dona de casa comum, vendia
cosméticos e roupas para membresia da igreja. Uma mulher submissa, uma mãe
distante, um ser que nunca saberemos se realmente existiu.
Esse era o mundo de Sofia.
Ela se arrumou como nunca. Vestiu-se como mandava o
figurino, roupa contida, sapatos baixos, pouca maquiagem, cabelos presos e um
sorriso falso saudando seus genitores:
_Cada vez mais jovem mãe! Pai, mais forte, não?
Nenhum dos três compreendeu o que havia acontecido
com a filha e esposa recatada, aquele tom irônico não era lhe era peculiar, na verdade,
não estava no roteiro do clichê de família. Sofia não suportava mais a vida, as
pessoas e o sentimento de sempre: Frustração.
Sentou-se apanhando o garfo e apanhando um enorme
pedaço do frango comprado na padaria, abocanhou e com a boca cheia disse:
_Tenho depressão profunda, sabiam? Estou tomando
cinco medicações ao mesmo tempo e nenhuma resolve o meu problema. Nenhum!
Então, o que farão?
_O que deu nela?- indagou o pai ao marido.
_Ela parece estar endemoniada!- soltou a mãe.
_Desculpem meus sogros,Sofia não está não bom dia
e...
_PAREM DE FALAR DE MIM COMO SE EU NÃO ESTIVESSE
AQUI!
Houve um silêncio estarrecedor.
A moça abandonou a mesa, apanhou a bolsa e saiu sem direção.
Era um dia chuvoso, pior somente a tempestade que carregava na alma. Atravessou
carros e carros. Uns frearam em cima dela, outros a xingaram,entretanto pouco
importava,queria algo que nunca mais soube o gosto.Sofia queria a sensação do vento no rosto,do querer, do sorrir,do se
permitir,algo que só desfrutou enquanto esteve com Guto. A liberdade.
E de novo vem o destino com as suas. Milton saiu no
carro atrás dela, sendo sua responsabilidade ou cofrinho, ainda sim era seu
encargo. Foi na descida de uma transversal que um motorista de um caminhão
acreditou que podia romper o sinal prestes a fechar que a vida dele foi
ceifada.
E o peso da culpa inundou a alma já afogada de
Sofia.
_Matei meu marido sabia?- confessou remexendo os pés
naquela terra árida.
_Do que está falando Sofia?- Guto não compreendeu a
declaração da jovem. - Até onde sei Milton morreu num acidente de trânsito e...
_Causado por mim!- gritou com os olhos cheios de
lágrimas. - Eu o matei. O condenei, e por mais que tenha sido um parasita não
merecia isso de mim.- ajoelhando lentamente e entrando num surto de misto e
desespero.Guto abaixou passando a mão em seus cabelos sem saber o que proferir
para lhe abrandar a dor tão notória e desumana.
_Sofia... Olha... Ainda está nervosa com tudo isso
e...
Num ímpeto se ergueu pondo o dedo no rosto do rapaz
ainda no chão:
_E a culpa é sua! A culpa sempre foi sua!
_Minha? Um acidente de carro?
_Sofro de depressão profunda desde faca que me
cravou na alma. Jamais deixei de pensar um dia se quer no motivo que o fez
fazer tamanha sacanagem dessas comigo! Arruinou a minha vida e foi viver a sua,
senhor Doutor em Física Quântica!Você não presta! Não vale o que come!
_Sofia... - Guto por minuto deixou que ela
despejasse o vômito da mágoa nele, compreendia merecer.
_ Foi frio, cruel, egoísta! Meu Deus como eu pude
devotar a minha toda a alguém assim!Todos os meus sonhos foram com você Guto.
Todos!- partindo para cima dele com raiva e o esmurrando apesar de sua pouca
estatura em relação à dele.
Guto
deixou que disseminasse sobre ele toda sua cólera, enquanto ia rememorando
partes da música que tão bem os detalhou naqueles anos de afastamento na
inconfundível voz de Elza Soares.
ESPUMAS
AO VENTO
"Sei
que aí dentro ainda
Mora
um pedacinho de mim
Um
grande amor não se acaba assim
Feito
espumas ao vento
Não
é coisa de momento
Raiva
passageira
Mania
que dá e passa feito brincadeira
O
amor deixa marcas que não dá pra apagar
Sei
que errei e estou aqui pra te pedir perdão
Cabeça
doida, coração na mão,
Desejo
pegando fogo
Sem
saber direito a hora e o que fazer
Eu
não encontro uma palavra só pra te dizer..."
Com o tempo a moça cansou, agora só segredava:
_Por quê? Por quê? Por quê?- e foi a primeira vez depois daquele fatídico rompimento que permitiu que os braços dele afagassem seu corpo outra vez. Na medida em que as mãos dele iam descendo por suas costas era como se um ar quente de pleno aconchego viesse a dominando e acalmando os nervos tão a flor da pele. Por outro lado, Guto sentia os cabelos delas outra vez entre seus dedos, seria uma miragem em meio ao deserto? Estaria tudo aquilo realmente acontecendo?
O tempo parou. O tempo sempre para, pois é o maior
dos admiradores do amor. A mão direita dele deslizou do meio das costas pelo
ombro até chegar a seu queixo e ali relembrar um antigo carinho, esfrega-lo
delicadamente antes de beija-la. Sofia se perdia nos seus olhos, porém ao
sentir que seus lábios outra vez tocariam, o empurrou com força veemente e rebateu
de pronto:
_Jamais!
E Guto viu outra vez seu mundo ruir. Cabisbaixo
apanhou as bolsas e se pôs a caminhar rumo a tal Taberna do Vale que Sinval os
recomendara.Uma hora e meia de silêncio depois chegaram num vilarejo esquecido
pelo próprio Deus.Haviam duas casas. Uma era grande e suntuosa, uma pousada de
fato a outra uma pequena tapera, feita de barro brocado, não seria um exagero
menciona-la como miserável.
Direcionaram para maior quando a voz de jovem que
jazia numa sombra aproximou-se deles.
_Sofia e Guto?
Os dois se entreolharam, porém calados entre si.
Guto o respondeu com a voz seca pela sede e cansaço:
_Sim. Somos nós.
E maior foi à surpresa quando o mesmo saiu da
escuridão e um sua aparência os sobressaltaram. Ele arrastava-se pelo chão,
parecia uma deficiência que o impedira de erguer-se, muito magro, contudo muito
ligeiro e extremamente simpático:
_Que bom tê-los aqui!Sou Jordan.- erguendo com
dificuldade a mão para sauda-los. - É uma honra poder revê-los.
A palavra rever arqueou a sobrancelha esquerda da
moça e fez o jovem coçar a barba já por fazer.
_Podem me acompanhar.Sinval me instruiu os levarei
até minha Taberna.A Taberna do Vale.Serão meus convidados desta vez, adoro
isso, a vida dá tantas voltas!
Guto rompeu o silêncio:
_Nos conhecemos de onde Jordan?
O menino esmirado parou e num enigmático sorriso
replicou:
_Não lembra Guto? Justamente você? - voltando a
caminhar.
Sofia puxou o rapaz pela camisa.
_So que ele está falando? De onde se conhecem?
_Não faço a menor ideia Sofia. Nunca vi o carinha
antes.
_Você nunca foi um bom fisionomista. - rebateu em
repreensão e tomou a frente da conversa em passos rápidos rente ao jovem.
_Com licença Jordan, mas fiquei meio confusa quando
citou nos rever e agora em relação ao Guto.
_È comum que esqueça de mim Sofia.Eu compreendo,
ainda mais da maneira que fiquei.- evidenciando a forma de seu corpo.- No
entanto,graças aos dois eu ainda vivo e no final verão que isso foi o mais
importante,vamos?.- e prosseguiu os passos.
Sofia e Guto criam que a hospedaria seria a grande e
bela casa,mas para sua surpresa,mais uma do dos últimos dias não foi.Jordan
direcionou-se para o tal casebre caindo em pedaços.
Guto revoltou-se:
_O amigo, pelos céus, não me diga que vamos passar a
noite nessa choça desmoronando?
_Guto!- beliscou Sofia seu braço devido menção
ríspida.
_Acredite meu amigo, será muito mais confortável do que
na Casa dos Segredos.
Lá dentro tudo era rústico e simples. Complexo mesmo,
somente o nó que jazia nas mentes de Sofia e Guto.
Quem era Jordan?
De onde os conhecia?
Que segredo era
este?
Continua...








.jpg)
