Quem sou eu?

Danka Maia é Escritora, Professora, mora no Rio de Janeiro e tem mais de vinte e cinco obras. Adora ler, e entende a escrita como a forma que o Destino lhe deu para se expressar. Ama sua família, amigos e animais. “Quando quero fugir escrevo, quando quero ser encontrada oro”.

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QUATRO DIAS por Danka Maia (Continuação)









QUATRO DIAS

SEGUNDA PARTE......




Intrigada Sofia o indagou:

_E por que precisava de tal oportunidade? Já se passaram tantos anos.-sussurrou crendo que ele não ouvira.

_Sempre achei que essa conversa por mais dolorosa que fosse tinha que existir.Temos assuntos inacabados Sofia, sabe disto.- Fitando de lado enquanto limpava o suor de seu rosto de traços marcantes e bem feito.

A moça sabia que Guto tinha razão. Mas às vezes o que nos adianta a razão frente à decepção? Nada. Quando a circunstância nos puxa o tapete jogando-nos num abismo de emoções e lágrimas pouca coisa resta, uma delas, palavras.Simplesmente parecem perder toda seiva que muitas vezes nos coloca de pé. O que Sofia queria esconder do rapaz fora a depressão cavalar e crudelíssima que enfrentara calada e que somente Milton notou porque teve que conviver com ela.

_Sofia de novo com esse quarto fechado?- Milton era baixo,branco, cabelos negros,olhar pequeno e  um pouco paciente.Compreendia que aquele casamento fora um acerto bem feito para si e a filha do pastor.Porém se irritava constantemente nos primeiros anos com a convalescência emocional dela e as idas ocultas ao psiquiatra.

_Desculpe.- Respondeu num tão quase inaudível.

_Poxa tem que levantar dessa cama e ir viver! A casa está uma desordem, comida para fazer, roupa para lavar. Daqui teus pais estão ai para o glorioso almoço de domingo e se ver essa bagunça toda vou me explicar como para eles? Anda, levanta logo! Anda, anda!

A moça se erguia num esforço descomunal da cama. Punha primeiro os pés para fora enquanto a  outra parte de si implorava que fenecesse naquele exato segundo e assim terminaria todo aquele calvário.Milton ia abrindo as cortinas com grosseria e mais resmungos,afinal aquele era seu único trabalho, fazer de conta que tudo estava bem.

Sofia naquele dia em particular havia decidido, sem nada avisar, sem combinação nenhuma com o marido porque evidentemente este a calaria até mesmo usando a força como ocorrera algumas vezes,que naquele almço haveria um grande desvendamento.Queria se revelar, pronunciar  toda dura verdade tão bem abrigada,rasgar o peito, expor a alma, abandonar as vestes daquela postura reprimida, abrir as pernas dos pensamentos e conceber frente a todos a si mesmo,mostrar quem ela era e como se sentia para aqueles que se intitulavam sua família.Cansara de ser uma gente cotidiana, de maquiagens mal feitas e retoques ainda piores.Carecia que aquele tipo de fidelidade resignada fosse enfim extirpado de sua vida para todo o sempre.Seu pai era um homem comum, cumpridor metódico de seus deveres religiosos e por ele considerados preciosos.Entendia pouco de prazeres,e ao findar de tantos anos não conseguia mais  dissipar o que eram seus poucos desejos, se tinha sonhos ou se tudo se aglomerava na tediosa linhagem que construíra ao longo de tantos anos de dedicação.

A mãe era mais uma dona de casa comum, vendia cosméticos e roupas para membresia da igreja. Uma mulher submissa, uma mãe distante, um ser que nunca saberemos se realmente existiu.

Esse era o mundo de Sofia.

Ela se arrumou como nunca. Vestiu-se como mandava o figurino, roupa contida, sapatos baixos, pouca maquiagem, cabelos presos e um sorriso falso saudando seus genitores:

_Cada vez mais jovem mãe! Pai, mais forte, não?

Nenhum dos três compreendeu o que havia acontecido com a filha e esposa recatada, aquele tom irônico não era lhe era peculiar, na verdade, não estava no roteiro do clichê de família. Sofia não suportava mais a vida, as pessoas e o sentimento de sempre: Frustração.

Sentou-se apanhando o garfo e apanhando um enorme pedaço do frango comprado na padaria, abocanhou e com a boca cheia disse:

_Tenho depressão profunda, sabiam? Estou tomando cinco medicações ao mesmo tempo e nenhuma resolve o meu problema. Nenhum! Então, o que farão?

_O que deu nela?- indagou o pai ao marido.

_Ela parece estar endemoniada!- soltou a mãe.

_Desculpem meus sogros,Sofia não está não bom dia e...

_PAREM DE FALAR DE MIM COMO SE EU NÃO ESTIVESSE AQUI!

Houve um silêncio estarrecedor.

A moça abandonou a mesa, apanhou a bolsa e saiu sem direção. Era um dia chuvoso, pior somente a tempestade que carregava na alma. Atravessou carros e carros. Uns frearam em cima dela, outros a xingaram,entretanto pouco importava,queria algo que nunca mais soube o gosto.Sofia queria a sensação  do vento no rosto,do querer, do sorrir,do se permitir,algo que só desfrutou enquanto esteve com Guto. A liberdade.

E de novo vem o destino com as suas. Milton saiu no carro atrás dela, sendo sua responsabilidade ou cofrinho, ainda sim era seu encargo. Foi na descida de uma transversal que um motorista de um caminhão acreditou que podia romper o sinal prestes a fechar que a vida dele foi ceifada.

E o peso da culpa inundou a alma já afogada de Sofia.

_Matei meu marido sabia?- confessou remexendo os pés naquela terra árida.

_Do que está falando Sofia?- Guto não compreendeu a declaração da jovem. - Até onde sei Milton morreu num acidente de trânsito e...

_Causado por mim!- gritou com os olhos cheios de lágrimas. - Eu o matei. O condenei, e por mais que tenha sido um parasita não merecia isso de mim.- ajoelhando lentamente e entrando num surto de misto e desespero.Guto abaixou passando a mão em seus cabelos sem saber o que proferir para lhe abrandar a dor tão notória e desumana.

_Sofia... Olha... Ainda está nervosa com tudo isso e...

Num ímpeto se ergueu pondo o dedo no rosto do rapaz ainda no chão:

_E a culpa é sua! A culpa sempre foi sua!

_Minha? Um acidente de carro?

_Sofro de depressão profunda desde faca que me cravou na alma. Jamais deixei de pensar um dia se quer no motivo que o fez fazer tamanha sacanagem dessas comigo! Arruinou a minha vida e foi viver a sua, senhor Doutor em Física Quântica!Você não presta! Não vale o que come!

_Sofia... - Guto por minuto deixou que ela despejasse o vômito da mágoa nele, compreendia merecer.

_ Foi frio, cruel, egoísta! Meu Deus como eu pude devotar a minha toda a alguém assim!Todos os meus sonhos foram com você Guto. Todos!- partindo para cima dele com raiva e o esmurrando apesar de sua pouca estatura em relação à dele.

Guto deixou que disseminasse sobre ele toda sua cólera, enquanto ia rememorando partes da música que tão bem os detalhou naqueles anos de afastamento na inconfundível voz de Elza Soares.

 

ESPUMAS AO VENTO
 

 

"Sei que aí dentro ainda

Mora um pedacinho de mim

Um grande amor não se acaba assim

Feito espumas ao vento

Não é coisa de momento

Raiva passageira

Mania que dá e passa feito brincadeira

O amor deixa marcas que não dá pra apagar

Sei que errei e estou aqui pra te pedir perdão

Cabeça doida, coração na mão,

Desejo pegando fogo

Sem saber direito a hora e o que fazer

Eu não encontro uma palavra só pra te dizer..."

 

Com o tempo a moça cansou, agora só segredava:

_Por quê? Por quê? Por quê?- e foi a primeira vez depois daquele fatídico rompimento que permitiu que os braços dele afagassem seu corpo outra vez. Na medida em que as mãos dele iam descendo por suas costas era como se um ar quente de pleno aconchego viesse a dominando e acalmando os nervos tão a flor da pele. Por outro lado, Guto sentia os cabelos delas outra vez entre seus dedos, seria uma miragem em meio ao deserto? Estaria tudo aquilo realmente acontecendo?

O tempo parou. O tempo sempre para, pois é o maior dos admiradores do amor. A mão direita dele deslizou do meio das costas pelo ombro até chegar a seu queixo e ali relembrar um antigo carinho, esfrega-lo delicadamente antes de beija-la. Sofia se perdia nos seus olhos, porém ao sentir que seus lábios outra vez tocariam, o empurrou com força veemente e rebateu de pronto:

_Jamais!

E Guto viu outra vez seu mundo ruir. Cabisbaixo apanhou as bolsas e se pôs a caminhar rumo a tal Taberna do Vale que Sinval os recomendara.Uma hora e meia de silêncio depois chegaram num vilarejo esquecido pelo próprio Deus.Haviam duas casas. Uma era grande e suntuosa, uma pousada de fato a outra uma pequena tapera, feita de barro brocado, não seria um exagero menciona-la como miserável.

Direcionaram para maior quando a voz de jovem que jazia numa sombra  aproximou-se deles.

_Sofia e Guto?

Os dois se entreolharam, porém calados entre si. Guto o respondeu com a voz seca pela sede e cansaço:

_Sim. Somos nós.

E maior foi à surpresa quando o mesmo saiu da escuridão e um sua aparência os sobressaltaram. Ele arrastava-se pelo chão, parecia uma deficiência que o impedira de erguer-se, muito magro, contudo muito ligeiro e extremamente simpático:

_Que bom tê-los aqui!Sou Jordan.- erguendo com dificuldade a mão para sauda-los. - É uma honra poder revê-los.

A palavra rever arqueou a sobrancelha esquerda da moça e fez o jovem coçar a barba já por fazer.

_Podem me acompanhar.Sinval me instruiu os levarei até minha Taberna.A Taberna do Vale.Serão meus convidados desta vez, adoro isso, a vida dá tantas voltas!

Guto rompeu o silêncio:

_Nos conhecemos de onde Jordan?

O menino esmirado parou e num enigmático sorriso replicou:

_Não lembra Guto? Justamente você? - voltando a caminhar.

Sofia puxou o rapaz pela camisa.

_So que ele está falando? De onde se conhecem?

_Não faço a menor ideia Sofia. Nunca vi o carinha antes.

_Você nunca foi um bom fisionomista. - rebateu em repreensão e tomou a frente da conversa em passos rápidos rente ao jovem.

_Com licença Jordan, mas fiquei meio confusa quando citou nos rever e agora em relação ao Guto.

_È comum que esqueça de mim Sofia.Eu compreendo, ainda mais da maneira que fiquei.- evidenciando a forma de seu corpo.- No entanto,graças aos dois eu ainda vivo e no final verão que isso foi o mais importante,vamos?.- e prosseguiu os passos.

Sofia e Guto criam que a hospedaria seria a grande e bela casa,mas para sua surpresa,mais uma do dos últimos dias não foi.Jordan direcionou-se para o tal casebre caindo em pedaços.

Guto revoltou-se:

_O amigo, pelos céus, não me diga que vamos passar a noite nessa choça desmoronando?

_Guto!- beliscou Sofia seu braço devido menção ríspida.

_Acredite meu amigo, será muito mais confortável do que na Casa dos Segredos.

Lá dentro tudo era rústico e simples. Complexo mesmo, somente o nó que jazia nas mentes de Sofia e Guto.

Quem era Jordan?

 De onde os conhecia?

 Que segredo era este?

Continua...






































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