Quem sou eu?

Danka Maia é Escritora, Professora, mora no Rio de Janeiro e tem mais de vinte e cinco obras. Adora ler, e entende a escrita como a forma que o Destino lhe deu para se expressar. Ama sua família, amigos e animais. “Quando quero fugir escrevo, quando quero ser encontrada oro”.

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História da Vida

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Oi Galera Machine! Olá minhas Ciganas! Tudo bem por aqui?
 A história de hoje é curiosa porque é muito mais comum ler, ouvir ou saber sobre mulheres com seus corações partidos, mas hoje conheceremos a história de um homem e seu coração partido por um amor não correspondido. Vamos lá?

Entrei de cabeça num amor não correspondido


Tenho amigos que trocam de namoradas como quem vai ao supermercado. Eu não consigo. Nunca consegui. O namoro mais longo que tive durou pouco menos de três anos, de 2003 a 2006. A partir daí, estou sozinho, tirando um casinho ou outro, que raramente sobrevivem ao segundo mês. Para alguém que tem 33 anos, como eu, é muito tempo sem ninguém. Só topei namorar com a Verônica*, uma mulher linda, chique, bem relacionada no mundo da moda e muito inteligente, porque desde o primeiro dia que a vi passei a admirá-la e amá-la profundamente. Não namoro quem não admiro. Foi um relacionamento pontuado por quebra-paus, vaivéns e um término cheio de acusações e descobertas. Descobri boa parte desse amor que eu sentia — e que nem sempre consegui demonstrar — depois que já não estávamos mais juntos, no divã do meu psicanalista. Ela foi o meu amor maior, que, por várias razões (quiçá o fato dela ser cinco anos mais velha, a minha imaturidade, objetivos distintos... enfim), acabou morrendo.
As semanas seguintes ao fim foram de um sofrimento infinito. Pensei em me matar, dormia e acordava à base de remédios e precisei muito da ajuda dos amigos para sair daquele buraco em que eu havia me metido. Pedi demissão do meu emprego, vendi o carro, tranquei o apartamento e fui viajar para tentar esquecer, ou pelo menos tentar cicatrizar um pouco a ferida profunda e purulenta que não parava de doer. Fiquei seis meses fora. Voltei quase recuperado. Não tenho dúvidas de que a Verônica foi um grande amor. O maior de todos até o dia em que conheci a Helena.
Nós nos vimos pela primeira vez no restaurante dela; eu cliente, ela chef. Fui jantar com uma amiga para comemorarmos a compra do seu apartamento, de modo que pedimos o melhor vinho e devoramos os melhores pratos num apetite falstaffiano. Mas eu não dei muita bola para a Helena. Quem me chamou a atenção foi a garçonete: loira, olhos grandes, boca bem desenhada e um jeito de mulher relaxada e resolvida com a vida. Helena pareceu uma mulher meio estranha, calada, que raramente sorria para os comensais que passavam em frente à sua cozinha. Parecia estar sempre mais entretida com o salpicar dos temperos, o corte perfeito da carne e a temperatura certa da grelha do que com o entra e sai da clientela. Além disso, a Helena não era dona de uma beleza padrão. Uma pele muito branca, cabelos negros longos e rebeldes, dois palmos abaixo do ombro, boca projetada para frente, uma pinta vizinha do lábio inferior e o nariz levemente adunco. Definitivamente Helena não era meu tipo de mulher. A garçonete era.
Eu deveria saber que minha história com a Helena não terminaria bem. Nesse primeiro encontro, senti algo estranho. Ela passava na minha frente com tanto desinteresse, não só por mim, mas por todo universo ao seu redor, que logo no primeiro instante estabeleceu-se uma hierarquia entre nós na minha cabeça. Embora no início eu não tivesse nenhuma atração sexual por ela, era como se eu estivesse fadado a notar mais a presença dela do que ela a minha. Como se eu sempre fosse querê-la mais do que ela a mim. Mas naquele momento não dei importância para esses pensamentos, afinal, estava interessado na funcionária dela.
Durante seis meses frequentei as mesas do restaurante em visitas quase semanais — sempre para reencontrar a garçonete, que, mais por educação do que interesse em mim (algo que eu só descobriria mais tarde), me tratava com muita atenção. Até que soube que a garçonete era casada e, como se eu procurasse um prêmio de consolação, passei a olhar para Helena de um jeito diferente. Tudo o que me incomodava nela, da sua misantropia à pele excessivamente alva, também me atraía. E assim, quase sem perceber, como um botão de liga e desliga no meu cérebro, comecei a gostar dela. Como ela jamais esboçara nenhum interesse por mim, parti para a tática do e-mail e do Facebook. Ficamos amigos na internet, até que um dia ela me convidou para a festa de um ano do seu restaurante. Poucas pessoas, vinho e cerveja à vontade. Pela primeira vez, a vi fora de seu traje de trabalho. Avental e lenço na cabeça deram lugar a um vestido preto e uma maquiagem forte no rosto. Também foi a primeira vez que a vi sorrindo. E que sorriso! Eu já estava apaixonado e não sabia. E sequer tínhamos trocado nosso primeiro beijo.
Foi uma semana depois, quando ela me chamou para tomar uma taça de vinho na sua casa, que ficamos pela primeira vez. E foi a melhor noite da minha vida. Fomos para cama bêbados e cheios de vontade. Transamos, dormimos e acordamos com Billie Holiday tocando no seu computador. Era uma linda manhã de domingo de inverno. Ela ficou deitada enquanto eu fui ao mercado comprar leite, suco, revistas e mais camisinhas. Passamos o domingo inteiro transando. Transando e tomando café preto. Havia menos de 24 horas que tínhamos ficado pela primeira vez e eu não queria mais sair de perto da Helena. O mundo podia acabar para mim. E, desde que eu estivesse ao lado dela, morreria feliz. Era noite quando voltei para casa, e já contando as horas para vê-la novamente.
Viajei a trabalho na semana seguinte, mas quem disse que eu conseguia parar de pensar nela? Não queria fazer nada, sequer sair do hotel. Meu único desejo era voltar logo para São Paulo e tê-la de novo em meus braços. Eu mandava mensagens pelo celular, ligava, mas ela não respondia. Ou melhor, ela respondia ou atendia quando achava conveniente. Aquilo começou a me deixar angustiado. Acordava de madrugada para checar os e-mails ou ver se não tinha uma mensagem dela no Facebook. Ligava e desligava o telefone na esperança de surgir alguma mensagem que, por culpa da operadora de celular, tinha chegado atrasada. Mas nada. Passou uma semana até o nosso segundo encontro, dessa vez na minha casa. Comprei boas taças de vinho, duas garrafas de tinto e preparei uma comida simples. Mais do que o beijo e o sexo incríveis, eu gostava de ficar olhando, conversando com ela, sempre tão cheia de histórias interessantes. Seu cheiro, suas roupas, seus dedos longos e um único anel, as unhas desprovidas de qualquer coloração artificial, o cabelo solto. Eu gostava de tudo nela. Tudo.
Mas foi logo nesse segundo dia, depois do jantar, que ela veio com um balde de água fria. Estávamos deitados no sofá, seminus, e entre um beijo e outro ela me disse: “Olha, eu não quero namorar, não quero nada sério, O.K.?”. Se fosse em qualquer outra circunstância, eu nem ligaria para isso. Pelo contrário, ficaria aliviado em saber que a pessoa não iria ficar no meu pé, ligando todos os dias, perguntando onde eu ia ou o que estava fazendo. Mas a Helena, eu queria inteira para mim. Queria ter um filho com ela, envelhecer ao seu lado, conhecer sua família. É claro que, quando ela me falou que não queria nada sério, eu não esbocei nenhuma reação. Disse apenas: “O.K., eu também!”. Mas eu estava blefando, fingindo não estar nem aí. Engoli a seco e levei adiante.
Obviamente não consegui manter essa indiferença por muito tempo. Certo dia, algumas semanas depois, durante uma transa, eu falei que estava completamente apaixonado por ela. E repeti várias e várias vezes, desejando que saísse de sua boca uma afirmação semelhante: “Sim, eu também! Eu confesso, te amo! Te amo! Te amo!”. Naturalmente, só ouvi o silêncio. Toda vez que eu evidenciava a minha paixão, ela colocava o dedo indicador nos meus lábios como se pedisse para eu me calar. Em uma ocasião, me apontou para um pedaço da parede perto da sua janela em que estava escrito à caneta esferográfica azul a frase “Es tan corto el amor, y tan largo el olvido” (é tão curto o amor, tão longo o esquecimento), do Pablo Neruda. Eu estava avisado. A partir dali, qualquer envolvimento era por minha conta e risco.
Por outro lado, apesar de nem sempre atender ao telefone e insistir na ideia de que não queria nada sério, sua atitude era de uma pessoa que estava se envolvendo. Quando eu comentava a situação com as minhas amigas, elas me diziam que era uma questão de tempo. Afinal, mulher alguma deixa o homem passar o final de semana inteiro na sua casa, lhe prepara café da manhã, vai passar um final de semana junto na praia ou divide o jornal na cama se não estiver minimamente envolvida. Era engraçado porque um dia ela fazia planos comigo, comentava a possibilidade de viajarmos juntos nas férias, me convidava para jantar com a sua família, e no outro desaparecia, ficava inacessível por dias, fazia pouco caso da minha saudade. Lembro-me de várias vezes dizer para ela que estava com saudade depois de uma semana sem vê-la, e ela retrucava: “Sete dias é muito pouco tempo pra sentir saudade de alguém”. O que deveria funcionar como um repelente para mim era, na verdade, um desafio, me deixava curioso para saber o que de tão intrigante tinha aquela mulher. Gosto de desafios.
Mas a verdade é que ela não estava envolvida. Você já viu aquele filme 500 dias com ela, com a Zooey Deschanel e o Gordon-Levitt? Pois é. Eu fui o Gordon-Levitt; ela, a Zooey. Inclusive, o jeito de Helena se vestir, vestidinhos vintage em cores pastel, meia arrastão, sapatos de boneca e pouca maquiagem, em muito lembra o figurino de Zooey no filme e também na vida real. Helena era a minha Summer, que é como se chama a personagem da atriz no filme. Uma suave ida ao céu e a vertiginosa descida ao inferno é o que foi minha relação com Helena em pouco mais de 100 dias de convivência. Foram três meses de uma montanha-russa de sentimentos. Até que, numa noite de segunda-feira, tivemos a conversa final. Cada um para o seu lado. A extrema-unção veio quando, entre gritos e acusações, ela bradou: “Eu nunca vou namorar ou me apaixonar por você. Nunca! Nunca!”. Chorei dias a fio, emagreci seis quilos, fumei maços de cigarro, fiquei desmotivado com a vida e o trabalho. Felizmente não precisei pedir demissão e viajar para curar a ferida.
Agora, com a chegada do inverno, resgatei um dos meus casacos e encontrei um bilhete escrito em uma folha de caderno quadriculada. A letra era da Helena. Meu estômago queimou. Parecia que o tempo não tinha passado. Fiquei nervoso, trêmulo, meio perdido. Era o poema “O desconcerto do mundo”, de Camões, um de seus autores prediletos (ao lado de Neruda e MFK Fischer). Diz ele:
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.
No dia do seu aniversário, mandei uma mensagem pelo celular (ainda sei de cor o número). Ela me chamou para um café. Pensei, pensei, e não aceitei (sequer respondi), ainda com suas palavras estalando na minha cabeça: “Nunca! Nunca!”.
Fonte: Marie Claire
Se você quiser compartilhar sua história de vida conosco escreva para o e-mail: dankamaia@yahoo.com.br, não precisa se identificar seu anonimato será garantido.

Conheça minhas histórias: Permita-se!




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Histórias da Vida:Vivi um amor de circo na Europa

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Oi Galera Machine! Olá minhas Ciganas! Tudo bem?
A história de hoje mexe com a fantasia da maioria das pessoas enquanto crianças e nos remete a uma atmosfera muito lúdica e até mesmo com toques de perfeição e aventura. Mas será que é mesmo assim? Confira agora!

Vivi um amor de circo na Europa


Em 2003, fui para a França estudar hotelaria. Uma prima que morava lá me incentivou a viajar. Eu também já tinha passado um tempo na Inglaterra, e o inglês que eu aprendi me serviu para trabalhar como recepcionista bilíngue. A minha ideia era fazer um curso superior lá fora, aprender uma nova língua, abastecer o meu currículo para conseguir um bom emprego na volta.
Comprei as minhas passagens e embarquei rumo à França. Minha prima trabalhava à noite em uma churrascaria brasileira como garçonete e me chamou para ajudar no bar. Ficava na cidade de Alsace, no nordeste da França, fronteira com a Suíça e a Alemanha. Uma região lindíssima.
Meus primeiros dias por lá foram bem difíceis. Como não sabia falar a língua, me sentia sozinha. Uma noite, um grupo de artistas de circo brasileiros foi jantar lá. Entre eles, estava o Cauan*, um moreno bonito, alto, forte, de olhos castanhos. Apesar dos atributos, não chamou minha atenção. Naquela primeira noite trocamos alguns olhares, mas eu não estava muito interessada. Estava me adaptando ao novo país, com outras preocupações em mente. Mais tarde, descobri que o Cauan — que vinha de uma família de circenses — era um dos motoqueiros do globo da morte do circo. Fazia espetáculos por todo o mundo.
Ele se mostrou interessado por mim desde o início. Estava determinado e foi bastante insistente. Fez várias viagens do cabaré onde se apresentava, o Royal Palace (uma casa de shows no estilo do Moulin Rouge, que fica perto de Estrasburgo, também no nordeste da França), até o restaurante, em Alsace, para me ver. O trajeto levava duas horas. Até que, uma noite, decidi sair com ele, minha prima e o namorado dela. Nevava muito. Fomos dar uma volta no centro da cidade, a pé mesmo. No fim do dia, fomos nós quatro para a casa da minha prima assistir a um filme. Eu estava comendo chocolate e ele pediu um pedaço. Quando ofereci, ele disse que preferia pegar da minha boca. O beijo foi maravilhoso. Rolou uma química imediata. Depois disso, a gente não se desgrudou mais.
A partir daquele dia, vivi uma paixão louca. O que significa sérios problemas. Sentia um ciúme doentio, possessividade e queria controlar absolutamente tudo o que ele fazia. Algumas semanas depois de começarmos a namorar, briguei com ele num dos meus surtos de carência. Arrumei a minha mala e me mandei para Freiburg, na Alemanha, por pura birra. Queria uma prova de que ele realmente gostava de mim — e fosse atrás.
Sempre acreditei em contos de fada. Achava que amor e uma cabana bastavam. E tudo isso parecia ter-se realizado quando o Cauan viajou até a Alemanha e me pediu em casamento. Dois dias depois, mudei para o Royal Palace, onde uma parte dos artistas se hospedava em quartos no cabaré e outra parte em um trailer. O grupo do Cauan ficava no trailer. Quem vê de fora não imagina o que é aquela vida de circo. Eu não tinha noção do que me esperava. Era moleca, não medi as consequências.
Chegando lá, me deparei com um trailer minúsculo, onde ele morava com mais dois caras. Na parte de trás, tinha uma cama e um banheirinho. Na parte da frente, encaixamos uma cama de solteiro onde dormíamos juntos. Moramos assim por uns dias, até conseguirmos nos mudar para um caminhão que tinha divisórias internas. Era um “quarto” só nosso. Eu teria ficado feliz se as condições não fossem tão péssimas. Ainda mais para quem sempre teve casa, conforto, o próprio banheiro e é neurótica com limpeza, como é o meu caso. A comida geralmente era preparada por mim. Parecia que eu estava brincando de casinha. Ia ao mercado, procurava pelos preços mais baratos, voltava para aquele contêiner que era a minha casa e preparava um arroz, uma macarronada, uns enlatados.
Minha rotina se resumia a cozinhar e me locomover em um espaço de 3m². Não me sentia à vontade no meio dos circenses, nem assistindo aos espetáculos, muito menos nos bastidores. Os artistas vinham de diversas partes do mundo — Austrália, Rússia, Iugoslávia, Estados Unidos. Todos eles tinham em comum a vida cigana. A única preocupação deles com o futuro era o almoço do dia seguinte. Eu também sofria por causa dos bichinhos do circo. Sempre fui protetora dos animais. Era um martírio para mim acompanhar aquela rotina. Cheguei a testemunhar mais de uma vez as surras que o rinoceronte levava para entrar no caminhão na hora de dormir, e a morte de um elefantinho.
Além de tudo isso, eu não conseguia segurar o meu ciúme. Queria controlar todos os passos que o Cauan dava. Ficava louca com as cenas do espetáculo em que as mulheres faziam topless. Hoje me arrependo de não ter aproveitado aquilo tudo com mais humor. Os momentos mais leves aconteciam quando mudávamos de cidade e tínhamos a chance de conhecer cidadezinhas lindas. Era muito legal.
Eu tinha ido atrás do curso no Liceu Hoteleiro de Estrasburgo, um dos mais conceituados do mundo. Mas não ia ser fácil. Para concorrer a uma vaga, eu teria de passar por uma entrevista em francês — e eu sabia pouco ainda. Fazia só três meses que eu estava lá. Treinei com a minha prima algumas perguntas e respostas e fui aprovada. Voltei para o Brasil para buscar o meu visto de estudante e, após uma série de burocracias, consegui obtê-lo.
Levava uma hora de viagem do cabaré até o Liceu. Nas primeiras semanas, eu ia de bicicleta até a estação de trem. Nevava e a estradinha que eu pegava não tinha iluminação. Eu entrava na escola às 7h30 e, quando eu pegava a estradinha, estava sempre muito escuro. Pedi ajuda ao Cauan e ele comprou o carro de um outro artista do circo por mil euros.
Quanto mais passava o tempo, mais eu me sentia deslocada. Eu não tinha nada a ver com aquela vida de circo. Mas já havia embarcado naquela aventura. Era a prova de que amor e uma cabana não valem nada. Precisamos de mais do que isso. O circo é, de fato, uma família. E isso implica coisas boas e ruins, como acontece em toda família. O convívio excessivo rende muitos “barracos”. Mas eles estão acostumados. Eles não têm amigos como nós, só saem para beber de vez em quando. Eles vivem o circo de manhã, de tarde, de noite e de madrugada. No máximo, ouvem música alta em um trailer, que não lhe deixa dormir. Mas existe um grande respeito também, ainda mais com todo mundo dividindo o mesmo espaço diminuto.
O que eu vivi com o Cauan foi intenso, em todos os sentidos. A gente transava muito, o sexo era ótimo. Mas sempre oscilávamos entre paixão e raiva, dia após dia. Quando o contrato de dois anos do Royal Palace acabou, eu não aguentei mais ficar lá. Saí à procura de um apartamento perto da escola, consegui aprovação de crédito e até ajuda do governo, por ser estudante. Era uma quitinete, com quarto, cozinha e banheiro. Mudei para lá e deixei o Cauan com o circo. Eles iniciaram uma temporada itinerante na Alemanha. Ficamos uns três meses sem nos ver, até eu não suportar mais a saudade. Procurei na internet onde o circo estava, imprimi o mapa, peguei o meu carro e fui atrás dele. Fiz surpresa e, quando ele me viu, ficou superfeliz. Eu não queria nem ver a sombra da tenda do circo, por isso nos hospedamos em um hotel e eu fiquei por uns três dias no início da semana, quando não tinha espetáculo. Fui e voltei mais algumas vezes. Cheguei a fazer uma viagem de dez horas de carro velho, o mesmo que tinha custado mil euros.
Depois de quase seis meses nos relacionando a distância, Cauan recebeu uma proposta para ir à Itália. Decidi viajar com ele. Não suportava mais viver longe. Já estávamos no terceiro ano de relacionamento. Eu tinha acabado de me formar no Liceu, aceitado uma oferta de emprego numa rede de hotéis grande por lá, mas larguei tudo. Ele me disse: ‘Vem comigo que eu vou te fazer a mulher mais feliz do mundo’. E fui. Mas eu não iria deixar ele me fazer a mulher mais feliz do mundo. Só eu seria capaz disso. A gente coloca tudo nas costas do outro. A verdade, ainda que clichê, é que nós somos responsáveis pela nossa própria felicidade.
Segui viagem rumo à Itália. Eu sou uma pessoa muito pró-ativa: não conseguia só ficar fazendo comida enquanto ele trabalhava. Então, eu comecei a fazer fotos dos visitantes para que levassem como uma lembrança do circo. A trupe me emprestou uma câmera e eu fotografava crianças, casais e família com coelhos, macacos e outros bichinhos. Cheguei a fazer mais dinheiro do que ele: por noite, tirava uns 100 euros, enquanto ele, uns 70, 80. Fizemos um bom pé-de-meia nessa época. Mas como o carpe diem parecia ser o lema do circo, quando eu via, o Cauan já tinha comprado um videogame de última geração com a nossa economia. Era muito triste.
A aventura de fato aconteceu quando chegamos na Sicília. A menina que ficava no meio do globo da morte pediu as contas, de repente. Já era quase hora do espetáculo e a única pessoa disponível para susbtituí-la era eu. Quase morri de tanto medo. Fechei os olhos. Sentia as três motos passarem muito perto de mim, só pelo ventinho. Fiquei muito nervosa, mas no fundo, eu confiava neles. Afinal, faziam isso desde muito jovens. Foi tudo tranquilo e até gostei da experiência. Demos muita risada depois.
Noutro dia, uma bailarina também faltou. Não pensaram duas vezes em me colocar no lugar dela. Eu nunca tinha feito balé na vida! Busquei a minha roupinha de balada que eu tinha no trailer, superbrilhante, calcei uma bota e lá fui eu. Quatro elefantes entravam no picadeiro e eu tinha de subir em um deles. Quando você sobe no bicho, é como se você estivesse abrindo ‘espacate’, porque o pescoço do elefante é gigante. Ofereceram-me o elefante mais calmo, mas eu não tinha noção do que era andar em cima daquele animal. De repente, o bicho começou a correr. As outras meninas que participavam do número davam tchauzinho de miss sobre o elefante para a plateia enquanto eu me equilibrava e tentava não cair. Agarrei as orelhas do bicho. Quando ele levantou as patinhas, quase caí. Saí com aquele sorriso amarelo, tendo a certeza de que o público estava achando que eu era o palhaço do circo (risos).
Fiz várias apresentações durante uns 30 dias. Até que fiquei grávida. Claro que isso não estava nos planos. Mas cheguei realmente a pensar que um bebê poderia dar um novo rumo à nossa relação. Que poderíamos repensar todo aquele modo de vida e conseguir uma estrutura melhor para receber nosso filho. Imaginava que ele seria um superpai babão, porque observava o carinho que tinha pelas crianças que visitavam o circo. Mas ele se mostrou indiferente. Fiquei frustrada. Perdi o bebê quando estava com um mês e meio de gestação. Sofri muito. Pior foi voltar do hospital, ele me deixar no trailer e correr para o espetáculo. Eu me senti abandonada. Fiquei três dias sem tomar banho porque a água do circo tinha acabado. Tudo perdeu o sentido.
O contrato da turnê pela Itália chegou ao fim. O Cauan não conseguiu renovar o visto para permanecer na França e eu também não fui aprovada para o meu visto de trabalho. Decidi voltar para o Brasil. O Cauan topou vir comigo. Eu me iludi mais uma vez e achei que poderíamos começar do zero aqui. Depois de um mês aqui, ele falou que não aguentava mais. Não tinha nem feito o ensino médio, como conseguiria arrumar emprego?
Pouco tempo depois, ele foi convidado para fazer uma turnê de um mês na Alemanha. Estava decidido a voltar. Eu tinha acabado de ser contratada por um hotel grande no Guarujá. Tinha inclusive alugado um apartamento lindo para a gente na praia. Ele disse que iria para a Europa, mas voltaria dali um mês. Passado esse tempo, ele me ligou e disse que teria de ficar mais dois meses. Continuei esperando. Era 2007, entrávamos no quarto ano de relacionamento.
Quando eu estava preparando as minhas coisas para buscá-lo no aeroporto em São Paulo, ele me ligou dizendo que tinha acabado de assinar outro contrato. Dessa vez, com duração de um ano e meio na Rússia. E queria que eu fosse encontrá-lo. Viver de novo aquela vida maluca de circo? Nunca. Foi a gota d’água. Eu já estava tão mal com todo aquele desgaste que não foi difícil o término definitivo para mim. Ele passou a me ligar pelos seis meses seguintes, inclusive de madrugada. Chorava, dizia que me amava e queria que eu fosse para lá. Eu me mantive firme. Disse para ele seguir o rumo de sua vida.
A última vez que nos falamos foi no Natal de 2009. Conversamos bastante. Ele disse que se arrependeu de ter-me deixado aqui, de não ter tido uma tolerância maior comigo, de não ter-me dado a segurança que eu esperava. Mas não tinha mesmo como isso acontecer: éramos muito novos. Ele achava que poderíamos pelo menos ser amigos, mas respondi que não. Ele relembrou uma frase que o pai dele tinha dito uma vez: ‘Só se ama uma vez na vida’. E completou: ‘Acho que você foi a única pessoa que eu amei. Nunca vou amar ninguém do jeito que te amei’. Concordei, mas fiz um adendo: ele iria, sim, amar outras pessoas, mas de formas diferentes.”

Fonte: Marie Claire

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