Quem sou eu?

Danka Maia é Escritora, Professora, mora no Rio de Janeiro e tem mais de vinte e cinco obras. Adora ler, e entende a escrita como a forma que o Destino lhe deu para se expressar. Ama sua família, amigos e animais. “Quando quero fugir escrevo, quando quero ser encontrada oro”.

História da Vida

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Oi Galera Machine! Olá minhas Ciganas! Tudo bem por aqui?
 A história de hoje é curiosa porque é muito mais comum ler, ouvir ou saber sobre mulheres com seus corações partidos, mas hoje conheceremos a história de um homem e seu coração partido por um amor não correspondido. Vamos lá?

Entrei de cabeça num amor não correspondido


Tenho amigos que trocam de namoradas como quem vai ao supermercado. Eu não consigo. Nunca consegui. O namoro mais longo que tive durou pouco menos de três anos, de 2003 a 2006. A partir daí, estou sozinho, tirando um casinho ou outro, que raramente sobrevivem ao segundo mês. Para alguém que tem 33 anos, como eu, é muito tempo sem ninguém. Só topei namorar com a Verônica*, uma mulher linda, chique, bem relacionada no mundo da moda e muito inteligente, porque desde o primeiro dia que a vi passei a admirá-la e amá-la profundamente. Não namoro quem não admiro. Foi um relacionamento pontuado por quebra-paus, vaivéns e um término cheio de acusações e descobertas. Descobri boa parte desse amor que eu sentia — e que nem sempre consegui demonstrar — depois que já não estávamos mais juntos, no divã do meu psicanalista. Ela foi o meu amor maior, que, por várias razões (quiçá o fato dela ser cinco anos mais velha, a minha imaturidade, objetivos distintos... enfim), acabou morrendo.
As semanas seguintes ao fim foram de um sofrimento infinito. Pensei em me matar, dormia e acordava à base de remédios e precisei muito da ajuda dos amigos para sair daquele buraco em que eu havia me metido. Pedi demissão do meu emprego, vendi o carro, tranquei o apartamento e fui viajar para tentar esquecer, ou pelo menos tentar cicatrizar um pouco a ferida profunda e purulenta que não parava de doer. Fiquei seis meses fora. Voltei quase recuperado. Não tenho dúvidas de que a Verônica foi um grande amor. O maior de todos até o dia em que conheci a Helena.
Nós nos vimos pela primeira vez no restaurante dela; eu cliente, ela chef. Fui jantar com uma amiga para comemorarmos a compra do seu apartamento, de modo que pedimos o melhor vinho e devoramos os melhores pratos num apetite falstaffiano. Mas eu não dei muita bola para a Helena. Quem me chamou a atenção foi a garçonete: loira, olhos grandes, boca bem desenhada e um jeito de mulher relaxada e resolvida com a vida. Helena pareceu uma mulher meio estranha, calada, que raramente sorria para os comensais que passavam em frente à sua cozinha. Parecia estar sempre mais entretida com o salpicar dos temperos, o corte perfeito da carne e a temperatura certa da grelha do que com o entra e sai da clientela. Além disso, a Helena não era dona de uma beleza padrão. Uma pele muito branca, cabelos negros longos e rebeldes, dois palmos abaixo do ombro, boca projetada para frente, uma pinta vizinha do lábio inferior e o nariz levemente adunco. Definitivamente Helena não era meu tipo de mulher. A garçonete era.
Eu deveria saber que minha história com a Helena não terminaria bem. Nesse primeiro encontro, senti algo estranho. Ela passava na minha frente com tanto desinteresse, não só por mim, mas por todo universo ao seu redor, que logo no primeiro instante estabeleceu-se uma hierarquia entre nós na minha cabeça. Embora no início eu não tivesse nenhuma atração sexual por ela, era como se eu estivesse fadado a notar mais a presença dela do que ela a minha. Como se eu sempre fosse querê-la mais do que ela a mim. Mas naquele momento não dei importância para esses pensamentos, afinal, estava interessado na funcionária dela.
Durante seis meses frequentei as mesas do restaurante em visitas quase semanais — sempre para reencontrar a garçonete, que, mais por educação do que interesse em mim (algo que eu só descobriria mais tarde), me tratava com muita atenção. Até que soube que a garçonete era casada e, como se eu procurasse um prêmio de consolação, passei a olhar para Helena de um jeito diferente. Tudo o que me incomodava nela, da sua misantropia à pele excessivamente alva, também me atraía. E assim, quase sem perceber, como um botão de liga e desliga no meu cérebro, comecei a gostar dela. Como ela jamais esboçara nenhum interesse por mim, parti para a tática do e-mail e do Facebook. Ficamos amigos na internet, até que um dia ela me convidou para a festa de um ano do seu restaurante. Poucas pessoas, vinho e cerveja à vontade. Pela primeira vez, a vi fora de seu traje de trabalho. Avental e lenço na cabeça deram lugar a um vestido preto e uma maquiagem forte no rosto. Também foi a primeira vez que a vi sorrindo. E que sorriso! Eu já estava apaixonado e não sabia. E sequer tínhamos trocado nosso primeiro beijo.
Foi uma semana depois, quando ela me chamou para tomar uma taça de vinho na sua casa, que ficamos pela primeira vez. E foi a melhor noite da minha vida. Fomos para cama bêbados e cheios de vontade. Transamos, dormimos e acordamos com Billie Holiday tocando no seu computador. Era uma linda manhã de domingo de inverno. Ela ficou deitada enquanto eu fui ao mercado comprar leite, suco, revistas e mais camisinhas. Passamos o domingo inteiro transando. Transando e tomando café preto. Havia menos de 24 horas que tínhamos ficado pela primeira vez e eu não queria mais sair de perto da Helena. O mundo podia acabar para mim. E, desde que eu estivesse ao lado dela, morreria feliz. Era noite quando voltei para casa, e já contando as horas para vê-la novamente.
Viajei a trabalho na semana seguinte, mas quem disse que eu conseguia parar de pensar nela? Não queria fazer nada, sequer sair do hotel. Meu único desejo era voltar logo para São Paulo e tê-la de novo em meus braços. Eu mandava mensagens pelo celular, ligava, mas ela não respondia. Ou melhor, ela respondia ou atendia quando achava conveniente. Aquilo começou a me deixar angustiado. Acordava de madrugada para checar os e-mails ou ver se não tinha uma mensagem dela no Facebook. Ligava e desligava o telefone na esperança de surgir alguma mensagem que, por culpa da operadora de celular, tinha chegado atrasada. Mas nada. Passou uma semana até o nosso segundo encontro, dessa vez na minha casa. Comprei boas taças de vinho, duas garrafas de tinto e preparei uma comida simples. Mais do que o beijo e o sexo incríveis, eu gostava de ficar olhando, conversando com ela, sempre tão cheia de histórias interessantes. Seu cheiro, suas roupas, seus dedos longos e um único anel, as unhas desprovidas de qualquer coloração artificial, o cabelo solto. Eu gostava de tudo nela. Tudo.
Mas foi logo nesse segundo dia, depois do jantar, que ela veio com um balde de água fria. Estávamos deitados no sofá, seminus, e entre um beijo e outro ela me disse: “Olha, eu não quero namorar, não quero nada sério, O.K.?”. Se fosse em qualquer outra circunstância, eu nem ligaria para isso. Pelo contrário, ficaria aliviado em saber que a pessoa não iria ficar no meu pé, ligando todos os dias, perguntando onde eu ia ou o que estava fazendo. Mas a Helena, eu queria inteira para mim. Queria ter um filho com ela, envelhecer ao seu lado, conhecer sua família. É claro que, quando ela me falou que não queria nada sério, eu não esbocei nenhuma reação. Disse apenas: “O.K., eu também!”. Mas eu estava blefando, fingindo não estar nem aí. Engoli a seco e levei adiante.
Obviamente não consegui manter essa indiferença por muito tempo. Certo dia, algumas semanas depois, durante uma transa, eu falei que estava completamente apaixonado por ela. E repeti várias e várias vezes, desejando que saísse de sua boca uma afirmação semelhante: “Sim, eu também! Eu confesso, te amo! Te amo! Te amo!”. Naturalmente, só ouvi o silêncio. Toda vez que eu evidenciava a minha paixão, ela colocava o dedo indicador nos meus lábios como se pedisse para eu me calar. Em uma ocasião, me apontou para um pedaço da parede perto da sua janela em que estava escrito à caneta esferográfica azul a frase “Es tan corto el amor, y tan largo el olvido” (é tão curto o amor, tão longo o esquecimento), do Pablo Neruda. Eu estava avisado. A partir dali, qualquer envolvimento era por minha conta e risco.
Por outro lado, apesar de nem sempre atender ao telefone e insistir na ideia de que não queria nada sério, sua atitude era de uma pessoa que estava se envolvendo. Quando eu comentava a situação com as minhas amigas, elas me diziam que era uma questão de tempo. Afinal, mulher alguma deixa o homem passar o final de semana inteiro na sua casa, lhe prepara café da manhã, vai passar um final de semana junto na praia ou divide o jornal na cama se não estiver minimamente envolvida. Era engraçado porque um dia ela fazia planos comigo, comentava a possibilidade de viajarmos juntos nas férias, me convidava para jantar com a sua família, e no outro desaparecia, ficava inacessível por dias, fazia pouco caso da minha saudade. Lembro-me de várias vezes dizer para ela que estava com saudade depois de uma semana sem vê-la, e ela retrucava: “Sete dias é muito pouco tempo pra sentir saudade de alguém”. O que deveria funcionar como um repelente para mim era, na verdade, um desafio, me deixava curioso para saber o que de tão intrigante tinha aquela mulher. Gosto de desafios.
Mas a verdade é que ela não estava envolvida. Você já viu aquele filme 500 dias com ela, com a Zooey Deschanel e o Gordon-Levitt? Pois é. Eu fui o Gordon-Levitt; ela, a Zooey. Inclusive, o jeito de Helena se vestir, vestidinhos vintage em cores pastel, meia arrastão, sapatos de boneca e pouca maquiagem, em muito lembra o figurino de Zooey no filme e também na vida real. Helena era a minha Summer, que é como se chama a personagem da atriz no filme. Uma suave ida ao céu e a vertiginosa descida ao inferno é o que foi minha relação com Helena em pouco mais de 100 dias de convivência. Foram três meses de uma montanha-russa de sentimentos. Até que, numa noite de segunda-feira, tivemos a conversa final. Cada um para o seu lado. A extrema-unção veio quando, entre gritos e acusações, ela bradou: “Eu nunca vou namorar ou me apaixonar por você. Nunca! Nunca!”. Chorei dias a fio, emagreci seis quilos, fumei maços de cigarro, fiquei desmotivado com a vida e o trabalho. Felizmente não precisei pedir demissão e viajar para curar a ferida.
Agora, com a chegada do inverno, resgatei um dos meus casacos e encontrei um bilhete escrito em uma folha de caderno quadriculada. A letra era da Helena. Meu estômago queimou. Parecia que o tempo não tinha passado. Fiquei nervoso, trêmulo, meio perdido. Era o poema “O desconcerto do mundo”, de Camões, um de seus autores prediletos (ao lado de Neruda e MFK Fischer). Diz ele:
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.
No dia do seu aniversário, mandei uma mensagem pelo celular (ainda sei de cor o número). Ela me chamou para um café. Pensei, pensei, e não aceitei (sequer respondi), ainda com suas palavras estalando na minha cabeça: “Nunca! Nunca!”.
Fonte: Marie Claire
Se você quiser compartilhar sua história de vida conosco escreva para o e-mail: dankamaia@yahoo.com.br, não precisa se identificar seu anonimato será garantido.

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A CIDADE DOS LOUCOS! A HISTÓRIA DO GENOCÍDIO BRASILEIRO

Conhecida como Cidade dos Loucos, Barbacena quer se reabilitar do passado 
 
ArquivoDivulgação
O histórico prédio do Centro Hospitalar de Psiquiatria de Barbacena, em Minas Gerais, ergue-se solitário sobre uma colina. É uma presença imponente, localizada na periferia da cidade, que permanece ali, insistindo em lembrar a população local um sombrio passado que não é possível apagar.
É uma história que começou em 1903, quando a cidade foi escolhida para receber o primeiro hospital psiquiátrico de Minas Gerais, mas continuou por décadas, quando milhares de pessoas foram internadas ali, fazendo com que o município passasse a ser conhecido como a Cidade dos Loucos.

As pessoas internadas sofriam de algum distúrbio mental ou, simplesmente, apresentavam um comportamento inaceitável para o padrão conservador da época, como homossexuais ou mães solteiras, que eram despejados em Barbacena, para serem isolados da sociedade.
Essas pessoas passaram grande parte da sua vida sem qualquer contato com o mundo, enjauladas como animais, submetidas a tratamentos desumanos, a condições sanitárias inadequadas e a todo tipo de tortura. Estima-se que 60 mil pessoas tenham morrido, vítimas das condições precárias da instituição, que chegou a ser comparada a um campo de concentração pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia, em 1979.

“À medida que o Brasil foi se urbanizando, passou a ter uma dificuldade de lidar com seus loucos. A solução que existia, até então, era a reclusão. Barbacena ficou muito marcada porque ganhou uma instituição que tinha a pretensão de fazer isso em larga escala”, conta Edson Brandão, que pesquisa a história da loucura na cidade.
“A princípio, isso funcionou de forma muito positiva, mas foi desandando ao longo do tempo e formando uma tragédia, porque, quanto mais gente chegava, menos condições o hospital tinha de dar a elas um tratamento digno”, diz Brandão, que nasceu em Barbacena.
A história começou a mudar na década de 80, quando teve início no Brasil a luta antimanicomial. O movimento, idealizado por trabalhadores da área de saúde mental, previa o fim dos hospícios e a integração das pessoas com problemas mentais à sociedade. Aos poucos, Barbacena viu o cenário se transformar.
O hospital psiquiátrico continua lá. Mas não funciona mais como um hospício. Hoje, a unidade prioriza o atendimento ambulatorial. Há também uma pequena emergência, chamada de Serviço de Internação de Agudos, com 30 leitos, para internações de curta duração e recuperação de usuários de drogas. “Tentamos evitar que a internação ultrapasse os 15 dias nesses leitos de agudos”, conta a diretora interina do hospital, Mônica Chartuni.
Ainda há pessoas internadas. São 215 pacientes de longa permanência, ou seja, que estão há anos no hospital. Mas a internação é diferente daquela do passado: a maior parte das pessoas vive em enfermarias que parecem casas, no terreno do hospital, e o atendimento é feito de forma humanizada. Além disso, a proposta é que, aos poucos, elas sejam deslocadas para residências terapêuticas, isto é, casas comuns, localizadas no meio da cidade, que comportam de duas a oito pessoas.
“O Centro Hospitalar de Psiquiatria de Barbacena tem uma história de 100 anos em que chegou a abrigar 5 mil pacientes. Hoje ainda tem alguns pacientes de longa permanência que estão aguardando vagas nas residências terapêuticas. Só esperamos a abertura de vagas nessas residências [para dar alta a eles]. Agora, por exemplo, estamos preparando seis senhoras de idade avançada porque vai abrir uma nova residência terapêutica”, afirma Mônica.
A mudança no paradigma de tratamento dos pacientes com problemas mentais nos últimos anos também levou a cidade a reavaliar a própria história e a relação com a loucura. Hoje, segundo Edson Brandão, Barbacena está disposta a refletir criticamente sobre a saúde mental.
“Uma parte da população aceita isso com muita naturalidade e até se orgulha porque temos uma história de superação para contar ao mundo. Não tivemos só o hospício com suas faces negativas, também tivemos, depois, todo o trabalho de grandes profissionais de saúde que conseguiram, em poucos anos, reverter essa situação. Hoje somos um exemplo de uma cidade que absorve essa população marginalizada de forma muito eficiente”, afirma Brandão.
Segundo ele, a loucura e as tragédias que ocorreram no antigo hospício são um pedaço da história de Barbacena. “Essa história tem que ser contada e recontada, com aquela velha máxima de que, se todos conhecerem, isso não será repetido”, diz o pesquisador.

TRECHO DO LIVRO: HOLOCAUSTO BRASILEIRO DA AUTORA DANIELA ARBEX



Não se morre de loucura. Pelo menos em Barbacena. Na cidade do Holocausto brasileiro, mais de 60 mil pessoas perderam a vida no Hospital Colônia, sendo 1.853 corpos vendidos para 17 faculdades de medicina até o início dos anos 1980, um comércio que incluía ainda a negociação de peças anatômicas, como fígado e coração, além de esqueletos. As milhares de vítimas travestidas de pacientes psiquiátricos, já que mais de 70% dos internados não sofria de doença mental, sucumbiram de fome, frio, diarreia, pneumonia, maus-tratos, abandono, tortura. Para revelar uma das tragédias brasileiras mais silenciosas, a Tribuna refez os passos de uma história de extermínio. Tendo como ponto de partida as imagens do então fotógrafo da revista "O Cruzeiro", Luiz Alfredo, publicadas em 1961 e resgatadas no livro "Colônia", o jornal empreendeu uma busca pela localização de testemunhas e sobreviventes dos porões da loucura 50 anos depois. A investigação, realizada durante 30 dias, identificou a rotina de um campo de concentração, embora nenhum governo tenha sido responsabilizado até hoje por esse genocídio. A reportagem descortinou, ainda, os bastidores da reforma psiquiátrica brasileira, cuja lei sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais, editada em 2001, completa dez anos. As mudanças iniciadas em Minas alcançaram, mais tarde, outros estados, embora muitas transformações ainda estejam por fazer, conforme já apontava inspeção nacional realizada, em 2004, nos hospitais psiquiátricos do país. A série de matérias pretende mostrar a dívida histórica que a sociedade tem com os "loucos" de Barbacena, cujas ossadas encontram-se expostas em cemitério desativado da cidade.
Criado pelo governo estadual, em 1903, para oferecer "assistência aos alienados de Minas", até entã atendidos nos porões da Santa Casa, o Hospital Colônia tinha, inicialmente, capacidade para 200 leitos, mas atingiu a marca de cinco mil pacientes em 1961, tornando-se endereço de um massacre. A instituição, transformada em um dos maiores hospícios do país, começou a inchar na década de 30, mas foi durante a ditadura militar que os conceitos médicos simplesmente desapareceram. Para lá eram enviados desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive, doentes mentais.
'Trem de doido'
Sem qualquer critério para internação, os deserdados sociais chegavam a Barbacena de trem, vindos de vários cantos do país. Eles abarrotavam os vagões de carga de maneira idêntica aos judeus levados, durante a Segunda Guerra, para os campo de concentração nazista de Auschwitz, na Polônia. Os considerados loucos desembarcavam nos fundos do hospital, onde o guarda-freios desconectava o último vagão, que ficou conhecido como "trem de doido". A expressão, incorporada ao vocabulário dos mineiros, hoje define algo positivo, mas, na época, marcava o início de uma viagem sem volta ao inferno. Wellerson Durães de Alkmim, 59 anos, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, jamais esqueceu o primeiro dia em que pisou no hospital em 1975. "Eu era estudante do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, em Belo Horizonte, quando fui fazer uma visita à Colônia 'Zoológica' de Barbacena. Tinha 23 anos e foi um grande choque encontrar, no meio daquelas pessoas, uma menina de 12 anos atendida no Hospital de Neuropsiquiatria Infantil. Ela estava lá numa cela, e o que me separava dela não eram somente grades. O frio daquele maio cortava sua pele sem agasalho. A metáfora que tenho sobre aquele dia é daqueles ônibus escolares que foram fazer uma visita ao zoológico, só que não era tão divertido, e nem a gente era tão criança assim. Fiquei muito impactado e, na volta, chorei diante do que vi."
Esgoto era fonte de água de internos
Entrar na Colônia era a decretação de uma sentença de morte. Sem remédios, comida, roupas e infraestrutura, os pacientes definhavam. Ficavam nus e descalços na maior parte do tempo. No local onde haviam guardas no lugar de enfermeiros, o sentido de dignidade era desconhecido. Os internos defecavam em público e se alimentavam das próprias fezes. Faziam do esgoto que cortava os pavilhões a principal fonte de água. "Muitas das doenças eram causadas por vermes das fezes que eles comiam. A coisa era muito pior do que parece. Cheguei a ver alimentos sendo jogados em cochos, e os doidos avançando para comer, como animais. Visitei o campo de Auschwitz e não vi diferença. O que acontece lá é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente. Havia um total desinteresse pela sorte. Basta dizer que os eletrochoques eram dados indiscriminadamente. Às vezes, a energia elétrica da cidade não era suficiente para aguentar a carga. Muitos morriam, outros sofriam fraturas graves", revela o psiquiatra e escritor Ronaldo Simões Coelho, 80 anos, que trabalhou na Colônia no início da década de 60 como secretário geral da recém-criada Fundação Estadual de Assistência Psiquiátrica, substituída, em 77, pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). A Fhemig continua responsável pela instituição, reformulada a partir de 1980 e, recentemente, transformada em hospital regional. Hoje, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB) atende um universo de 50 cidades e uma população estimada em 700 mil pessoas.
Capim como cama
Os pacientes da Colônia, em sua maioria, dormiam no "leito único", denominação para o capim seco espalhado sobre o chão de cimento, que substituía as camas. O modelo chegou a ser oficialmente sugerido para outros hospitais "para suprir a falta de espaço nos quartos."
Em meio a ratos, insetos e dejetos, até 300 pessoas por pavilhão deitavam sobre a forragem vegetal. "O frio de Barbacena era um agravante, os internos dormiam em cima uns dos outros, e os debaixo morriam. De manhã, tiravam-se os cadáveres", contou o psiquiatra Jairo Toledo, diretor do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB).
Marlene Laureano, 56 anos, funcionária do CHPB desde os 20, era uma espécie de faz-tudo. "Todas as manhãs, eu tirava o capim e colocava para secar. Também dava banho nos pacientes, mas não havia roupas para vestirem. Tinha um pavilhão com 300 pessoas para alimentar, mas só tinha o suficiente para 30. Imagine! Só permaneci aqui, porque tinha a certeza de que um dia tudo isso ia melhorar, sei que Deus existe."
Sobreviventes passaram a vida internados
"Esse faleceu. Era uma delícia de pessoa. Essa morreu. Ela benzia a gente. Lembra? Olha o Raul, que saudade. Essa era bem alegre. Esse homem era engraçado, gostava de tomar conta das portas." Os comentários deMarlene Laureano sobre os pacientes fotografados por Luiz Alfredo, em 1961, não deixam dúvida de que a história da Colônia tem na morte uma de suas principais heranças. Sobreviver à Colônia é quase como confrontar o improvável. José Machado, 80 anos, Sônia Maria da Costa, 61, Maria Aparecida de Jesus, 71, e Antônio Sabino, 70, são alguns dos que conseguiram. Institucionalizados há mais de meio século, resistiram a fome, ao frio e ao tratamento desumano, mas carregam graves sequelas.
O registro de José Machado, o Machadinho, é de número 1.530. A informação sobre ele que mais se aproxima da verdade, já que a maior parte dos pacientes não tem qualquer registro sobre o seu passado, é de que deu entrada na entidade em 1959, conduzido pela polícia, após ser acusado de colocar veneno na bebida de alguém. Inocente, passou a vida encarcerado. Hoje, aos 80 anos, precisa de uma cadeira de rodas para se locomover, mantendo-se reticente na presença de estranhos.
Sebastiana Marques está em um dos cinco módulos residenciais implantados no hospital para atender os pacientes com mais autonomia. Com diagnóstico de esquizofrenia, mantém o hábito de ficar isolada e não consegue se expressar. Já Sônia é uma exceção entre os sobreviventes. Apesar de ter chegado ao hospital ainda criança, vive hoje em uma das 28 residências terapêuticas de Barbacena. Mudou-se para lá em 2003, deixando para trás uma história de eletrochoques, agressões e medo. "Lá no hospital judiavam muito da gente. Já apanhei muito, mas bati em muita gente também. Como era agressiva, me deram muito choque. Agora tenho comida gostosa, talheres e o principal: liberdade."
Museu é tributo às vítimas
Atualmente 190 pacientes asilares estão sob a guarda do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), mas sua sobrevida é estimada em, no máximo, mais uma década. "Acredito que, em dez anos, o ciclo dos porões da loucura se fecha", afirma o diretor Jairo Toledo, referindo-se às últimas testemunhas daqueles tempos de horror. Maria Cibele de Aquino, 68 anos, foi uma das baixas mais recentes. Clicada em 1961, aos 18 anos, por Luiz Alfredo, ela faleceu em 14 de setembro, na companhia das bonecas que ninou durante toda uma vida de internação. Chegou ao hospício aos 14 anos de idade e nunca saiu de lá.
Para que a memória não seja enterrada, o Museu da Loucura vai continuar lembrando o que, convenientemente, poderia ser esquecido. Idealizado por Jairo, o museu foi inaugurado, em 1996, no torreão do antigo Hospital Colônia, e pretende ser um tributo às dezenas de milhares de vítimas da lendária instituição. Dos cinco museus de Barbacena, o que se dedica a contar a história da loucura é o mais visitado por turistas.
Em 2008, a publicação do livro "Colônia", também organizado por Jairo, expôs as feridas de uma tragédia silenciosa abafada pelos muros do hospital. "Por mais duro que seja, há que se lembrar sempre, para nunca se esquecer - como se faz com o holocausto - as condições subumanas vividas naquele campo de concentração travestido de hospital. Trazer à tona a triste memória dessa travessia marcada pela iniquidade e pelo desrespeito aos direitos humanos é uma forma de consolidar a consciência social em torno de uma nova postura de atendimento, gerando uma nova página na história da saúde pública", afirmou o ex-secretário de estado da saúde de Minas, o deputado federal Marcus Pestana. (PSDB/MG). Foi ele quem viabilizou a tiragem de mil exemplares do livro "Colônia."


Fonte: http://www.tribunademinas.com.br/cidade/holocausto-brasileiro-50-anos-sem-punic-o-1.989343

 
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Confissões com um "Q" de pecado: Boquinha de Anjo




     
Oi Galera Machine! Olá minhas Ciganas! 
 Promessa é divida, está aqui no nosso primeiro conto picante da página Confissões Com Um "Q" de Pecado. Não deixe de comentar, indicar aos amigos. 

         Um posto de gasolina. Somente mais um posto de gasolina como aquele que todo mundo conhece em qualquer esquina ou rodovia do mundo. Mas o que fingiu ser comum tornou-se uma madrugada memorável para mim. Foi nele que entrei para abastecer, pelo menos foi nisso que acreditei.


 Meu nome é Laura, tenho 35 anos de idade, cabeleireira, tenho duas filhas lindas e sou casada há 14 anos. O motivo que me levou aquele posto foi mais uma briga que tive com meu marido no meio da noite. Cabeça quente, as meninas na casa de minha mãe, ingredientes perfeitos para me fazer apanhar o carro e sair sem rumo, dois quilômetros depois percebi que o tanque está quase vazio.
Desci do automóvel ainda mais irritada por não haver algum frentista por ali e ter que entrar na loja de conveniência para tentar ter um pouco de respeito no atendimento.  Respirei fundo coçando minha nuca ao constatar que somente na terceira vez o atendente notou minha presença resmungando algum nome em direção ao fundo do estabelecimento.  Para não estourar decidi sair e esperar quem quer que fosse do lado de fora.
 Pensei em meu casamento com Hugo. Um casamento que já vinha a algum tempo esfriando, tivemos várias crises e na última ele saiu de casa sem se quer falar comigo depois de eu descobrir uma de suas traições, mas quando viu que não me humilhei indo atrás dele, ele veio até mim para conversar, acabei voltando com ele, mesmo muito magoada em parte não sei se o aceitei por que ainda gosto dele ou se foi por causa das meninas.  Eu só sabia que não estava feliz e nesse impulso de pensamentos uma voz me trouxe a realidade.
— Em que posso ajudar?
 Senti certo desconforto, um arrepio subindo pela nuca e pensei até em correr de volta para casa. A vida me trouxe outra vez o meu primeiro namorado, o Tiago. Foi como sentir que o tempo congelou na noite em que terminamos por ciúmes dele com o meu atual marido. O mesmo jeito de olhar, aquela voz rouca saindo para o meu delírio daquele maxilar forte e tão delineado.
— Tiago.
— Laura. Quanto tempo...
Nessas horas o correto seria que as conversas corriqueiras acontecessem. Como vai a vida? A família? O cachorro, o papagaio e até o cú da sogra, mas tudo que ambos fizemos foi nos olhar com aquela faísca acesa pelo capricho do tempo. Perturbação era a palavra que mais nos definiria naquele momento.
— Quer encher o tanque? — apontou para o carro.
— Você está solteiro? — nem eu acreditei que perguntei isso na cara dele. Tiago sorriu daquele jeito maroto passando a mão pelos seus cabelos negros que agora começavam a ficar grisalhos.
— Eu trabalho aqui. Não sou o frentista, mas na falta de um sirvo e sim estou solteiro e você até onde soube ainda é casada. — Minhas pernas bambearam ainda mais em notar que ele sabia da minha vida.
— É... — resmunguei sem tirar os olhos de sua boca — Tem gente que nasce para ser burro como eu.
O modo como apanhou a mangueira ajeitando na boca do tanque me fez lembrar-se de como ele penetrava em mim melando-me na hora.


— Prontinho Laura. Viu? Ainda tenho jeito com a coisa.
— Certas coisas nunca mudam não é Tiago?
— Não. — confessou com outro riso sacana fechando o tanque — Não mesmo.
— Vou passar o cartão.
— Isso. Passa. Mas passa devagarzinho. Para que a pressa, não é?
Julguei-me uma louca, insana e puta. Mas antes de sair da loja onde paguei perguntei ao atendente retardado a que horas o Tiago saía e para o meu espanto era dali a vinte minutos. Tempo suficiente para me fazer deixar o local entrar no meu carro e voltar para minha vida de caos. Pois é, mas eu decidi não me despedir do Tiago, entrando no automóvel estacionei ao lado mais escuro ainda dentro do posto. Uma parte tão esquecida que era de terra batida, muito óleo queimado pelo chão e em alguns barris. Sei que ele me observou alcançando a minha intenção. Um tempo depois naquele frenesi questionando-me o que estava fazendo escutei a batida de seus dedos no vidro do motorista.
— Esperando por mim? — Ah, eu poderia justificar tantas coisas com tantas explicações, mas fui direto ao ponto:
— Sim. Algum problema? — descendo de vez o vidro que nos separava.
— Abra a porta do passageiro que eu quero entrar.
A voz rouca e imponente não me permitiu pensar em retroagir nem por um segundo.  Quando Tiago entrou já veio jogando a camisa arrancada no painel do carro, meus olhos arregalados diante daquele peito másculo e definido do jeito que eu conhecia.  Tocou minha pele como quem toca a seda. Foi suave e rejuvenescedor ver meu corpo arrepiar-se outra vez com suas mãos passeando nas esquinas do meu corpo.
— Ainda o mesmo cheiro adocicado que me enlouquecia Laura. — ele ronronou enquanto mordia a ponta da minha orelha fazendo-me vibrar por inteira com a sua respiração quente em minha nuca.


Talvez eu devesse, mas não consegui gritar, correr ou mesmo lutar contra os meus sentimentos. Não era amor, era carência, e quando o assunto é carência o Tiago é um mestre nisso. Eu fui desarmada pelas suas mãos fortes que pareciam garras de um predador insano.


Puxou minha calçinha para baixo e meu vestido para cima num piscar de olhos. Atordoada pela sua boca devorando a minha só pude sentir o tranco de uma das suas mãos arrebentando minha lingerie. Cheirou fundo, olhou-me sacana confessando:
— Vou levar comigo Laura. Seu presentinho para o seu Tiaguinho. — enfiando em seu bolso da calça.

  Meti minhas unhas criando arcos em seus braços e costas, arranhando como quem também abria seu caminho de volta, e sim o sangue brotou, mas o rosnar dele me dando tapinhas ligeiros na minha bunda e nos bicos dos meus seios quando não estavam dentro dos seus lábios fazia tudo parecer sensacional. Meu corpo ficou mais nu que o seu. O atrito veio e antes que eu pudesse gritar sua língua encontrava-se na minha com sabor da velha e boa bala de menta que eu adorava.
— Minha boquinha de anjo.
Sorri ainda embevecida pelo seu encanto. Aquele era um apelido carinhoso que ele usava toda vez que desejava que eu o chupasse. Toquei em seu membro tão rijo e aos poucos procurei a posição confortável para matar a minha sede dele. Engoli todo de uma vez, talvez medo de que aquela oportunidade se fosse ou se eu despertasse caso estivesse em um sonho.

Não pude evitar um prazer imenso. Nem o medo ou as pedrinhas do carpete do carro machucando meus joelhos impediram que a minha fome fosse impedida. A luxúria tinha um nome, o meu, Laura.
— Isso... Nossa... Do jeito que eu sempre me lembro minha Boquinha de Anjo. Putz!
Depois no movemos juntos encaixando nossos corpos com nosso sangue bombeando todo nosso tesão. Sentei nele devagar, deixei ir até o fim, ao fundo, meu mundo. Quando percebi que estava à beira do gozo dado a velocidade que fodiámos encostei minhas costas no volante do carro abrindo os braços sem parar de me mover com meus olhos dentro dos seus apenas disse no tom que o enlouquecia:
— Goza nela, goza! Goza gostoso!
Senti aquela quentura mesmo com o preservativo junto de suas mãos em meu pescoço dada a sua demência de me dar até a última gota. Por fim nos olhamos. Beijamo-nos como nos velhos tempos. Não houve conversa. Vesti minha roupa do mesmo modo que ele a dele. Tiago saiu do carro ainda ofegante. Ali entendi que o tempo havia passado mesmo para nós. Assim como eu, ele compreendia que certas coisas não poderiam jamais ser como antes. Liguei o automóvel buzinando ao passar por ele. Foi uma noite das antigas para se lembrar que o presente tem suas surpresinhas.
Danka Maia
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