De
fato o jazigo da menina, a pequena bailarina estava na parte mais afastada da
morada dos mortos. Um lugar esquecido pelos homens e seus passados
perturbadores. Judith emocionou-se ao vê-lo.
Hangra
abaixou repousando sobre a lápide botões de rosas brancas. Assim que Reis deu a
mãe um lenço para conter suas lágrimas, Vicentin chegou afoito e já indagando a
investigadora num canto.
_Por
que me mandou descobrir onde a menina tinha morrido se sabia que a mãe conhecia
o lugar?
Hangra
sorriu e fez sinal para que seu assistente a seguisse de volta a Judith.
_Judith,
desculpe mas a pergunta que não me cala precisa ser expurgada. - Hangra
referia-se ao fato da menina ter sido enterrada naquele local o que sugeria que
a paternidade de Anete fosse do então Juiz Antunes do Carmo.
A
mulher fechou o cenho, respirou fundo e principiou a falar desatinadamente:
_Senhorita
este é um segredo que jurei levar para além túmulo! – o que fez Valentin
compreender o intento de Hangra. Era óbvio que a mãe saberia onde a filha
estaria enterrada, assim como teria que expor o tal segredo se realmente fosse
o intento de fazer justiça e de cara já podia alcançar o pretexto pelo qual tão
bondosa madrinha nunca a impediu a visitação e certo contato com a criança,
entretanto nunca o tirou da sarjeta dos cortiços.- Me envolvi com Antunes na
vinda das Minas Gerais para cá senhorita. A senhorita deve conhecer os boatos a
respeito dele.
_Que
boatos? – averiguou Bento.
_O
Juiz Antunes do Carmo é também conhecido como o Senhorio dos Bokmanis - palavra
não localizada nos dicionários consultados; provavelmente trata-se de alguém
ligado ao comércio de escravos na Costa das Minas Gerais.
_Tráfico
de escravos? – ressaltou Vicentin.
_Mas
que trazes acima do pescoço, Homessa? –disparou Hangra Reis.- O que fases com
está cabeçorra que não prestas atenção alguma ao que está em vossa volta homem?
Antunes é Senhor Mor Bokmani fecha a bora pela sua posição de social e é fato
que possui um imenso Cabedal. – que eram grossos dízimos, foros ou pensões.
Judith
concluiu:
_Tenho
certeza que minha Anete foi assassinada a mando de um dos dois.
_Possivelmente-Adiantou-se
Bento com mãos na lapela.
O
que Hangra reprovou com um olhar. Dias se passaram e um alarido tomou a cidade,
pois sendo advogada, Hangra soube manejar as leis ao seu favor e evitar que
Antunes tivesse acesso ao seu pedido de exumação do corpo da filha como Juiz.
No dia da exumação, todos estavam presentes, Hangra Reis, Bento Vicentin,
Judith, a madrinha de Anete, o Padre a pedido da Madrinha e o Médico a pedido
da investigadora.
Quando
o corpo foi trago e colocado na sala cheia de barras de gelos para diminuir o
odor da putrefação, porque era dessa maneira que as coisas eram feitas.
O
médico ficou a posto esperando as perguntas de Hangra que era fulminada pelo
Juiz que chegou atrasado juntando-se a esposa que era consolada pelo padre.
_
Violar o descanso de uma criança! A senhorita teme a Deus? – Soltou o padre.
_Sim
padre. E como Ele gosto das coisas bem esclarecidas.
_Infame!–
disparou o Juiz, cuidarei que pague por isso Senhorita Hangra Reis do Brasil.
_Tem
algo a ser escondido caro Juiz Antunes? Refiro a este caso logicamente, pois
bem sei que tens e muito a ocultar dos olhos de nossa Nação, falo algo
inapropriado? – caminhando frente ao corpo da menina continuou:_ Ainda há algo
que preciso elucidar antes de avançarmos neste caso. Fui procurada pela senhora
Judith que se apresentou como mãe biológica de Anete, segundo a mesma, a garotinha
foi fruto de um caso entre ela e o nobre Juiz aqui presente, o que se confirmou
onde a pequena foi enterrada, nos Sepulcros dos Bastardos que dispensa de minha
parte explicações. Dito isto, nobre Doutor Sebastião, o ferimento que matou
Anete foi em qual direção?
O
homem examinou o corpo inocente e respondeu:
_Da
esquerda direita senhorita Reis.
_Perfeito.-
expôs Hangra.
_Com
que tipo de objeto?
_Provavelmente
lâmina muito fina, mas profunda.
_Interessante.-
objetou a moça outra vez. O senhor se atreveria dizer mais sobre tal objeto?
Faca? Punhal? Estilete?
_Nenhum
deles com certeza. Foi um elemento mais fino e pontiagudo.
_Entendo.-
obtemperou Reis andando de um lado a outro. _ Senhora Francisca Do
Carmo,naquele momento em que Anete parou para ser pintada saberia nos contar
para onde lançava seu olhar?
_Sim.
A frente dela estavam meu marido.
_Sozinho?
A
mulher o olhou sério e fez uma revelação capciosa:
_Pelo
que vi, do ângulo que me encontrava, havia alguém conversando com ele atrás da
cortina do lado esquerdo, mas não sei quem, não vi a pessoa.
_Só
mais uma coisa senhora...A credita que seu marido seria capaz de matar a filha
bastarda por alguma razão?
_Jamais.
Antunes é um homem de poucas palavras porém, sempre foi muito carinhoso com
Anete como eu também.
Foi
quando Judith se pronunciou:
_Vosmicê?
Faça me rir! Aturou minha Anete goela adentro como licor de bacalhau, em tempo
algum teve por ela, amor de mãe!
_Judith...Sempre
amei Anete como a filha que não pude ter.
_E
as escoriações que meu anjinho apresentava pelo corpo? Machas, hematomas? Como
paravam nela?
Hangra
interferiu.
_Como
eram essas lacerações senhora Judith?
_Digna
de pena. Todas! Não suporto se quer lembrar.
Hangra
olhou o corpo da menina e depois de analisa-lo pediu ao médico que o tapasse e
o levasse para um local privado do que seria revelado. A senhorita
posicionou-se no meio da sala e foi enfática:
_O
assassino de Anete encontra-se nessa sala senhores.
-
Foi quando o Diligência surgiu com alguns guardas para efetuar a prisão
previamente avisados por Reis.
_Como
pode ter tanta certeza? – Perguntou o padre.
_Dados,
dados, dados, não faço tijolos sem barros Padre. - gracejou sem perder a
seriedade que a questão exigia.
Todos
emudeceram afoitos.
_O
assassino de Anete foi muito perspicaz. Inclusive porque premeditou o crime,
uma vez que sabia que naquele dia o quadro da menina estava sendo pintado e
como qualquer criança,lançaria seus olhos encantados para pessoas que amava,
por isso lançou o olhar para o pai, o Juiz Antunes do Carmo.
_Como
ousa Hangra Reis? Acusar-me de matar minha filha?
_Só
pode ter sido vosmicê! Monstro! -berrou Judith.
_Antunes!!!!-Do
Carmo caiu nos braços do Padre foi quando o Chefe de Polícia volveu-se a ele
para prendê-lo e Hangra o impediu arguindo:
_Permita-me
terminar. - A jovem prosseguiu:_ Entretanto, isso não faz do Juiz o chacino da
pequena bailarina.
_Quem
então? Ela era bastarda. Como explicaria a filha bastarda sendo um juiz? Se não
foi ele, quem mais poderia cometer tamanho ato?– questionou Bento afoito como
todos os outros.
Hangra
deliberou:
_Sabe
há curiosidades muito pertinentes no corpo humano. Imaginem que uma pessoa que
é canhota, tem por hábito em reflexos ocultar-se sempre no lado esquerdo. Assim
também como toca e usa coisas no dia a dia, e segue ao agredir ou para
defender-se, o canhoto sempre sucede do mesmo modo, para direita. E o homicida
de Anete era esquerdo. Também era ambicioso, coisas suntuosas, belas, como
casas de alto de nível por exemplo. Naquele dia fatídico certamente seu
executor tentou remediar algo com Juiz Antunes, ele não aceitou o fato de ser
meramente excluído e decidiu romper com o silêncio que seria além-túmulo. -
Lançando o olhar para mãe que transformou o semblante de dor em surpresa e deixou
escapar num balbucio:
_Como
soube?
Hangra
parou rente a ela a enfrentou cara a cara:
_Percebi
que era canhota desde quando li sua carta jogada em minha casa senhora Judith,
mas aquela persistente inclinação para esquerda no topo dos tis, traços e assentos
são reveladores, o que confirmei quando fomos apresentadas. Como pegou a
xícara, como apoiou-se para adentrar na carruagem. Todavia, foi o seu deslumbre
pela minha residência que me observa-la mais de perto. De repente sua tristeza
de uma mãe justiceira diante dos mimos que o dinheiro pode nos dar confesso fez
mostrar o quanto sua cobiça era notória. Tudo em meu lar era tão lindo aos seus
olhos. Fulgente mesmo foi quando lhe emprestei o lenço diante da lápide de
Anete, mais uma vez a senhora o apanha com a mão esquerda e ao me devolver
percebo que jazia seco, perguntei-me para onde foram aquelas lágrimas tão
copiosas e absorvente a instantes de mim? A senhora Judith jamais amou Anete
fez dela um moeda de troca, que com o tempo viu que não seria tão simples
assim. Haja vista também que as escoriações que cometeu na menina eram na
intenção que o pai voltasse contra sua esposa por maltratar a filha e quem sabe
ter uma nova família com a costureira.Por isso naquele dia em que o quadro foi
pintado foi também a última que visitou o Juiz conversando com ele no lado
esquerdo da cortina para onde a filha olhou porque certamente a viu ou ouviu
sua voz. Anete não olhou para o pai, o que prendeu sua atenção foi a mãe.
_Mas
por quê vosmicê? - quis saber o Juiz.
_Ela
sabia do entrevero entre nós Juiz Antunes, supôs que faria de tudo para
incrimina-lo.No entanto, esqueceu que procura a justiça seja como ela for e não
cartas marcadas.
_Mas
como matou a menina?
_Um
corte producente da esquerda para direita, de uma lâmina fina, uma agulha.Que
mais um lavadeira e costureira pode ter em casa para cometer tal ato. Minto
Doutor?
_Não,
uma agulha seria completamente compatível com os machucados.
E
foi quando os guardas a prenderam e a levaram.
Na
saída Antunes veio ter com Hangra:
_Obrigado.De
fato Judith vinha tentando convencer-me algum tempo dos maus tratos que Anete
sofria,ela alegava a minha senhora,contudo via como Chica amava minha Anete.E
naquele dia foi mesmo ela quem conversava comigo as escondidas,mas nossa
bailarina viu.Numa das inúmeras ameaças que me fez,disse que muito me
arrependeria,no entanto em tempo algum cogitei tal desgraça,ela sempre
aparentou amar a criança.E depois se foi.
_Não
tem que me agradecer, fiz isso em memória de sua filha. Agora a pequena
bailarina poderá dançar nos céus dos anjos e em paz. No entanto, se quiser
realmente agradar-me Juiz, dê a sua filha o lugar que merece. Um funeral justo,
repouse seu corpo no Mausoléu de sua família porque é lá que Anete deve ficar.
Dias
depois O casal Carmo refez o funeral da menina. E ao sair do cemitério Hangra e
Bento que foram convidados de honra, trocavam palavras quando a moça
descontinuou os passos como quem vira algo.
Um
ar correu entre os dois,o ar ficou mais leve,um ruido como uma gostosa
gargalhada se perdeu.
_O
que foi Hangra? - investigou Vicentin que nada via onde ela repousava o olhar.
_Nada.
Só me emocionei por um instante.
_Por
quê?
_É
assim que me sinto toda vez que posso ver uma bailarina dançando - respondeu
abrandada pondo-se a conversar outra vez.