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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A MORTE NO DIVÃ

                          




Ela sentou-se deprimida, cansada e muito abatida. Era a quinta paciente do Doutor Epitáfio naquela tarde ensolarada no mês de Março.O psiquiatra estranhou a palidez de sua pele,algo sobre-comum para uma pessoa.Olhou a ficha entregue pela secretária no entanto notou que o único dado que continha era no mínimo inusitado, estranhou ,sentou-se depois de pedir que se acomoda-se no divã e a questionou:
_Então, como posso ajuda-la, senhora...
_Morte. Sou a Dona Morte, Doutor Epitáfio.
O terapeuta sorriu discretamente, talvez intuísse que o caso era grave, porém não incomum, ali já passara diversas vezes Madonas,Elvis e até o próprio Cristo.
_E como se sente sendo a... Dona Morte?- investigou.
_Terrivelmente cansada. Não aguento mais tratar com esta situação.Estou exausta.Sou obrigada todos os dias a lidar com o último alguma coisa da vida.Sejam pessoas, sentimentos, fauna ou flora.O senhor já parou para pensar nisto: Tudo morre o tempo todo? E a culpa é sempre minha! É deverás stressante convencer, gente principalmente, que tem que largar o marido, a esposa, os filhos e o cartão de crédito, tem indivíduos que pedem para eu dar um minutinho para ir ao banheiro! O senhor acredita nisto? Para que ir ao banheiro se em seguida o sujeito vai morrer? Outro dia, um teve a pachorra de me perguntar se aceitava cartão de crédito para voltar no mês que vem! E mais, ao contrário do que se pensa quem mais tenta barganhar passagem ou prolongamento na fila de espera comigo não são só os ricos não. Tanto rico como pobre. O pobre quer que espere a loteria para saber se ganhou na megassena, o rico quer que aguarde para saber se os fundos de finanças dele vai dobrar na alta do dólar.Pelos Céus! Esse povo esqueceu o que significa morrer?
Epitáfio se espantou com a veemência de como a sua paciente descrevera toda a intensidade de sua psique.E achou melhor após ouvi-la por atraentes quarenta minutos,uma vez que suas delongas eram de fato interessantíssimas, receitar um calmante e explicou a função do medicamento.
_Quero que a senhora tome este medicamento por três dias.Ele permitirá que fique mais relaxada, e assim fazer o seu trabalho mais calma e de forma serena.
_E quando o turno for 48 por 12 horas? Faço o que Doutor?- sacudindo a receita na frente dele.
_Pode dobrar a medicação. O importante é que você se sinta feliz! Agora após esses três dias, quero que a senhora volte e assim poderemos rever melhor toda essa situação e avaliar de forma mais realista o que está lhe advindo.
_O senhor quer dizer que se tiver que lidar com aqueles casos mais bizarros. O senhor entende do que falo, suponho. É um homem bem informado, tem alguns casos que as pessoas simplesmente se negam e se negam, eu tenho que praticamente chamar o B.O.P.E para fazer o serviço porque sozinha não dou conta.È faca na caveira total!
Epitáfio caminho guiando até a porta e foi enfático:
_Quando esse caso lhe sobrevier, a senhora pode com certeza tomar mais um capsula, respirar e fazer o seu trabalho na santa paz.
_Ah... Muito obrigado, Douto Epitáfio! O senhor realmente é um dos melhores. Passar bem viu.
E lá se foi a Dona Morte. Cecília adentrou minutos depois no escritório e perguntou inocentemente:
_Doutor posso mandar a quinta paciente entrar?
E Epitáfio gelou.
_Mas... E a moça que estava comigo aqui nestes últimos quarenta minutos?
_Que moça Doutor?- Cecília replicou. - Percebi que o senhor conversava com alguém, entretanto como deu os quarenta e cinco minutos ninguém saiu e o senhor abriu a porta, entendi que podia avisar da quinta paciente.
O homem sorriu sem dar maiores explicações e atendeu a quinta, sexta e todas as demais pacientes do resto do dia. Por dias e meses aquela mulher ficou sim em sua mente, mas como bom médico atribuiu o fato para um mal entendido e nada mais.
Passaram-se quinze anos.Dia 16 de maio, duas e vinte seis da tarde.Epitáfio estava prestes a fechar o consultório,faltava apenas mais uma cliente.E quando esta rompeu pelo batente da porta seu olhar a reconheceu no mesmo instante, nada havia mudado em sua face.A não ser pelo fato de estava ávida, contente e disposta.
Ele emudeceu ela fez as honrarias.
_Doutor Epitáfio! Que saudade do senhor!
_Quanto tempo Dona...- Na esperança de que enfim soubesse seu nome.
_Dona Morte, quem mais seria Doutor?- rindo com um tapinha no ombro do médico.
Desbotado e afrouxando o nó da gravata,Epitáfio sentou-se.
_Se me recordo bem da última vez que esteve aqui, disse a senhora que voltasse três dias e se não me falha a memória isto não sucedeu.
_Sim.Mas o remédio que o senhor me receitou foi batata! Revitalizou-me. Foi como recuperar a alegria de viver, quer dizer, de matar outra vez. Estou plena desde então. O povo está morrendo como nunca aposentei até o B.O.P.E!
_Magnífico. - O homem sussurrou entre os dentes. - Nesse caso, o que a trás de novo ao meu consultório, quer levar alta?- gracejou.
_Não Doutor Epitáfio. É com muito pesar que tenho que lhe contar que dessa vez o meu serviço é o senhor. Está na hora de cantar para subir.O senhor já bateu na casa dos 80, viveu bem,deu umas boas gargalhadas,pulou umas cercas maneiras que eu sei.-gargalhando- Então agora o senhor vem comigo!- já o pegando pelo braço.
_Não!- Epitáfio protestou. - Não posso sair daqui assim não!
_E por quê?- Dona Morte assumidamente indagou pondo a mão na cintura.
_Porque...Porque...Porque preciso ver o casamento da minha neta Julinha.
_Doutor... O senhor já viu doze enterros de amigos e parentes, cinco casamentos, os três dos seus filhos e dois de seus netos, a Julinha é filha bastarda do safado do seu filho que emprenhou a menina lá de Olaria, a Julinha está com seis anos e o senhor vem falar que quer viver para ver o casamento dela? Está me tentando passar para trás Doutor?
_Veja Dona Morte, além do mais eu careço de tempo para passar minhas senhas para minha senhora e acertar faturas de alguns ...
Ela cruzou os braços completando a frase.
_Cartão de Crédito, senhor Epitáfio! Cartão de crédito! Tem certeza que vai mandar essa para mim, o Doutor esqueceu que fui eu quem lhe contei essa é?
_Pelo amor de Deus!
_Não bota o Homem no meio disso não, porque se o doutor facilitar e se trânsito daqui para cima não estiver na hora de pico vai dar para o senhor fazer um D.R com Ele hoje ainda. Ai vocês se acertam. Vamos embora?- O pegando pela lapela outra vez.
_Dona Morte! Não faça  isso!- Se segurando com toda força nas paredes.
No entanto a circunstância delicada a Dona Morte arregaçou as mangas do vestido, jogou os cabelos para trás e fez um olhar nada agradável.
_Se o Doutor prefere assim, do jeito mais complicado, assim será!
E foi neste instante que sacou do busto um vidro daquele medicamento tomou duas cápsulas falando:
_Foi o senhor mandou para os casos difíceis lembra?
_Mas...
_O senhor disse: O importante é você ser feliz! Nesse caso, vamos embora Doutor.- carregando o pobre psiquiatra nas costas e indo para aquele lado que todos sabemos porém que ninguém quer ir.Afinal,vale a frase:Todo mundo quer ir para céu,mas ninguém quer morrer.